Jornal dos Desportos

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Opinião

Uma Copa no Marrocos daria para 6

12 de Abril, 2018
Fazendo contas... A indústria do futebol tem crescido espantosamente e os interesses financeiros podem vir a prevalecer quando a FIFA escolher a 13 de Junho o país ou países organizadores da Copa de 2026, durante o próximo congresso da família do futebol em Moscovo, principal palco da Copa da Rússia que vai escaldar o país da tundra e derreter um pouco o gelo siberiano.
Nessa corrida, dum lado vai estar o Marrocos, e do outro um trio formado por Canadá, Estados Unidos da América e México. E diante deles a plateia mundial do eleitorado, todos os países e um voto de cada.
Quando a organização planetária do futebol estremeceu e começou o rosário da antiga direcção da FIFA encabeçada por Sepp Blatter, quem por sua vez arrastaria o então presidente da UEFA e seu delfim Michel Platini, não foi apenas Gianni Infantino quem emergiu para presidente do órgão maior, mas toda uma nova ordem mundial do futebol que ali nasceu.
Tudo remonta a Joanesburgo, em 2010, e a 2012, antes do Mundial do Brasil, em 2014; a atribuição das Copas de 2018, à Rússia, e de 2022, ao Qatar, causaram uma avalanche na federação internacional, que havia começado por acusações de favorecimento até se falar de votos comprados, ficar patente a irritação de países derrotados como Inglaterra e Estados Unidos, tendo este ido mais fundo no caso.
No dia em que os norte-americanos envolveram o FBI e depois accionaram a política bancária e deixaram os suíços da UBS assustados com a ameaça velada de terem a licença suspensa nos Estados Unidos, abriram-se todas as bocas de ventilação e até o sigilo bancário foi quebrado nesse vendaval. Nesse dia o mundo percebeu como ‘compliance’ e ‘accountability’ estão a formatar as novas sociedades, depois das novas tecnologias as terem preparado para isso.
Assim o mundo assistia incrédulo a um congresso da FIFA com cenas de filme policial e acabado em duas mãos cheias de altas patentes do futebol detidas e aprisionadas, indiciadas e arguidas, com o próprio presidente Blatter à cabeça clamando inocência enquanto a sua carreira era metida na guilhotina.
E do outro lado da barricada imaginária estava o Mercado, representado entre outros por Estados Unidos e Reino Unido, em particular a Inglaterra, principais países acusadores, um com o FBI e outro com a BBC no principal papel acusatório, porém, desse no que desse, com o congresso extraordinário da FIFA a ser apressado para preencher a vaga do velho general suíço derrubado, eis que a sua oitava maravilha do planeta estava tal e qual um castelo de cartas a desmoronar.
Em África estava-se expectante que esse maremoto não atingisse o continente, porém, foi até imaturo pensar julgar assim, pois, 55 votos não se deixam nunca ao abandono – Infantino sabia disso de cor e salteado - e assim se vieram a pré-determinar os factos que se haveriam de suceder.
África tem um peso específico no futebol mundial, seja como eleitorado, seja como força competitiva e provedora de alguns dos maiores craques já vistos no futebol mundial. E não seria de outra fórmula que haveríamos de chegar a ter actualmente 5 lugares no sorteio da fase final da Copa.
Saído ileso do escândalo FIFA, numa primeira vaga de acontecimentos, o camaronês Issa Hayatou, então presidente da CAF candidato a mais um mandato, empurrado por práticamente toda a África francófona, havia pensado em tudo menos na sorte que lhe esperava.
Aqui na nossa região apareceria o segundo atrevido, ou ousado dependendo da perspectiva, depois do angolano Armando Machado, que ousaria desafiar o velho Issa. O que não se contava era que esse candidato era também o homem preferido da FIFA, e aí, ‘bye bye, Cinderela’. Já era...
O desafiante malgaxe até podia não ter grande vulto até então, porém, Ahmad chegou a presidente da federação do seu país e foi galgando postos, primeiramente de ministro das pescas e recursos florestais, depois senador, não tendo descartado apresentar-se um dia às eleições gerais no Madagáscar, ou acabar à frente da União Africana, actualmente o seu maior desejo.
Ora, o novo patrão do futebol Africano, desde a vitória, passou a ser visto como marioneta do Egipto e do Marrocos principalmente, mas, com certa genuinidade, Ahmad é agora o rosto visível das aspirações continentais da Zona VI, e se a sul-africana Dlamini-Zuma perdeu o cadeirão da União Africana, em compensação, Ahmad Ahmad ascendeu à presidência do futebol africano e isso é igualmente importante.
Homem de mão ou não, chegou a vez de Ahmad e a sua organização demonstrarem que são profundamente africanas e que a candidatura do Marrocos será sempre a candidatura de África também. Será que é assim que pensa também Gianni Infantino?
Em várias ocasiões a FIFA deixou perceber o peso das decisões de mercado e realmente a Copa é presumível que gere pelo menos três vezes mais receita para o futebol se for naqueles três países ditos do primeiro mundo, do que sendo em África e no Marrocos.
Ou seja, mais do que o novo Presidente da CAF, é o futebol africano quem está metido entre a espada e a parede; dum lado a CAF e do outro, a FIFA; dum lado Ahmad e do outro, o seu promotor a presidente, Infantini; e Ahmad fica tão tenso na foto que é consabido que vai sempre sair mal dela em relação a um dos lados, os marroquinos sobretudo se perderem, ou Infantino, se de facto África comprometer o sonho do triplo da receita, como a Fifa deve pensar hoje na Copa de 2026.
