Jornal dos Desportos

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Opinio

Viram o Massunguna a superar os pontas ?

22 de Agosto, 2017
O facto de Dani Massunguna não ser ponta de lança, mas sim um defesa que marcou sábado o golo dos Palancas Negras, diz tudo sobre esta questão de carência de verdadeiros e grandes craques a jogarem nas nossas equipas e selecções, neste sector.

O meu companheiro Carlos Calongo trouxe à discussão este assunto. Posso lembrar que cheguei a entrevistar o Amaral Aleixo sobre isso. Perguntei-lhe se hoje ainda podemos ter jogadores com a mesma qualidade de craques do antigamente e a sua resposta foi: \"É tudo uma questão de gerações”. Ele falou e recordou-me de craques com o Abel Campos, o Saavedra, o Akwá, o Mantorras. “É preciso entender que não existem caminhos rectilíneos, pois, tudo tem a ver com as circunstâncias, consubstanciadas em diversos fenómenos”, justificou na altura.

De uma coisa porém concordei ao que me disse o Amaral. Antigamente, além dos miúdos que naturalmente já “nasciam” com tino de pontas fazendo furor viamo-los desde as bolas de trapo, nos bairros. E nos clubes...o modo de estruturação dos clubes organizados/federados muitas vezes ajudou na aparição de bons pontas. Não havia o profissionalismo nem os benefícios de hoje, mas espírito de entrega para os craques que se viram. E arrastavam multidões. Deleitavam os adeptos.

Hoje, nestes tempos de profissionalismo, o Djalma Campos, quando tinha 22 anos, estava com um valor de mercado avaliado em 3,7 milhões de dólares. Manucho Gonçalves, aos 26, era também de 3,7 milhões de dólares. Mantorras, aos 27, era de 2,4 milhões de dólares e Flávio Amado, aos 30, era de 2,3 milhões de dólares.

Na verdade uma geração é sempre diferente da outra embora estas questões comparativas na história do futebol, e do nosso em particular, se coloquem sempre que se avaliam as qualidades e as habilidades dos pontas e não só.

Acho que tem razão de ser esta apreciação, comparando os jogadores do tempo actual em que ora sim, ora não... aparecem e desaparecem. E a inquietação actual é: que ponta de lança faz verdadeiramente jus a esta posição a jogar os nossos actuais Palancas Negras hoje? E nos clubes?

Quem viu o jogo domingo passado Angola-Madagáscar certamente cimentou a convicção de que já vão faltando mesmo, de ano a ano, pontas de lança natos, craques de gema a jogarem neste sector, quer nas nossas equipas quer nas nossa selecções. Oxalá, portanto, apareçam mais outros com qualidades superiores e que marquem mais golos para passarmos a assistir, se for caso disso, goleadas à moda antiga que hoje não temos já, com frequência.

Historicamente tenho na memória - com o trabalho dos pontas natos -, aqueles pesados 1-1 que a TAAG ( hoje ASA) impôs ao Desportivo de Xangongo do Cunene em 1979; 9-0 que o 1º de Agosto infligiu ao Sassamba da Lunda Sul em 1980; 7-6 que o Petro de Luanda impôs ao 1º de Agosto em 1984; os 8-1 que o ASA \"espetou\" ao 1º de Agosto em 2004; o 7-1 com que o Petro de Luanda cilindrou o Bravos do Maquis em 2011...só para citar estas como as mais significativas, as mais \"exorbitantes\" se também assim posso dizer.

Carlos Calongo refere-se apenas à estirpe de \"pontas” do pós-independência, como os que os meus colegas Mateus Gonçalves e Carlos Pacavira dão a ver no valioso livro “ O Trumuno”? Quanto a mim, já no tempo da outra senhora - tempo colonial portanto - houve na nossa terra avançados dignos desta qualidade.

E sobre esta recordação é de se ler, por exemplo, a interessante obra “Ídolos do Passado Perspectivadas na Minha Memória\", escrita em 2005 pelo craque (já falecido) Manuel Frugier dos Santos \"Camito\". Ele fala de senhores da bola em Angola nos 40 do século passado, como o Pato Cruz, Luís Guerreiro, Augusto Magalhães \"Chetete\", Manuel Rasólio \"Didio\", Sá Lemos \"Alicate\", Fernando \"Sacristão\", Abilio Perdigão, José da Costa “Barrote Queimado”, Camacoa, Gé Jordão entre outros.

Eu com o devido respeito que tenho pelas opiniões ou avaliações de outros jornalistas, dirigentes e adeptos as minhas preferência têm “nomes e rostos”: a pontas vi a jogar muitos \"em grande \", fosse em campos pelados ou relvados.É uma lista longa de jogadores.

Estou a falar, por exemplo, de um Carlos Alves do 1º de Agosto; Jesus do Petro de Luanda, Maluca 1º de Maio; Túbia do Inter Luanda; Mavó do Ferroviário Huíla; Manuel do 1º de Agosto; André do Desportivo da Cuca; Mona do Petro Luanda; Amaral Aleixo do Sagrada Esperança e Petro Luanda; Serginho do Desportivo da Eka); César Kaná da Académica do Lobito, Zé Nely do Petro Huambo.
Estou a falar ainda de um Betinho do Petro Luanda; Isaac do 1º de Agosto; Avelino Lopes do Petro Huambo; Blanchard do Benfica de Luanda.

O Carlos Calongo falou de Flávio Amado do Petro de Luanda. Recordou-o, muito bem. Como perfeito ponta de lança, é um jogador que neste sector despontou na mesma geração em que também pontificaram o Love Kabungula e já nos últimos anos o Manucho Gonçalves pelo Petro de Luanda e o Yano do Progresso do Sambizanga.

Muitos destes jogadores chegaram mesmo a terminar duas vezes como melhores marcadores. O Ndunguidi Daniel - isso não é mentira - foi outro expoente, só teve a pouca sorte de nunca ter terminado à frente dos goleadores. Podia lembrar o Joaquim Dinis, Rui Jordão e outros mais velhos. Como o Manecas que depois jogou no Sporting de Luanda, o Matreira e o Firmino Dias e as suas marcas. Enfim...
António Felix

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