Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Uma vela sem canoa

18 de Outubro, 2016

A Vela deu um ar da sua graça, e também da graça da baía de Luada, uma das sete mais belas do planeta, e está em vias de ser trocada pela paisagem importada dos Emirados Unidos, o espaço privilegiado para realizar os desportos náuticos, isto é, navegação, como sejam, a Canoagem, o Remo e a Vela.

O Campeonato de África de Optimist que Angola organizou, veio não só confirmar a estirpe de campeão, como também o sucesso da escola do Clube Naval de Luanda - para quem não sabe, o clube mais antigo de África -, que presentemente desempenha o papel de viveiro principal dos desportos náuticos em Angola, para não dizer o mais bem sucedido de entre eles. Os outros, são o Lobito Sport Club Ferrovia e a Casa do Pessoal do Porto do Lobito.

Quanto ao novo campeão Africano de Vela Optimist, Osvaldo da Gama “Vado”, de 12 anos de idade, acaba de certificar que tem o ADN e “pedigree”, ou estirpe do tio, o antigo vice -campeão do Mundo de Vela Vaurian, Manuel Filipe “Luvambo”, irmão de sua mãe, facto que mata a charada ao conferir o factor congénito comum de ambos, que é terem o sangue temperado com o sal do mar.

É de realçar, que o campeonato foi realizado com 47 dos 55 barcos optimist vindos para Angola, à consignação, ou seja, pagos após a posse. Da encomenda fazem ainda parte dois barcos a motor, semi-rígidos de apoio, e cinco embarcações da classe 420, para treinar as próximas tripulações da classe 470 olímpica. Ora, tudo isso por 161 mil Euros, algo como o preço médio de um carro de topo de gama média e que vai ser um espanto, se Angola não concretizar este investimento que já começou a dar frutos.

Não deixa de ser um facto, deveras curioso, que uma associação desportiva que consegue o feito único e exclusivo, de juntar no seu seio três desportos olímpicos, a Federação Angolana de Desportos Náuticos, apenas viva de uma dotação orçamental anual de dez mil dólares, algo que mal dá para custear uma temporada, as sapatilhas de uma selecção de Andebol ou de Basquetebol. E as modalidades náuticas, nomeadamente, a Canoagem, Vela e Remo são todas olímpicas! Bem, quase todas.

Em 2016 não vimos, a outrora tão vibrante Canoagem Angolana a navegar no Rio, nas águas olímpicas em Jacarepaguá. Sumia a dupla olímpica de remadores, Pacavira e Henriques, que ficou sem canoa para remar. Com efeito, o promotor

pessoal da Canoagem e, aliás, um entusiasta dos desportos náuticos transversal, Rui Sancho, deixou de sustentar do seu bolso, quer o nascimento como o crescimento da Canoagem por 15 anos, através da sua empresa Lótus, não tendo o Estado a capacidade de reabilitar aquela que foi a primeira safra da Canoagem em Angola, algo inexistente nos começos do novo milénio, apesar dos excelentes recursos hídricos de Angola para a modalidade, particularmente, na região Centro -Leste, no Moxico e Cuando-Cubango.

Esta primeira falha, de um ciclo olímpico da Canoagem, aponta para o pior. O que deve seguir-se é tentar interpretar como pode Angola num ano, estrear-se em Remo nos Jogos Olímpicos (2016, Rio) e nesse momento estar em falta, precisamente, com aquela outra modalidade que vinha sendo a porta-estandarte dos seus Desportos Náuticos, que era a Canoagem. Acabou, não há mais Pacavira e Henriques!? Ora, não faz sentido.

O país desportivo tem de saber o que quer e a “inteligentsia” e ciência desportiva têm de dar mãos, e começar a nortear os objectivos dos parcos recursos orçamentais do Desporto nacional, trocar a duplexidade discursiva por maior determinação e objectividade política, deste modo, tendo uma voz e uma acção mais coincidentes na promoção das modalidades desportivas Angolanas na base do mérito e dos resultados.

O populismo de ensacar tudo, junto na hora de dividir , pode ser um exercício aparentemente democrático, porém, nenhuma democracia tinha de tolerar que se gastassem em sumário desperdício aqueles escassos recursos vitais, para atingir o sucesso naquilo que for mais acertado, e desse modo servir o supremo objectivo de projectar a imagem de um país, da sua sociedade, cultura e desporto, através do movimento olímpico internacional, mas também das competições regulares das respectivas federações internacionais e de África. Tal como os Desportos Náuticos, a Ginástica deve também expandir a mente visionária quer do Desporto em geral, quer do Movimento Nacional Olímpico, em particular.
ARLINDO MACEDO

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