Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Uma autoridade nacional dos desportos seria uma boa ideia (I)

30 de Agosto, 2018
O nosso país caminha inexoravelmente para a herança daquilo que tem vindo a perder. Isso não vai estancar enquanto deixarmos a nossa Educação estar assim. O nosso destino desportivo colectivo começa no dia em que deixámos de investir no INEF; e as universidades chegaram com vaidade nuns cursos de motricidade, sem grande margem de possibilidade de frequência para a esmagadora maioria dos candidatos a formandos. E quando assim sucede, mais realista parece a profecia de que ‘quando colapsar a educação, colapsa a nação’. Assim foi inspirado o meu tema de hoje, baseado no lema ‘no poupar está o ganho’. Escrevo este novo alerta aos fazedores de cálculos orçamentais nas mais pequenas, médias e grandes unidades orçamentais, as quais precisam de mais oxigénio numa altura em que a tesouraria nacional está carregada de monóxido de carbono, daí, a perspicácia na elaboração dos orçamentos para 2019. Educação e formação são dois itens orçamentais que dificilmente aparecem depois executados, por não serem entendidos como vistos ao representarem uma despesa de investimento, daí, a importância de se pensar nisso de maneira planeada e planificada, bem assim como transversal. É que a qualidade das forças produtivas e recursos humanos de um país depende disso numa primeira etapa do seu desenvolvimento. No poupar está o ganho, havia começado por dizer. Um bom recomeço de Angola na austeridade, no sector do desporto, seria de facto mudar para melhor começando por reduzir a gordura, obesidade funcional e desperdício de recursos para o desporto, que anda a nível nacional pelas repartições pelo MINJUD, ainda por cima sobredimensionadas e improdutivas. Para se dinamizar a juventude e organizar o desporto é precisa além da genica, ter a especialidade. E uma alta autoridade teria, além da cintura mais fina, a necessária especialidade. Um ministério dado a jovens políticos a título de prémio de fim de carreira nas fileiras da juventude do partido, ou provenientes da elite desportista que abraçou a política, ou foi por ela abraçada, é uma utopia que não se deve repetir na actualidade. Alta Autoridade, uma boa ideia. Coisa mais simples e objectiva, sem aquele peso e guarda-roupa todo do ministério, pesado onde quer que apareça, até nas províncias que fazem quase nenhum desporto. É uma valência igualmente importante dessa tal entidade, escrutinar para onde Angola deva evoluir desportivamente. Domingo último, 26, via pela televisão a Ministra e o Secretário de Estado do MINJUD e dos desportos respectivamente, qual deles o mais embevecido diante da pessoa de José Eduardo dos Santos, que eu reconheço como sendo um dos esteios da afirmação desportiva de Angola após a independência nacional e, nos momentos mais críticos, um dos principais apostadores no desenvolvimento do desporto angolano de rendimento e paralímpico. Desde o dia em que, em 1979, o então ‘Presidente’ mandou o Secretário de Estado, Ruy Mingas, acelerar o processo de criação das federações desportivas angolanas e da sua filiação nas respectivas organizações internacionais, empreendida com o concurso dos primeiros presidentes de federações nacionais, todos eles encabeçados por Rogério Silva, havia ali a impressão digital e vontade política expressa, do então Presidente de Angola. Zedu deu lastro e azo à imaginação, no desporto. Então, íamos já em 1981, prestámo-nos a organizar os Segundo Jogos da África Central, e foi um êxito que se somava à conquista recente dos primeiros dois ‘Afrobasket Júnior’ da ainda chamada AFABA, hoje FIBA-África. Havia, então, sido acordado o gigante, e José Eduardo dos Santos quase sempre seria omnipresente nos grandes impulsos dados ao crescimento do desporto angolano, verdade se diga, em uma época de maior rigor orçamental e das contas públicas, até entrarmos para a economia de mercado e para aquilo a que vimos assistindo todos os dias, um pouco. Este não é um artigo sobre o legado de Zedu ao desporto angolano, mas também podia ser, justamente; este é simplesmente um ‘retrato de