Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Uma espreitadela ao basquetebol

12 de Março, 2020
Em relação a conquista do Campeonato Nacional de Futebol sénior masculino, vulgo, Girabola Zap, edição 2019/2020, tenho comigo que muita coisa ainda vai mudar até ao seu término, pelo que se recomenda alguma cautela na manifestação dos sentimentos, que rapidamente podem alterar, da alegria à tristeza e vice e versa.
Aliás, não fosse o factor surpresa, por esta altura, o 1º de Agosto estaria a encomendar as faixas de campeão e o merecido regabofe, e na antítese, o actual líder, Petro de Luanda, contentar-se com o facto de, mais uma vez, ficar sem vencer o troféu maior da nossa competição futebolística.
E sem qualquer reserva afirmo, que o tempo de jejum que o Petro de Luanda observa sem ganhar o Girabola tem sido um tónico para a reacção emotiva de muitos dos seus adeptos, alguns deles espargindo a alegria de quem pensa que as coisas já estejam definidas, restando apenas a consolação aos demais.
Apesar de reconhecendo mérito na liderança do clube do eixo viário, prefiro alistar-me no “exército” dos que defendem que no futebol as coisas são do momento e uma das realidades sublime é que as coisas não acabam como começam e, por conta disso, há que manter certa serenidade e esperar pelos melhores dias, pelo simples prazer de
saborear a conquista, pelo “Glorioso Pri”, de um penta.
Todavia, e enquanto o lobo não chega, como se diz na gíria, lanço o olhar ao basquetebol nacional, que verdade seja dita, está muito longe dos níveis já ostentados por África fora, e um pouco por todo o mundo onde chegamos, sendo bom que se diga, por mérito próprio, numa altura que a base do sucesso era só e somente a dedicação ao trabalho, e o resto não passava disto mesmo.
Hoje por hoje, a modalidade está num verdadeiro marasmo, feito um arco íris, onde tudo pode acontecer, desde a greve dos árbitros ao não pagamento do que se deve ao treinador norte-americano, prova mais que evidente, que impõe-se um murro na mesa, a ver se as coisas mudam de figura.
É que as coisas andaram tão (a) normais ao ponto do silêncio de quem que, por direito, deve dizer e fazer alguma coisa, comparar-se à cumplicidade na preferência do injusto pelo justo, como se o basquetebol nunca ocupou o lugar da mais titulada das modalidades angolanas, a nível do continente.
Talvez assim se percebe que, entre sucessos desportivos, incumprimentos financeiros,
hecatombes administrativas, para não destoar, vem outrem que diz que a comissão que actualmente gere a FAB não vai pagar os salários em atraso do anterior treinador.
Brada-se aos céus mas, este tipo de discurso musculado não pode ter o beneplácito da família do basquetebol, até porque a mais básica teoria da gestão ensina que, quer os activos como os passivos devem ser assumidos pelos substitutos, desde que, claro, existam provas de que eles resultam de operações legais e necessárias.
Não pretendendo, com este texto, promover qualquer manifestação que não seja a minha repulsa individual pelo estado em que atiraram o basquetebol, que classifico como estando em “coma induzido” ou “digna desgraça”, situação que em nada abona a abnegação que um dia tiveram pessoas como Vitorino Cunha, Vladimiro Romero, Pires Ferreira, Tonecas, só para citar estes.
E por que o leme do desporto angolano está nas mãos de dois ex grandes praticantes, por sinal das modalidades rainhas – andebol e basquetebol; do nosso metier desportivo, com todo o respeito que me merecem a Ministra e o Secretário de Estado,mormente, Ana Paula e Carlos Almeida, deve ser feito muito mais em prol da modalidade.
Mais do que tudo, parece não interessar a ninguém a actuação de certos actores sociais, cujo exercício inclina-se à tentativa de adoçar a pílula, tal é a apetência ora para silêncio, ora para a omissão e não poucas vezes, para a defesa do erro/errado/errantes, e nisso anda o nosso basquetebol, que precisa urgentemente de um choque terapêutico, ou se tanto, um murro na mesa. Carlos Calongo

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