Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Vtimas mortais do campeonato

28 de Junho, 2018
Em leves pinceladas, traçadas aqui mesmo neste espaço, há coisa de semana e meia, tratamos de alertar acerca da conduta a ser observada por todos quantos, pelos quatro cantos do globo, acompanham com redobrada expectativa as emoções do Campeonato do Mundo de futebol. Apelamos, recorde-se, à observância de maior \"fair-play\".
Fomos levados a tal chamada de atenção, por um relato que nos chegou de um bairro da periferia luandense, segundo o qual, um jovem, por pouco, acabou esfolado por outro, na sequência de uma refrega das que resultam, em regra, de um fanatismo doentio, próprio de quem só vê virtudes na equipa de cujas cores se identifica.
Este tipo de gente aprendeu, apenas, dizer \"sim\" à vitória. A derrota, mesmo consentida na sequência de uma clara e reconhecida hegemonia competitiva de outra equipa, não entra nas suas contas. É repudiada e com um vigoroso \"não\". É gente, sem carácter nem pejo, que devia andar a “pastar” ratos numa freguesia algures, e nunca se identificar com a vida desportiva.
Na altura, por uma questão de prudência, recusamo-nos a identificar ou a denunciar o caso. Tratamos de alertar para que situações do género não voltassem a ocorrer durante o curso do campeonato, sendo um momento festivo, que deve ser vivido com alegria e entusiasmo. Apostas num jogo de futebol, sobre quem vai ganhar, não constituem novidade. Existem e vão continuar a existir, todavia, dentro dos limites de um conceito de urbanidade.
Felizmente, até aqui, não voltamos a ter notícias sobre linchamentos, por discussão de apoiantes de equipas diferentes. Ainda assim, nem tudo é um mar de rosas, porque registam-se mortes que resultam de infartes, provavelmente, por descontrolo emocional ou por levar a emoção ao extremo.
Na Guiné Bissau, um cidadão, em defesa das cores portuguesas, conheceu a morte repentina, quando o árbitro do jogo Portugal -Irão assinalou grande penalidade contra os Tugas. De igual modo, no Egipto, Abdel Mohammed, antigo futebolista e ultimamente comentador da TV egípcia, não resistiu à desqualificação da sua selecção, na derrota (2-1) no jogo com a Arábia Saudita.
Maradona, a lenda do futebol argentino, passou por maus momentos no Argentina -Nigéria, foi levado de emergência à uma unidade hospitalar para a receber cuidados médicos. Pergunta-se, o que seria de \"El Pibe\", caso os \"Alvi - Celestes\" fossem à vida. Se calhar, hoje, as notícias não seriam nada simpáticas.
Recomenda-se, pois, a ter mais controlo nas emoções, nunca por nada levar o fanatismo ao extremo. A FIFA, organizadora do evento, pode ter ficado duramente chocada com esses incidentes. Porque, quem organiza uma festa, fá-lo na perspectiva de agradar os convivas, mas acaba desiludido quando ocorrem situações horripilantes.
O mundo do futebol está manchado por estes acontecimentos, aos quais se junta ainda, ameaças de morte a que estão a ser vítimas alguns jogadores, que por serem humanos e falíveis, tenham tido culpas no consentimento de um golo ou noutra falha, de que está sujeito no decorrer de um jogo de futebol. O futebolista Carlos Sanchez, expulso no início do jogo de estreia da Colômbia, na derrota (2-1) com o Japão, é um exemplo disto.
Na verdade, a situação não deixa de preocupar, se considerarmos que o campeonato nem a meio vai, reservando-nos ainda muitos capítulos, prazenteiros e ruins, lá mais para frente. A partir dos oitavos- de-final, as coisas, como se sabe, ficam mais complicadas, com a abolição de empates e a inevitável condição de uma das equipas em campo terminar aí, a sua participação.
É o tal período do desnorte, dos nervos à flor da pele, em que se recomenda mais concentração. Se na fase que hoje termina, em que as equipas têm sempre alternativas a um resultado mal conseguido, assiste-se a este tipo de situações, o que virá na chamada fase do mata -mata?
Matias Adriano

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