Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

Virou o disco e toca o mesmo?

17 de Maio, 2017
O futuro é mais importante quando o presente parecer comprometido. Acho ilusório ficar-se a espaços a aventar que a massificação virá resolver o nosso próprio imbróglio desportivo. Tal é caracterizado por uma incapacidade social de promover ‘de per si’ a prática desportiva.

Veja-se o exemplo da marginal de Luanda: os corredores amadores anónimos que fazem caminhada, corrida e exercícios de acondicionamento físico e atlético convergem para ali sem a necessidade de um ‘clube’. E não é por serem individuais, mas espontâneos. Pobre do ‘autarca’ que não souber espevitar isto no seu próprio círculo.

Como um harmónio que se pretende – embora não haja sociedade perfeita se calhar nem mesmo na Finlândia ou Eslovénia, que são o ‘top’ mundial em educação e ensino – uma sociedade deve articular-se de forma a que os seus cidadãos (e país) sejam conscientes das suas necessidades e obrigações inerentes.

As instituições são depois chamadas a cumprir o seu papel protector e promotor de uma comunidade de acordo com o fim dessa instituição.

Em Angola, uma dessas instituições de base – mas não necessariamente básica – é a escola. E em Angola a escola ‘despediu’ a educação física. E sem ela o adolescente perde a noção de pino ou cambalhota e também o seu ‘encaminhamento’ desportivo.

Outra instituição, o bairro, parece não estar a funcionar; os clubes de bairro não emergem, tal como se nos bairros não houvesse criançada, nem bairrismo.

Como os pais das crianças encaram a falta de actividade lúdica e educativa dos seus filhos ali onde residem e estudam, é outra conversa.

Então e assim descaracterizado em nossa nova sociedade, o sistema desportivo de base é um projecto com mais dificuldade de arrancar que um hipotético programa nosso de mísseis defensivos. Apesar de parecer uma despropositada e quiçá estúpida comparação, o facto é que a corrida armamentista e a competição desportiva são parecidas no que ambas têm em querer sempre chegar mais alto, mais longe e com mais força.

Ora, não parece que este seja o nosso caso desportivo, cada vez mais baixo, mais curto e mais fraco.

O nosso pós-colonialismo desportivo está a ser difícil de empreender, como se vê.

Mas outros povos com o mesmo percurso histórico ainda têm nos seus liceus o alfobre, como se diz, do talento desportivo nacional respectivo. Até nos ‘kimbos’ desses países o talento acaba por revelar-se na ‘escola’, pois, de uma maneira geral, África tem educação física no ensino como uma boa herança colonial e que lhe serve para a descoberta e iniciação desportiva – e não vale aqui falar da nossa excepção em virtude da guerra já que até foram os nossos clubes militares e para-militares, mais a Sonangol, que deram ignição e foram ‘motores do boom’ desportivo em Angola nas décadas de 70 e 90.

Sem bairrismo nem desporto e clubes de bairro, a juntarem-se à falta de desporto escolar, resta aos jovens, aos clubes federados, distantes e escassos para a esmagadora maioria dos eventuais outros talentosos dispersos pelo país.

Mas vamos em seguida ao que se disse e se prometeu, e que possivelmente já se esqueceu, até. Três eventos recentes foram marcantes para uma concertação, que não direi social porque nada de relevante se notou após os mesmos que denotasse empreendedorismo - para aplicar bem uma palavra ultimamente tão banalizada depois de já o ter-se feito com o termo ‘empresário’.

Assim e no Primeiro Encontro Nacional de Futebol, em 2008, fez-se uma abordagem competente hoje com ares de letra morta, a tal ponto que o evento se repetiu sete anos depois com outra designação.

Mas primeiro houve, em 2011, o ‘Primeiro Fórum de Revitalização da Educação Física e Desporto na Escola’.

Foi quando o então Vice-Presidente da República, Fernando da Piedade Dias dos Santos ‘Nandó’ admitia que “o estado da prática desportiva nas escolas era preocupante e requeria pronta intervenção depois de ter sido conhecido o diagnóstico feito pela Comissão para o Estudo e Revitalização da Educação Física e do Desporto Escolar”. - \"No diagnóstico preliminar sobre o sector, realizado em seis províncias, constatou-se que existem poucos professores de educação física a leccionarem a disciplina.

