Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Vo partir-se os telhados de vidro

04 de Outubro, 2018
O futebol está a mover-se rapidamente. Algumas das suas carruagens em Angola podem gripar e parar de se mover. A paisagem não será nada bela. De facto, um país há 16 anos em paz, mas com futebol juvenil em apenas 7 das 18 províncias, dá que pensar e é um busílis, ou então, um caso sério.
O futebol continua também a crescer como negócio, cada vez mais com proporções de bolha, porém, uma indústria que cresce e se consolida e se prevê infalível, a tal ponto que despertou há muito o interesse do crime organizado. A corrupção é o instrumento mais frequente, com traços principais nas apostas e resultados viciados, no favorecimento ou impedimento de acções legais, sendo exemplo do primeiro caso a escolha alegadamente viciada do mundial FIFA de 2022 para o Qatar, que levou já vários presidentes aos calabouços ou suspensão dos seus direitos perante a FIFA.
Com o propósito de manter o seu negócio limpo, além de fazer por evitar novos ‘FIFAgates’, que são os escândalos do futebol mundial com medida 2XXL e com repercussão mais acentuada nuns continentes, do que noutros, a Federação Internacional prossegue, por um lado, com o litigação judicial com diversos actores mundiais do desporto-rei ainda submetidos a instrução dos processos por abusos cometidos, enquanto, por outro lado, Zurique quer uma matrix única de auditoria e escolheu o auditor de top mundial para o fazer.
Em Angola, a FIFA mantém a FAF a pão e água, apenas com os cerca de 250 mil dólares americanos anuais a título de subsídio de exploração e com o que a FAF custeia as necessidades do dia-a-dia, até estar concluída a auditoria pedida pela Federação Internacional, que dura há mais de um ano e meio e que já custou a Angola pelo menos dois anos de projectos adiados.
Agora o cerco aperta. O futebol actual quer o jogo limpo e insuspeito, daí as campanhas de fair-play desportivo e financeiro, daí o VAR, etc. Quanto à vídeo-arbitragem a controvérsia é ressurgente; desta última vez foi na Espanha, por exemplo, donde revelam que o VAR tem errado (!) e já adulterou resultados (!!).
Outro erro sucede fora dos campos, nas tesourarias e contabilidades, em relação à administração e gestão de verbas para projectos em que a federação não solta a massa, antes paga ela directamente aos executores desses projectos e das respectivas obras quando os mesmos tenham sido aprovados primeiro por um escritório regional da zona geográfica do país que se habilita a esse ou mais financiamentos da Federação Internacional.
A maioria dos fundos da FIFA procede da gestão e comercialização de direitos de merchandising, comerciais e de transmissão dos eventos que a federação internacional, ou uma sua societária continental, ou nacional, organizem eventos da sua família e desporto. Actualmente os rendimentos só das Copas dos Mundo de seniores masculinos é da ordem dos 4 a 6 mil milhões de dólares.
Agora o leitor pode imaginar as receitas dos outros mundiais incluindo de clubes, igualmente sob a égide da FIFA. Só para a Copa FIFA de 2026, co-organizada por Canadá, Estados Unidos e México, a prova vai render para a FIFA mais de 11 mil milhões de dólares.
Continuando a apertar o cerco, com o Girabola à porta, a partir do próximo dia 27 de outubro, nem todos os clubes captaram direito essa mensagem de rigor. Basta perguntar quantos deles têm já as cias contas auditadas para a temporada 2018-19. A Confederação Africana, CAF, desde 2010-11, que instrui as suas filiadas, federações nacionais, para os clubes terem as contas auditadas, de modo a promover o futebol limpo. E raramente mais que um, dois clubes angolanos têm cumprido. Mas tudo muda e a todo o instante e ultimamente, ainda mais.
Doravante, dando cumprimento cego a velhas ordens, até mesmo regras que só não tinham eficácia porque alguns generais costumavam encostar a FAF à parede, eis que surgiu uma barra saída da federação. Alguns clubes estão ainda a ver-se a braços para existirem no ano que vem.
