Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Verdadeira derrocada

07 de Abril, 2015
O fim-de-semana não foi simpático, para as equipas angolanas, que estavam envolvidas nas competições africanas. Portanto, quem ainda estiver incrédulo, não pense que esteja a sonhar, e que num ápice o sono o liberta para a realidade. Desenganem-se.Kabuscorp, Benfica e Petro de Luanda foram liminarmente afastados. A verdade é nua e crua. Por ora, não lhes resta senão carpir a desdita e fazer um diagnóstico analítico que ajude a identificar as causas do desaire.

Onde devem ter claudicado as equipas angolanas? É exactamente aqui, nesse quesito em que deve estar a questão da abordagem, quanto mais não seja uma situação recorrente, que não concorre à projecção dos nossos clubes à ribalta do futebol africano. Depois da estreia no longínquo 1981 nesse convívio, preocupa saber porque ainda andamos a minguar, com prestações pouco auspiciosas.

Na verdade, se nos anos 80 equipas angolanas como 1º de Agosto, Petro de Luanda e 1º de Maio de Benguela já punham o continente em sentido, (que o diga o Ashant Kotoko de Kumasi), faz espécie hoje, que é suposto o nosso futebol ter conhecido outro padrão de evolução, estarmos tão vulneráveis à fúria competitiva dos outros. Falta de ousadia? falta de atitude?

Pensamos que já era sem tempo, de as equipas angolanas se imporem na arena do futebol africano, lutarem por maior visibilidade, que passa necessariamente por uma prestação mais conseguida no plano competitivo. Infelizmente, o propósito tem estado muito aquém das pretensões, por uma razão que a própria razão desconhece, ignore-se aqui o pleonasmo.

Pois, ao mesmo tempo que vemos anualmente as nossas equipas a fracassar, logo nas preliminares, vemos outras sempre no topo, mas em representação de países muitas vezes pequenos (entenda-se menores), longe do nosso crescimento per capita. E a primeira inquietação é, como tal quadro é possível. Aqui está claro que são as políticas administrativas que determinam o êxito e o fracasso.Não pode haver outra explicação.

Enquanto uns com muito pouco são capazes de traçar políticas de gestão desportiva consentâneas, outros, com muito, pouco ou nada fazem que vise potenciar os respectivos clubes em todos os seus segmentos vitais. E quando assim é, o que pode haver é uma reacção competitiva cíclica, ora em cima ora em baixo, muitas vezes determinada pelo revezamento de elencos directivos.

É que embora não tendo provas, em mão, admita-se que muitas equipas com presença regular na Liga dos Clubes Campeões, não despendem os volumes de dinheiros que os nossos esbanjam. Apostam em técnicos nacionais, dispensam contratações colossais, preterem a estágios nas Europas e Américas, e no terreno conseguem fabulosos resultados que os tornam fotogénicos.

Vejamos que desde 1997, ano em que foi instituída a Liga de Clubes, apenas em quatro edições o nosso país esteve presente, nomeadamente no próprio ano de estreia (1997) com o 1º de Agosto, em 2001 com o Petro de Luanda, em 2003 com o ASA e em 2013 com o Libolo. Portanto, contas feitas, sem recurso a muitas equações, dizem que já lá vão 18 edições.

Por aqui se pode inferir, que futebolisticamente falando, não vamos bem de saúde. Em boa hora se arquitecta a Conferência Nacional sobre futebol, talvez dela venham a sair directrizes que ajudem a modalidade a sair da penumbra. É que na leitura enviesada de alguns, quando se fala na crise futebolística, a referência é a Selecção Nacional, quando ela é só a ponta do iceberg.

Há que ter em conta que são os clubes a base de fornecimento de unidades para a Selecção Nacional. Logo, quando estes não respiram saúde, as consequências repercutem-se na selecção. Daí, que é errado olhar-se apenas para os Palancas Negras, quando se fala da morbidez do futebol nacional.

Em resumo, a derrocada das nossas equipas nas competições africanas deixa “preto no branco” que o futebol precisa de uma terapêutica de choque, urgente. Venha dai a Conferência Nacional a ver com que cores se pinta o futuro. Mas desde já, um ponto de interrogação se impõe: com este quadro quantas equipas Angola pode vir a ter em 2016 nas Afrotaças?
Matias Adriano.

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