Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Vamos lotaria...

25 de Junho, 2018
Roleta da sorte, é, a bem dizer, a jornada que hoje tem início, para aquelas equipas que até aqui não definiram a sua condição. Ou seja, as que ficaram penduradas, entre a qualificação e a desqualificação. É uma situação, realmente, complicada mas a que se vão os concorrentes sujeitar, com vontade ou sem ela. É o jogo da lotaria.
Condicionadas estão ainda muitas equipas, e, como se não bastasse, este periclitante cenário envolve selecções de topo, aquelas que todo bom apreciador de futebol não espera ver fracassar já nesta fase, sendo afinal elas que emprestam grandeza competitiva à prova e, acima de tudo, outro toque de qualidade futebolística.
Para mal dos pecados, neste campeonato os \"grandes\" não foram bem recebidos. Quase que foram se esfarelando nas primeiras duas jornadas, até chegarem aqui condicionados. Por mais poderosos que sejam, alguns não dependem de si só, aguardam por uma mãozinha alheia, o que não confere tranquilidade.
É certo que quanto a equipas que somam quatro pontos, como são os casos do Brasil, Alemanha, Portugal e Espanha a dependência não se deve considerar total, pois elas precisam apenas vencer, para tocar a vida para frente. Mas o mesmo não se pode dizer quanto à Argentina, que até aqui somou apenas um ínfimo ponto.
Portanto, a situação não é muito simpática em certos agrupamentos. Por exemplo, no grupo dos ibéricos, embora quer Portugal quer Espanha estejam fora da dependência, porém não será nenhum desatino aferir, que tanto uma como outra selecção pode ter a desdita de fazer as malas, se não tomarem as cautelas que se exigem, sobretudo os Tugas. Pois, o Irão está confiante e de olho aos oitavos-de-final, o que não será pedir demais, à despeito do futebol que tem produzido.
Apesar de em provas do género ser logo de início que se devem resolver as coisas, sendo a melhor forma de se evitar situações de risco, não se pode crucificar as equipas que deixaram pontos pelo caminho. Pois, não o fizeram por incompetência competitiva, mas por mérito dos adversários que tiveram pela frente, que, diga-se de passagem, se apresentam na prova com forte determinação.
De resto, o futebol tem a faculdade de criar este pomo de discórdia. Muitos estão aflitos perante o risco de selecções consagradas ficarem pelo caminho, mas no começo todos aplaudiram a determinação evidenciada por selecções com as quais poucos contavam, sendo este quesito que valoriza qualquer competição. Muitos aplaudiram a vitória do México sobre a campeã Alemanha, e a resistência que o Irão impôs a Espanha.
Se calhar, por aí não tenhamos razões de recear a queda dos \"colossos\". Verdadeiro \"colosso\" é quem joga grande, e não aquele que ostenta o nome, em função do histórico ou dos louros do passado. É para esta realidade que devemos despertar. Portanto, se a Argentina, Alemanha ou Brasil caírem na primeira fase, o campeonato não há-de parar. Perde sim, um pouco da sua graça, mas continuará a ser animado por aqueles que se fazem apresentar com um futebol alegre e vistoso.
O problema é que o mundo se acostumou a olhar para os coleccionadores de troféus com outros olhos, tomando-os como actores primários, se nos for permitido levar a conversa para o mundo da Sétima Arte. Mas, é que do grosso dos chamados \"parentes pobres\", pode sair alguém capaz de surpreender a tudo e a todos.
Aliás, quando em 1974 a prova se disputou na Alemanha, era para as selecções que já tinham sido campeãs, que estavam voltadas as atenções. Embora os anfitriões tenham ganho, foi porém uma Holanda, que apareceu com um futebol que, à época, se convencionou chamar \"carrossel holandês\", que chegou à final . Johan Cruyff e companheiros foram verdadeiros heróis.
Portanto, é normal que na sequência do tempo surjam novos protagonistas. Vale dizer que se selecções de nomeada fracassarem na fase que começa hoje, a disputa simultânea da última jornada, não cairão o Carmo e Trindade. Até porque já dizem os videntes que esta edição vai consagrar um campeão, que nunca tinha antes subido ao pódio. Vamos, pois, à lotaria...
Matias Adriano

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