Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Vade Retro Satans

11 de Janeiro, 2017
O último ano foi particularmente amargo para os principais emblemas do basquetebol Angolano, pese o sucesso do Interclube em femininos na Taça de Clubes Campeões. Clubes que agora parece cultivarem a despesa em vez do investimento a ponto das suas finanças entrarem em coma, guardado em sigilo, só pelo cego afã de ganhar a todo o custo e “deixar obra”.

Deviam ter já feito uma reflexão sobre o desaire do seu Plano 2016 ao haver deixado o Cairo de cabeça baixa .Libolo e 1º de Agosto foram dois dos emblemas que investiram fortemente, mas regressaram como finalista vencido e oitavo classificado respectivamente. Convenhamos, foi um fracasso. E outra super-despesa sem sequer um pouco de sabor a investimento.

Não investirá nunca quem não criar recursos próprios, a seu tempo auto-suficientes; ninguém investe naquilo que não for seu e as aves de arriba que o novo basquetebol Angolano tem ido buscar nem do clube são, ou seja, não são produto nosso, não se identificam coma selecção nacional, serão sempre a nova cooperação.E deste modo de agora não se cultivar, vão já demasiados anos e mandatos sem termos viveiro próprio.

Ao inverso da geração fundadora do basquetebol na Angola independente, esta nova geração do dirigismo nos clubes e associações parece não ter retido grande coisa do tempo em que usufruíram como atletas, incluindo a imagem e o exemplo dos bons dirigentes que tiveram; mais parecem ter melhor aprendido com aqueles poucos e maus que costumavam meter a mão na massa, ao contrários dos vários que deixaram obra e um nome honrado para sempre no Desporto.

Certamente esta nova mentalidade explique o despesismo sem investimento em que vivem e por que se recandidatam e sucedem uns aos outros. Ao contrário, os dirigentes que eles tinham enquanto atletas era gente inclusive com tempo e atenção genuína pelo viveiro e que frequentava diariamente as pré-selecções, pais por excelência e fiéis condutores de homens orgulhosos do seu papel e da juventude que a seus olhos construíam, que haviam sido antigos bons alunos e companheiros que bebiam dos exemplos da geração do Velho Demo (Demóstenes de Almeida) e tinham assento na escola onde um tempo houve o programa de educação física dinamizado por outra figura emérita da história do nosso Desporto, o então Professor Daniel Leite, pai do INEF que hoje jaz entre o papel meramente formal e a qualidade simplesmente elementar.

A falta de bons exemplos do passado misturados com a arrogância peculiar do novo dirigismo, além de confirmar a pobreza que grassa entre esta nova estirpe dirigente, destapa um sério retrocesso em moldes e tratos que o Desporto angolano já havia conquistado, graças a fiéis continuadores como foi a geração da extinta Secretaria De Estado Da Educação Física E Desportos (SEEFD, anos 80) onde se haviam concentrado figuras relevantes como as de Rui Mingas, José Sardinha de Castro, Guilherme Espírito Santo, Fernando Matos Fernandes, a linha da frente de uma plêiade de excelentes jovens técnicos da igualha de Victorino Cunha, que se haviam especializado em metodologia de alto rendimento.

Hoje e quase sem excepção, não há clube ou associação onde esteja bem claro se o programa técnico tem realmente por detrás um director técnico reconhecido, ou a vontade expressa do presidente e só muito eventualmente de toda a direcção. Hoje não há mais a “academia” que havia por se terem diluído valores, conhecimentos e competências, para além dos laços que havia entre técnicos e particularmente com antigos seleccionadores, apesar das suas agora irrelevantes fricções. Hoje as associações de treinadores mais parecem entidade que faz literalmente nada; é uma ruptura do tipo “o vosso tempo foi outro, agora nós é que sabemos!”.E hoje chegámos a tal ponto que em muitos clubes e direcções técnicas é mesmo o pseudo-entendido do Sr. Presidente quem escolhe os reforços e treinador; e tanto fará que isso dê certo, como errado.

Assim e regressando ao veio da questão do retrocesso nos maiores expoentes desportivos Angolanos, à excepção das Senhoras do andebol e do basquetebol, enfrentamos tempos confusos e de confusão enquanto procuramos explicações para a derrota conjunta do basquetebol Angolano, do Clube Recreativo do Libolo e do Clube Primeiro de Agosto, no final do ano; essas três entidades que deviam estar a viver do produto do tal trabalho por se ver feito nas camadas jovens e que seriam como as escolas do nosso basquetebol, que se vêem apenas muito raramente e talvez nem sempre dispondo das melhores condições e recursos incluindo humanos.