Não é a primeira vez que o Marrocos passa por estas angústias, contudo, foi graças à primeira delas, que o país deu a si mesmo um grande empurrão criando novas e mais modernos infra-estruturas, a começar por boas estradas e uma paisagem na sua maioria de agricultura mecanizada apesar do deserto, com boa estrutura para o turismo, modernas telecomunicações e aeroportos, clínicas e estádios.
Esta é a segunda vez que o Marrocos e África enfrentam a oposição do Ocidente, depois de em 1998 o Marrocos ter perdido para a Alemanha a sua primeira tentativa, então para a Copa de 2006. Mais uma vez o Reino do Marrocos envia a África os seus embaixadores de candidatura, por sinal dois vultos do futebol africano dos Anos 80 e 90, o camaronês Joseph Antoine Bell e o senegalês El Hadji Doiuf, respectivamente dos melhores guarda-redes e ‘matadores’ que o desporto-rei já teve no continente.
Depois da África do Sul, em 2010, o Marrocos almeja ter a mesma oportunidade reconhecida e dada ao nosso continente, tido que para Copas do Mundos e Jogos Olímpicos sempre há um espírito de universalidade a respeitar, daí a rotatividade continental das oportunidades.
Quer a África do Sul, quer o Brasil, quatro anos depois disso, e Rússia, este ano, e Qatar daqui a quatro, completam uma ronda pelos 4 grandes continentes, aumentando as esperanças dos africanos. E são vários os seus argumentos contra a oposição, representada pelo trio Canadá, Estados Unidos da América e México.
O México já organizou o Mundial duas vezes, então por que um continente tão grande como África não pode hospedar o mundial também duas vezes, interroga-se o senegalês Diouf.
A FIFA desenvolveu a copa do mundo para ser um destino turístico e uma festa do turismo e da cultura, mas, segundo Joseph Antoine Bell, Canadá-Estados Unidos-México não prevêem apenas um visto, mas três! E as facilidades de fronteira entre eles, assim como os seus tamanhos superiores ao do Marrocos dezenas de vezes, tornam as distâncias em viagens de um dia para se poder ir ver outro jogo noutra cidade, algo que no Marrocos não passaria de 3 horas de estrada, congratulam-se aqueles embaixadores.
A nossa candidatura começou há 2 anos e 2 meses, dizia Asmar, oficial do comité de candidatura, que integra a delegação, e que defendia que o Marrocos havia respondido com plenitude ao caderno de encargos.
O Marrocos, sublinhou inclusive Diouf, deverá ser neste momento dos países mais seguros do mundo, que organizou duas vezes o mundial de clubes e estamos a falar de clubes como Real Madrid, Barcelona, todas as estrelas principais e foi tal o impacto, que trocando ideias entre amigos, hoje são várias as estrelas mundiais do futebol que escolhem passar férias no Marrocos, pelo que é uma verdade que hoje aquele reino pode organizar qualquer competição, enfatizou o senegalês.
Após a África do Sul ter organizado a primeira Copa do Mundo FIFA, como homenagem à estatura de Nelson Mandela, era a vez de África abençoar o esforço do Rei Mohamed VI pela juventude africana, disse ainda El Hadji Diouf.
Com efeito, o acento tónico político da candidatura do Marrocos é a juventude continental; de facto, o Marrocos tem acolhido milhares de jovens e famílias africanas que em vão tentaram imigrar para a Europa, que ficaram na ressaca dos naufrágios em massa, que a Europa e União Africana fizeram por conter. Desde então tem sido o Marrocos um país tampão e centro de recolha dos refugiados, ao mesmo tempo que pode ser um país de oportunidades para se estudar e trabalhar.
Se uma Copa em África levaria menos africanos a procurar exílio por não terem que viajar para poder desfrutar do show planetário do futebol, tal não deixa de ser um pretexto interessante, mas, será que isso vai condoer o resto do planeta?
Outros condimentos políticos inquinam a questão do próximo organizador da Copa ser o país de Donald Trump, pois, como realça Antoine Bell, um país que quer um muro na fronteira com outro que é co-organizador, deixa muito a desejar e, além disso, o camaronês ressalta que os Estados Unidos e Canadá até nem são países do futebol, tendo-se interrogado se é para aí que a FIFA nos quer convidar?
Na Europa e Marrocos há hora igual, o que quer dizer que todo o planeta não precisa de mudar os seus hábitos para ver uma Copa do Mundo pela televisão. Além disso a questão migratória nos Estados Unidos é a barreira que se sabe, enquanto o Marrocos tem as portas abertas e sem mudarmos de fuso, sublinhou o camaronês Bell.
A candidatura do Marrocos é uma candidatura africana e é mais fácil pegar aqui um voo e ir à Copa do Mundo no Marrocos, do que sair daqui para o México ou Canadá, e o que será um facto é que cada vez que África se unir ela vai ganhar, defendeu o senegalês El Hadji Diouf.
Para este jovem que emigrou um dia montado numa bola de futebol, votar na candidatura do Marrocos é votar contra a imigração clandestina, e votar pela candidatura do Marrocos é votar pelo desenvolvimento em África, porque os Africanos quando se dão as mãos são unidos e fortes, reiterou a revelação da copa de 2002.
Sucede que, para a escolha do organizador da Copa de 2026 não é assim tanto favas contadas, pois, ainda que unido, o forte contingente de eleitorado de África vai ver-se confrontado com os interesses de um triplo, pelo menos, de países de outros continentes, cujos desígnios se desconhecem e, em opinião muito sincera, será uma incógnita com forte probabilidade de nos sair o tiro pela culatra, no dia 13 de junho.
A hora e a vez de África poder decidir, será? Se for, poderemos lá ter 6 países africanos..
Arlindo Macedo


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