A maior parte das instalações desportivas das escolas encontram-se degradadas ou têm sido utilizadas para fins diferentes daqueles para os quais foram concebidas\", reconheceu ‘Nandó’.

\"É necessário que tenhamos quadros com formação adequada e especializada no ensino da educação física e, ao mesmo tempo, sejam capazes de conduzir o processo da formação desportiva das crianças e dos jovens nas escolas, institutos médios e universidades. Neste sentido, deverá ter início no próximo mês de Dezembro (2011) um programa de formação acelerada de formadores de educação física\", acentuou o então Vice-Presidente da República.

Nem vou perguntar pela formação acelerada, muito menos pelos formadores de professores dali saídos.

Já em 2014, à saída do quinto congresso do MPLA, partido governante em Angola, as suas conclusões sublinharam a preocupação que constituía o momento (então) actual do ‘desporto-rei’ em Angola. E no embalo disso, o então Ministro da Juventude e Desportos, Gonçalves Muandumba, considerou de muito bom o manifestar de tamanha preocupação.

“Isto é muito bom porque é o assumir de toda a nação, de todos os actores, de que temos de resgatar a magia do futebol angolano”, dizia.
“(...) Tal vai proceder-se no quadro de uma estratégia já existente de desenvolvimento do desporto a nível do país.

“As conclusões do congresso, ao referirem-se com preocupação ao estado do futebol dão mais responsabilidade não só ao Ministério, mas a todos os actores, como Federações, Associações, Clubes, Governos provinciais e municipais\".

“O que pretendemos é fazer uma grande discussão nacional sobre o fenómeno futebol. Porque o futebol é sem dúvida, um fenómeno social, um factor de inclusão social, de unidade e coesão nacional. Por isso, além das capacidades e competências técnicas, merece toda a atenção\".“E foi isso, que o MPLA mostrou mais uma vez, que está preocupado, tal como o seu líder, com o desporto e o futebol particularmente”, realçou aquele então titular da Juventude e Desportos.

E ao aventar uma data para o fórum recomendado pelo plenário dos ‘Camaradas’, Muandumba sublinhava a sua emergência e urgência.

“(...) Estamos a estimar para o primeiro trimestre do próximo ano (2015). O mais urgentemente possível, sobretudo com essas recomendações muito concretas, muito objectivas do Presidente da República e do Congresso do MPLA”, concluiu.

Chegado 2015 e a conferência, o então Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, Edeltrudes Costa, representando o Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, apontou vias.

“Convém realçar a aposta que deve ser feita na formação como sustentáculo do crescimento do futebol nacional. Não podemos deixar de destacar o meritório papel que já vem sendo desenvolvido por algumas academias na procura de formação de jovens talentos. “Os clubes têm uma enorme responsabilidade neste processo já que são a célula base do nosso futebol.

Assim, tornamos real a intenção expressa pelo Presidente da República quando disse que no contexto africano queremos afirmar-nos como um país do desporto”, destacou aquele antigo responsável.

“A importância de que se reveste actualmente o futebol como desporto de massas torna, pois, imperativo que se encontrem rapidamente soluções para a sua revitalização e progresso, designadamente no que respeita ao futebol escolar, comunitário e federado, isto tendo em conta a relação entre a escola e a prática desportiva para o surgimento de novos talentos, para o desenvolvimento de valores e condutas sociais salutares das crianças e dos jovens”, argumentou Edeltrudes.

“Encontram-se (ali na conferência) personalidades com responsabilidades governamentais, associativas, educacionais, financeiras, empresariais, desportivas, cientificas e da comunicação social, sendo esta uma oportunidade soberana para partilharmos em conjunto todo o saber e conhecimento acumulado”, realçou.

Mas os anos passam e a caravana também. Para trás ficaram apoquentações e por vezes promessas. Contudo sempre haverá pela frente novos desafios.
O maior de todos deve ser a ilusão da ‘massificação’, que pelo nome engloba números avultados de indivíduos constrangidos a que dali só sairão uns poucos talentos por centenas ou milhar de praticantes. E onde estarão os novos clubes para os absorver? Ou serão novos craques suplentes em clubes com outros craques mais antigos?

São preciso mais clubes em Angola, mas clubes pequenos, até mono desportivos, ou só de futebol ou só de corridas a pé, mas clubes viáveis e com evidente suporte comunitário. E cujas administração e população locais sejam os principais accionistas.
Arlindo Macedo

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