Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por MATIAS ADRIANO

40 anos de trumunu

09 de Dezembro, 2019
Quem, em 1979, já andava por cá, no desfrute da dádiva da vida, e com alguma idade que permitisse visualizar as coisas e perceber determinados fenómenos, estará, certamente, recordado da suspense e da expectativa que rodearam o começo do primeiro campeonato nacional de futebol de Angola independente. Numa viagem imaginária no tempo, escapa a sensação de tudo ter ocorrido ontem. Mas, já se passaram 40 anos.
Com efeito, foi a 8 de Dezembro daquele ano, que o Governo, da ainda novel República Popular de Angola, taxou como da \"Formação de Quadros\", que surgiu o Girabola, na esteira de uma estratégia política bem urdida, que visou, em primeira instância, à união de uma nação e de um povo etnicamente esquartejado pelos horrores da guerra de libertação nacional.
Angola, qual fênix, precisava se erguer das cinzas, e arrepiar caminhos que levassem à reconstrução nacional e à conquista da sua própria identidade. Tal empreitada, porém, só seria possível com um país coeso e reencontrado. Não sendo sem razão que a prova foi baptizada como factor de Unidade Nacional.
O campeonato envolveu, na altura, as 17 províncias do país. Pois, aquilo que é hoje o Bengo, fazia parte da divisão administrativa de Luanda. E a bola rolou, de forma alegre e salutar de Cabinda ao Cunene, animado os fins-de-semana nos grandes centros urbanos, pese embora o visível e acentuado desnível de qualidade entre as equipas.
Luanda, Huambo e Benguela tiveram maior domínio nessa edição, bastando, para tanto, olhar para o quadro das meias-finais, constituído pelo 1º de Agosto, Taag, Palancas do Huambo e Nacional de Benguela. Mas na lotaria para a final Taag e Palancas viriam a soçobrar, deixado caminho aberto para as formações rubro e alvi-negra, que disputariam a épica final de oito de Março de 1980, na Cidadela Desportiva.
Com a difícil vitória de 2-1, o 1º de Agosto teve o mérito de ser o primeiro campeão nacional, feito que voltou a bisar nas duas edições seguintes, já disputadas nos moldes actuais. Tinha nascido o Girabola. Vale aqui dizer que a prova viria a ganhar outro impulso a partir de 1981, com a subida das equipas do Progresso Sambizanga, Petro do Huambo, Petro de Luanda e 1º de Maio de Benguela.
Petrolíferos da capital e proletários viriam a dar um basta à avassaladora hegemonia patenteada pela formação militar. Nos primeiros quatro anos se foram revezando na conquista do título, até que o Petro assumiu isoladamente o poderio. Vivia-se então nas hostes do “Eixo-aviário” uma época de ouro, sob batuta do brasileiro Antônio Clemente e com activos da igualha de Sumbo, Dico, Aia, Makuéria, Cuba, Chico Afonso, Lufemba, Abel Campos, Jesus e outros.
Diga-se, de passagem, que ao longo dos 40 anos, o Girabola registou capítulos interessantes, sendo que até hoje conheceu oito campeões, uns com mais conquistas que outros, mas que no essencial souberam, todos eles, valorizar a competição. Com nomes timbrados na galeria dos campeões estão 1º de Agosto, Petro de Luanda, ASA, Interclube, Kabuscorp, 1º Maio de Benguela, Asa, Sagrada Esperança e Recreativo do Libolo.
Fastidioso seria citar nomes de unidades que, em diferentes gerações, a prova consagrou, embora seja um dado adquirido que há cada vez menos “craques” como antigamente, um fenómeno com que se devem ocupar os estudiosos, já que hoje as condições são relativamente melhores em relação ao passado, a começar pelos campos com tapetes relvados, quando outrora estavam pelados, até chegar aos despesismo.
Mas, seria uma injustiça sem tamanho, não fazer, na sequência deste exercício, referência àqueles que com a sua arte e engenho souberam escrever seus nomes com letras douradas na História do nosso futebol. Eis aí alguns: Napoleão Brandão, Pedro Garcia, Alves, Ndunguidi, Santinho, Praia, Salviano, Arménio, Vicy, Maluka, Sarmento, Chinguito, Eduardo Machado, Manecas Leitão, Mavô, Abel Campos, Lufemba e Jesus.
Para que sejamos poupados de reparos críticos, fique claro que a referência feita no parágrafo anterior se restringe a jogadores das primeiras edições do campeonato. Pois, mais para cá outros ídolos emergiram e souberam cada um, e na sua posição, mostrar o seu real valor, quer ao serviço dos seus emblemas, quer ao serviço da Selecção Nacional.
Enfim, em 40 anos da prova e com 42 edições disputadas, não há como não reconhecer que o futebol é , pelo sim pelo não, a maior manifestação cultural do nosso povo. É certo que hoje com o fenómeno da globalização, às vezes, o nacional é preterido a favor do forasteiro, sendo que muitos de nós têm as atenções desviadas para as Ligas Europeias, embora neste quesito também se coloque o factor qualidade, que vai escasseando no nosso \"association\".

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