família’ que fizeram a ministra e o secretário, com o antigo ‘Presidente’, mas sem uma relação aparente na partilha de ideais e ideias sobre o desporto angolano. E essa é a pena, que me faz escrever e tocar nisso, porque era importante que aquela osmose realmente existisse entre o ex-Presidente e a sua ‘jovem guarda’ posta no activo. O legado deixado é uma das coisas mais importantes, à hora da partida. E o que deixa Zedu, mostrarão os jovens que promover o seu partido, à direcção do desporto angolano, neste caso. Domingo, 26, nos Coqueiros, o ‘Homem’ esteva ali a premiar o capitão da equipa vencedora do torneio de futebol de veteranos e velhas guardas alusivo à sua figura e data de aniversário; ainda que fosse a título privado, a presença daqueles dois fiéis e decerto adoradores do Segundo Presidente da República, embevecidos como mostrados nas imagens que a televisão nos trouxe, eram dois desportistas gratos, mais do que dois continuadores ali perfilados. No dia em que Zedu percebeu que ia sobrar nada de obra no futebol da sua geração, apadrinhou ele mesmo a AFA. E o resultado não tardou. Poucos sabem que a ‘escolinha’ da AFA tem dominado torneios de futebol de 7, a nível mundial, e lançado já alguns atletas ainda jovens, em pequenos clubes de Espanha, para ali serem polidos e desfrutar convenientemente da sua margem de progressão. Essa visão do percurso internacional da reconstrução do futebol angolano já havia tido o ‘Presidente’, quando aceitou que o espanhol Ramón fosse o seu director técnico, depois da FAF, ainda que no papel, pois, foi descoberto em férias por um grande da Espanha e contratado sem possibilidade de recusa, comprovando que a AFA havia estado em excelentes mãos e que a federação acabara de perder uma oportunidade das grandes. Hoje, Ramón é director do futebol do Club Espanyol de Barcelona. É óbvio que haveria já que começar a tratar de obter forma de colar alguém a Ramón, depressa, mas, a expensas de um ‘programa’, dos vários que pode haver no desporto, e não só, para se promover o talento angolano que se desperdiça com cada geração que cresce e envelhece sem proveito desportivo e, mais extensamente, cultural. Por exemplo, Vaselin Vesko trabalhou e lançou a geração que, depois, Oliveira Gonçalves elevou a campeã africana de Sub-20, em 2001, e empurrou Angola até ao Mundial de 2006, na Alemanha, onde a plêiade de expatriados chegou depois em força, ao Onze. O que nos resta? A meu ver, a AFA é presentemente a única organização desportiva capacitada para transformar o talento da pequenada, partindo do seu formato social, que espere ter auto-sustentabilidade, após o redimensionamento das entidades julgadas de interesse público, ou dependentes de fundos ou subsídios estatais como o de fomento, por exemplo. Ao contrário do que se possa presumir, não seria o subsídio que iria determinar a vida facilitada para muitas escolinhas; seria mais a sua real capacitação como empresa e dispôr da formação especializada, dos seus quadros e colaboradores. Aqui vamos recair na questão da formação de quadros, antes exposta na figura do estado de situação do próprio INEF, antigo alfobre de competentes quadros nacionais que ergueram o desportos dos Anos 80, a 2000, grosso modo. A visão da AFA foi, naturalmente, a do ‘Presidente’ e aquela que o MINJUD reflecte diverge vertiginosamente no escopo que prossegue da área da direcção nacional do desporto, que inexiste como projecto aos olhos de todos na actualidade. Onde a corrente institucional divergiu de talhe, foi ali onde o modelo da academia jovem incorporou a escola e os estudantes-atletas gozam de um modelo de desenvolvimento integrado, que remete para exemplo, o modelo da AFA. Melhor teriam feito no MINJUD se apadrinhassem um programa transversal para resgatar talentos angolanos, promessas, programas sociais de apoio e incentivo desportivo, com recolha de benefícios a cada menos de dois ciclos olímpicos, portanto, nada mais do que outros têm feito em seus países igualmente empobrecidos, mas estruturados em termos desportivos, enquanto nós só batemos palmas.
CONTINUA

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