É um facto que o país andou coleccionando uns títulos de jovens, como o de Sub-18, em Agosto. Mas a prática tem mostrado que estes são apenas campeões sem, futuro, dado que a sua margem de progressão é retardada pela sobre-população de estrangeiros nos clubes, bem como a falta de um regulamento interno que proteja a dupla-categoria, única chance de (apenas alguns dos) campeões jovens conseguirem saborear uma oportunidade de jogar precocemente na equipa principal do clube.

Outro pormenor da queda abrupta do basquetebol tem a ver com a actual autonomia metodológica dos treinadores desobrigados de quaisquer entendimentos com a direcção técnica das federações, assim dito por se tratar de um problema transversal; em nenhuma modalidade existirá essa concertação a bem do basquetebol nacional, ou do futebol nacional, dado o liberalismo em que caímos quanto ao bem colectivo e seu futuro, ou então quanto às tais competências das direcções técnicas.

Mas será que o director não tem competência para se saber impor aos seus pares nacionais e estrangeiros, ou o director não o será propriamente? Saberá essa figura gizar políticas e linhas de acção, a bem da potenciação da modalidade individual e colectivamente? Saberá depois fazer a ponte com os seleccionadores e os treinadores em geral, mas acima de tudo, saberá estabelecer um diálogo sem complexos nem tibiezas e, ainda mais, promoverá ele troca de experiências e indagações relativamente a aspectos sagrados do “nosso Basquetebol, segundo o primado da Selecção” que era característico do regulamento e quotidiano nos anos dourados do nosso Desporto?

Quando um dia um país se viciar a naturalizar jogadores para preencher lacunas nas selecções ao aspirara içar-se a sua bandeira nos grandes areópagos, será como comprar tudo feito, deixando de fazer outra coisa do que isso, comprar. E depressa se hão-de esquecer todos que um dia isso já se fez, mas parece que custa prosseguir, até mesmo só imitar. Ou tentar.

Actualmente a mentalidade do Angolano impele-o a conquistar muito depressa e de preferência sem trabalho, rapidamente e fugaz que seja. Os Angolanos assistiram a demasiadas coisas que iludem ser possível haver dinheiro fácil, proveito fácil e lucro fácil; e assim se sucederam entre nós os genros caça-dotes, os dirigentes caça-protagonismo, os oportunistas caça-mandato, e outros desditos que aumentam na nossa sociedade o grau de concentração de imprestáveis. Portanto isto já se tornou sociológico. E por isso cada vez menos se aceita começar pela base, ou primeiro ter de mostrar trabalho, ou ainda ter um primeiro carro que não seja topo de gama. Gente supérflua e desprovida de utilidade.

Mas se a maioria achar desprestigiante trabalhar nas camadas jovens, como se mais parecessem garimpeiros dos talentos, esquecem-se de como se chega de pequeno à porta grande, ao invés de se querer entrar pequeno pela porta grande. E isto é ainda sociológico. Vejamos um entre poucos exemplos brilhantes actuais: o olheiro e treinador de jovens Anselmo Monteiro, um director do estado que no fim do trabalho atravessa Luanda de Talatona ao Eixo Viário para ir treinar jovens no Petro Atlético, há sucessivos anos que treina esta tal geração de campeões Africanos de jovens sem lugar assegurado nos seniores, algo assim como o gás que não aproveitávamos quando extraíssemos petróleo. O exemplo é de tipo “ela, por ela”; e mostra-nos o que é desperdício.

A marca da nova geração é realmente o desperdício. E não é por falta de modelos, nem de educação, mas de padrões de exigência comportamental e de prestação de provas. Ora, uma sociedade que já provou que também se passa sem ser preciso saber, esta geração do desperdício e líquida, que dilui até boas obras e exemplos, é a prova de que vivemos tempos de demasiado aventureirismo e desconexos das boas e saudáveis práticas. O desporto é somente a maior vitrina desta constatação.

Quando recordo o fatídico intento do antigo craque e treinador Zé Carlos Guimarães ter “desconseguido” mobilizar Luanda para um projecto de mini-basket, que depois ele foi desabrochar em Cabinda com o apoio do então Governador Aníbal Rocha, ou ainda mais recentemente quando as “juventudes” ignoraram o potencial de mobilização juvenil da Abrua, uma associação que hoje estaria entre nós de modo pioneiro e genuíno a fomentar o jogo Basquetebol 3x3 (3 contra 3), ou seja, bastas e fartas provas de que em Angola já não se fazem nem adultos, nem dirigentes como antigamente.
ARLINDO MACEDO

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