Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Vamos voltar a ter futebol (I)

13 de Outubro, 2018
Rumores não desmentidos de que o antigo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, terá dado a Casa do Desportista da Ilha de Luanda já se ouvira, mas a doação, salvo termo mais acertado, do agora chamado parque de campismo de Benguela, que na realidade é o projecto do Campus Olímpico, não havia ainda vindo a lume tão claramente. O vasto e requintado complexo projectado e deixado a mais de metade, havia sido iniciado para acolher os Jogos da CPLP, que à ultima hora não aconteceram ali. Assim estão a circular inclusive facsimiles de documentos e mapas e fotos, que parecem verosímeis daquilo que retratam, apesar de o jornalismo ser contrário à fofoca e buscar sempre as fontes e testemunhas, mas sucede que as testemunhas destes casos raramente existem ou aparecem.
Daí factos primeiro aparecerem como rumores. Sem desmentidos. Nem esclarecimentos. Um dos nossos maiores problemas em administração é a falta das vias normais. Normalmente as coisas devem acontecer e saber-se sem suscitar rumores, intriga ou inveja, porque a sorte é sempre de quem a tiver.
E esta foi sempre a grande questão do nosso jornalismo: a informação por vias normais. Daí resvalar-se facilmente do rigor e cair eventualmente em alguma especulação, a qual, tanto quanto o rumor, apelam sempre a um esclarecimento público.
Para mais, sendo uma questão de Estado, ou pelo menos atinente ao ente que ele representa e que é o colectivo e a nação. Quando estamos na era do satélite e já vamos quase no segundo foguetão lançado a pretexto de melhorar as comunicações, projecto que inclusive é de um ministério, das telecomunicações e novas tecnologias, é presumível que entre as telecomunicações esteja igualmente na agenda da entidade, para melhor exploração das telecomunicações e novas tecnologias já a nível de foguetões, tenha na terra uma sociedade de informação e uma sociedade em rede, o que não é ainda o nosso caso.
Mesmo assim, vendo-se a carroça à frente dos bois, é defensável que a passada niveladora do Chefe do Executivo lance a cada discurso comandos absolutamente legítimos, sobre como o Estado tem de ser e deve agir.
Ele pretende ser o líder de uma revolução cultural que já se impunha, pois, os angolanos estavam a deixar de saber ser e estar como tal, sem uma orientação nem exemplo capaz de determinar como deve ser a nossa sociedade. E cheguei até sociedade porque a razão de ser e de estar unidos em tudo, inclusive no crédito e na dívida do país, é presumir-se sermos um grupo só, a sociedade e a sua unidade nacional, ou já não é assim?
Por aquelas se tratar de questões de interesse público e postas a circular à má fila, sem a devida comunicação institucional constituída para tais casos e situações de potencial contrassenso e embaraço ético-político, é que o tema faz hoje de saca-rolha daquilo que venho dizer e começo por sublinhar que as instituições devem esforçar-se por ser mais transparentes e neutralizar actos maliciosos de difamação.
Na Finlândia têm sido os jornais quem tem tirado muito pão às redes sociais, através da elevação do jornalismo local e a preferência social natural por verdades confirmadas e impressas. Entre nós temos muitos títulos de imprensa escrita e poucas fontes de informação, por falta da tal sociedade em rede que não temos ainda, porém sobra-nos sempre o Diário da República; sucede que essa informação sobre alegadas doações de património e infraestruturas do Estado não vem lá.
Nem haverá quem se preste a responder. Numa sociedade em rede, saber-se-ia só com um ‘click’ tudo aquilo que fosse informação de interesse público, para além dos pedidos de comparência. E assim já saberíamos onde ir ver se, realmente, haviam sido oferecidos ou postos com dono, a Casa do Desportista, o Campus Olímpico de Benguela, vulgo parque de campismo, ou o Hotel Palanca, ou ainda o “11 de Novembro” e já agora toda a longa lista de infraestruturas públicas do desporto, sob alçada privada.
O desporto é uma actividade social útil, impiedosamente desprotegida cada vez mais, alicerce para a vida privada de muitos e que caberia bem na máscara de uma teta sem rei nem roque, que oxalá tenha os dias contados.
A miudagem havia perdido primeiro espaços livres e os terrenos baldios, que serviam para a recriação nos bairros, mas que eram parcelas que cobiçavam os futuros donos dos prédios e condomínios ali onde nasceram, então, aprofundar mais o sacrifício social subvertendo espaços públicos ‘ad eternum’ em posse privada, é como ter dado algo e ponto final. Mas se a moda pegar vai ser uma hecatombe ecológica e entorpecente para o desenvolvimento a que tanto aspiramos, por que lutamos, mas que ainda não temos.
É que cada vez que começamos a desfrutar, parece que nos tiram a seguir e assim parece-me que continuaremos a perder activos do desporto nacional. Assim e concluindo, a Casa do Desportista, o Parque de Campismo, foram dados, cedidos ou o quê? Esta é a questão donde esta conversa partiu. E a tese. Sem antítese, pois a sua antítese é a própria prática havida na realidade. Agora só resta apurar-se a síntese.
O regime informal de se malbaratar os bens públicos e falando concretamente do sector do desporto, o regime de andar sem prestar contas nem dar cavaco, poderá ter os dias contados, se a Fiscalidade do país completar o discurso do Chefe do Executivo. Uma das possíveis primeiras consequências seria, então, o saneamento e a revisão sobre as razões de ser e de estar, para justificar a ocupação de áreas desportivas por interesses paralelos e concorrentes, porque nem sequer desportivos são.
O estádio da Cidadela é um macro-exemplo do cosmos de interesses que se acotovelam, beliscam e mordiscam interesses que realmente esbulham receitas do desporto, acobertam ateliês, bancos, escritórios e oficinas, sem se vislumbrar para onde vão os rendimentos e, inclusive, o Fundo de Desenvolvimento do Desporto, pois, se há entidades públicas que obtêm receitas e não prestam contas publicamente e auditadas independentemente, o MINJUD é uma dessas instituições do Estado com receitas.
Arlindo Macedo

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