Clubes que vão competir no campeonato nacional de futebol da primeira divisão, nomeadamente Santa Rita de Cássia, Bikuku F.C. e Atlético Sport Aviação ‘ASA’, vão ter que bater asas se não saldarem primeiro as dívidas para com ‘atleta ou treinador’ a quem deva, ficando de contrário impedidos de competir na época 2018/19. A FIFA é exigente e está de olho nisso, sendo essas dívidas de prepotência descaracterizadas de fair-play financeiro e, portanto, inaceitáveis. E a nossa lista dos devedores deve ser bem maior que somente aqueles três emblemas.
O Conselho de Disciplina da Federação tem estado a analisar esse ficheiro e uma vez compulsados os balanços e balancetes, os ovos podres virão à tona como sempre. Quando divulgou o último comunicado, dia 20, estavam indiciados na matéria os emblemas do Atlético Sport Aviação (ASA), FC Bravos do Maquis, Kabuscorp do Palanca, Recreativo da Caála, Recreativo do Libolo, Sporting de Cabinda, tendo saído dessa lista negra o Petro de Luanda após esclarecida a sua situação.
E enquanto o nosso roto andar nu, de nada nos valerá esticar a camisola para tapar um lado, pois destapará outro. Afim de garantir uma dose eficaz da vacina de limpeza financeira, a partir deste Outubro, há a obrigatoriedade de os ‘Girabolinos’ só se poderem inscrever no ‘Girabola-ZAP/2018-19’ se o fizerem conjuntamente nos escalões jovens.
A questão é ainda assim, embaraçosa. Porque é duvidosa. Essa obrigatoriedade, que data de 2005, que nunca havia sido respeitada, foi a grande causadora da pobreza actual do futebol jovem de um país onde apenas metade das províncias jogam à bola, e dois terços não têm sequer futebol juvenil.
Os fundos e reservas de verbas estouradas deixam as camadas jovens desprotegidas nos planos ambiciosos e sem pernas da maioria dos emblemas, a tal ponto que no campeonato nacional juvenil participaram clubes de apenas 5 províncias, contra 8 províncias participantes no campeonato nacional júnior. Digamos que menos de metade do país joga à bola...
O número comparativo mais escandaloso é que em Kinshasa, aqui ao lado, e apesar de viverem em clima de guerra, só uma academia movimenta por dia mais de 4.200 jovens, além de outros 300 dos bairros pobres a quem a mesma academia dá treino gratuito, enquanto todo o nosso país tem federados menos de 1.500 futebolistas em todo o país, em todas as categorias e classes.
E se sairmos do universo futebol, os atletas federados de todas as outras modalidade, categorias e classes, não chegam a mil. Ora, num universo de pelo menos 8 milhões de angolanos com menos de 15 anos, significa que em Angola simplesmente não existem desporto jovem. É uma mentira de todo o tamanho e a prova está quando chega a hora de competir as camadas de formação.
No último nacional júnior, competiram os clubes Acácias rubras de Benguela, Académica do Lobito, AFA, AFK Dragão do Uíje, Desportivo da Huíla (campeão), Domant FC de Bula Atumba, FC Saurimo, Petro de Luanda, Primeiro de Agosto (vice-campeão), Recreativo da Cáala, e Sagrada Esperança da Lunda-Norte. Um mapa, ainda assim em expansão gradual, porém, muito pobre ainda.
É no escalão juvenil, que deve revelar crescimento, apenas competiram no nacional equipas de 3 províncias: AFA (terceiro classificado), Futebol Clube de Luanda, Ferroviário do Huambo, HCA do Lobito, Norberto de Castro (vice-campeão), Petro do Huambo, Primeiro de Agosto (campeão), e Recreativo da Cáala. Um viveiro deveras invertido em termos do fomento e dos números da pirâmide absolutamente distorcida. E os culpados são os clubes ‘Girabolinos‘ e ‘Segundões’ que não cumprem com a inscrição, actividade e competição dos seus juvenis e juniores obrigatoriamente.
Agora, quando isso vai de facto acabar? O que pode suceder ao clube cuja equipa juvenil ou júnior não for vista a competir na província, quanto mais chegar ao nacional!?
A mentira, no futebol, tem os dias contados. E a verdade vai ter que contar.
Arlindo Macedo

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