Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Uma esttua para "Pepino"

26 de Outubro, 2015
Lembro-me que no tempo da minha meninice, no bairro Popular nº 02, na ex- vila Salazar, hoje cidade de N’Dalatando, capital da província do Cuanza-Norte, onde na quadra da então Casa do Povo, com piso de cimento e por vezes debaixo de sol abrasador, participava de tronco nu e descalço, em “trumunos” que iniciavam no período da manhã e terminavam ao fim da tarde quando o sol se escondia para dar lugar a noite.

Eram os saudosos “trumunos” entre ruas, bairros, turmas e escolas, que nos dias que correm, dada a pequena dimensão com que são organizados, têm tendência a acabar. Lembro-me de ver, no início da década de setenta, os ciclistas que por ali passavam com destino a cidade do Uíje, antiga Carmona, saídos de Luanda, em disputa do troféu do Grande Prémio Nocal, em representação, entre outros, do Clube Desportivo Sangalhos, da SONIVER e Benfica de Luanda.

Lembro-me, também, de saber pelo então jornal a “Província de Angola”, transformado em Jornal de Angola, que todos dias por volta das 10 horas, chegava àquela cidade, via automotora (comboio rápido), que Alberto Silva, o popular “Pepino”, na altura um com cerca de 60 (sessenta) anos de idade, percorria a pé, os cerca de 600 (seiscentos) quilómetros, que separam a cidade de Benguela, onde continua a residir e a cidade do Huambo.

“Pepino”, que com os membros do clã Araújo (os manos Carlos e Justiniano), assim como o já falecido progenitor, Leonel, deram corpo ao ciclismo de competição, no período pós – Independência Nacional, poucos dias depois do 11 de Novembro de 1975, percorreu a pé, a distância entre Benguela e Luanda, percurso que igualmente percorreu, em 1992, para saudar as primeiras eleições gerais realizadas em Angola, tendo em 2007, pedalado a mesma distância.

Em 2010/2011, o “velho” com 87 “cacimbos”, pai do campeão da primeira volta a Angola, que recentemente percorreu dez províncias, Igor Silva, tomou parte nos Jogos Olímpicos de seniores, para atletas com idades compreendidas entre os 85 e 89 anos, em São Francisco (Estados Unidos da América), que muitos convencionaram apelidar de Campeonato do Mundo da terceira idade.

Não deixa de ser regozijante, o facto de o elenco directivo da FACI (Federação Angolana de Ciclismo) e cidadãos de boa vontade, não terem olhado a meios e a formas, para levarem a cabo a primeira volta à Angola, que contou com a participação de atletas angolanos, franceses, congoleses democratas e santomenses.

Não obstante a crise económica e financeira internacional, a qual Angola não está isenta, a “família” do ciclismo, num exemplo que deve ser seguido pelos demais agentes desportivos, demonstrou que com pouco, mas com determinação, organização e força de querer, é possível levar a cabo actividades de dimensão nacional e de grandeza internacional, que ajudam os cidadãos de todos os extractos sociais, a exprimirem alguns momentos de satisfação e de alegria.

Independentemente da elevada quantidade de meios humanos e materiais que movimentou, a primeira edição da volta a Angola, em ciclismo, constitui um motivo de satisfação para todos os angolanos, cujos organizadores, que já preparam a próxima, a ter lugar em Outubro do próximo ano, merecem igualmente o apreço de todos os angolanos. A prova, não obstante se ter restringido a apenas dez províncias, constituiu-se num elemento que personificou a Unidade Nacional.

Tanto quanto se sabe, a organização pretende aproveitar o facto de na edição do corrente ano, apenas uma atleta do sexo feminino ter participado (Graça Gonçalves), para que em 2016, o género tenha uma participação mais abrangente. Não me vou deter sobre o Grande Prémio “Tritex”, que numa organização da África Têxtil de Benguela, empresa que na década de oitenta suportou financeiramente o 1º de Maio, e que naquela década considerada a competição ciclística mais importante de Angola, ao serviço do Jornal de Angola, tive o privilégio de cobrir.

Apenas referir que naquela altura, “Pepino”, pedalava diariamente cerca de 30 quilómetros, integrado no Grupo Desportivo “Muxima”, do qual foi proprietário, cognome da marcenaria, igualmente sua pertença. Foi nessa época que o primeiro campeão nacional de ciclismo, tomou contacto com o A,B e C da modalidade.

Mais do que um exemplo a ser seguido não só pelos jovens, o “jovem” Pepino, no alto dos seus cerca de 90 (noventa) anos de idade, que continua a esbanjar jovialidade, em função da prática desportiva que continua a desenvolver no activo, deve ser considerado um símbolo do desporto nacional. Para além das homenagens de que deve ser alvo por parte de todas as organizações e organismos estatais e não-governamentais, por que razão os deputados à Assembleia Nacional, não estudam a possibilidade de se erguer uma estátua em sua homenagem, por tudo quanto fez e continua a fazer pelo desporto nacional?
LEONEL LIBÓRIO

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