Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Teixeira Cndido

Verdade que a FAF nega

01 de Maio, 2015
A entrevista de Manucho Gonçalves ao jornal “ABOLA”, edição de quintafeira, legitima uma afirmação que fiz há tempos. Temos hoje dirigentes amadores para um desporto profissional. Manucho Gonçalves diz nessa entrevista que enquanto capitão dos Palancas Negras exigia apenas melhores condições para a selecção, e não outra coisa, como “dinheiro”, por exemplo. O jogador diz que foi mal compreendido.

Ou disseram que estava com manias de quem jogava na Europa. Aliás, riscaram-no das convocatórias dos Palancas Negras. Todas essas revelações
de Manucho Gonçalves não surpreendem quem acompanha o futebol, quem anda nos seus corredores e quem lida com esses dirigentes. Sinto que eles vivem num mundo à parte, apesar de viajarem incessantemente para a Europa, Portugal maioritariamente, assistindo jogos de grandes clubes portugueses como os vemos exibidos no facebook, vestindo camisolas do FC Porto, Sport Lisboa e Benfica ou Sporting.

E sentados em camarotes vip. Porém, de lá não trazem quase nenhum ensinamento. Ou pelo menos não há reflexo dessa “experiência” que assimilam de uma realidade mais evoluída do que a nossa. Temos infelizmente dirigentes que não compreenderam que o desporto hoje é transversal. Exige quase a mesma filosofia de trabalho, as mesmas condições (não iguais) para os resultados positivos que se esperam.

É líquido, como dizer que Jesus Cristo morreu na Cruz, que os jogadores que militam na Europa apresentam um desgaste físico que não lhes permite mais andar sete ou oito horas de voo em situação de desconforto. Ou em classes económicas, sob pena de comprometer o seu rendimento. É razoável que um jogador não fique duas ou três horas no aeroporto à espera que seja alojado num hotel. É razoável que os jogadores não possam ficar mais
duas ou três horas no trânsito.

Não é profissional obrigar que a equipa que podia fazer três horas, de Luanda até Abidjan, vá primeiro ao Dubai (são sete horas) e depois regresse à Costa do Marfim, fazendo outras cinco horas. Nenhum jogador talhado em ambiente de extrema organização como Alemanha, Holanda e Espanha aceita não ter um galhardete para oferecer a outro capitão, como aconteceu agora no amistoso com a Costa do Marfim.

Não se justifica que um jogador não possa oferecer a sua camisola a um adepto ou fã, no final do jogo, porque corre o risco de jogar de tronco nu na próxima partida da Selecção Nacional. Em pleno século XXI, não pode haver dificuldades para se convocar um jogador, mesmo que milite no Cazaquistão ou no Haiti.

São essas situações atadas que concorrem para os bons e melhores resultados, e não tanto os milhões. Só desse modo se explica o êxito das selecções como Zâmbia e Cabo Verde, mesmo não tendo milhões de orçamentos e jogadores do top mundial. Organização é precisamente o lado
mais débil do consulado de Pedro Neto, cujo epicentro foi aquele episódio de jogadores angolanos terem sido impedidos de contribuírem pela selecção por um treinador adversário.

Quem não concorda com Manucho Gonçalves nessa perspectiva pertence a outro planeta. Quem não reconhece que a Federação Angolana de Futebol padece dessas e de outras situações que comprometem o êxito dos Palancas Negras, não acompanha o futebol. Aproximamo-nos das eliminatórias para o CAN2017, no Gabão. Todas as questões administrativas podiam já estar a ser resolvidas, porém, não será surpresa alguma se os Palancas Negras tiverem dificuldades no decurso das eliminatórias. Mais do que a conferência do futebol, é preciso arrumar a casa.

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