Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Desporto na vanguarda

11 de Novembro, 2015
Na sua marcha volátil, o tempo correu e sem dar por ele, remete-nos hoje a uma data há 40 anos do dia de todas as palpitações, de todas as emoções, de todos os sonhos, de todos os sorrisos e de todos os cantares e danças. Naquela data , Angola soltava o grito da liberdade e desprendia-se das amarras e dos ditames do colonialismo, abria uma nova página na história, em que pelos próprios punhos, com ou sem recurso a instrumentos geométricos, traçava as linhas orientadoras do seu próprio destino.

Para trás ficavam cinco séculos de triste memória, em que o nativo foi subjugado, explorado e espoliado dos seus haveres, em sua própria terra. Era, a bem dizer, a compensação do sacrifício e esforços conjugados daqueles, que sem medirem as consequências da sua determinação, deram inclusive a própria vida, na árdua tarefa de inverter o quadro que se vivia, para que as gerações seguintes, não mais tivessem a desdita de nascer no mesmo clima funesto e lúgubre.

Será, no entanto, importante não perder de vista, que o desafio à independência representou igualmente uma acção arrojada dos seus artífices. Pois, sabia-se à partida, que tudo tinha de começar da estaca zero. Afinal o colonizador levava o "know how", obrigava as novas autoridades a um exercício hercúleo, para revitalizar as principais estruturas e torná-las funcionais.

Adaptando-se timidamente à nova realidade, o país precisava de um escape para o tédio e a monotonia resultante de um novo começo. O desporto, logo à partida, foi reconhecido como elemento que ia desempenhar o papel fundamental neste particular. Além de mais, as circunstâncias em que se dá a independência, com o país ainda dividido pelos Movimentos que lutaram pela descolonização, tinha a necessidade de encontrar um denominador comum.

Só por via do desporto, os angolanos podiam reencontrar-se e expressarem-se na mesma língua. Entretanto, a situação que se viveu ao longo do ano que se seguiu ao da independência(1976), não facilitava a execução de um plano desportivo de abrangência nacional. Mas em alguns centros urbanos, principalmente em Luanda, notava-se uma certa vitalidade desportiva com a realização de alguns torneios amistosos.

Pode-se dizer, que a verdadeira explosão desportiva, remonta ao ano de 1977. Com a libertação de todas as províncias, a saga que culminou a 27 de Março com a expulsão do último "carcamano", foi pensar na definição de uma política desportiva sólida e consentânea. Nessa altura, em Luanda, por exemplo, os amantes do futebol já se deleitavam com as primeiras emoções do "Torneio Experimental".

As Célebres Jornadas de Amizade Angola e Cuba, bem como o "Torneio Ano de Agricultura", a nível do futebol, serviram de "balão de ensaio" àquilo que veio a ser a primeira edição do campeonato nacional de futebol da primeira divisão, disputado de 8 de Dezembro de 1979 a 14 de Março de 1980, então sob o signo da política da Unidade Nacional.

Nessa altura, ensaiavam-se vários passos a nível de outras disciplinas, no basquetebol principalmente, que aA 12 de Março de 1976, através do departamento gimnodesportivo da JMPLA convocou nas suas instalações, na antiga sede da Mocidade Portuguesa, uma importantíssima reunião que traçou as linhas essenciais para o relançamento da modalidade.

Em resumo, separando a Defesa e a Educação, não deve ser nenhum desatino dizer-se que o desporto acabou por ser o sector mais activo ao longo destes 40 anos. As cores da nossa bandeira começaram a ser conhecidas pelo mundo, por via de actividades desportivas, por via de torneios internacionais de amizade promovidos com alguma regularidade, quer em Angola, quer por outros países que partilhavam a mesma linha ideológica.Não cabe neste exíguo espaço de jornal, a descrição da função exercida pelo desporto nos 40 anos em que o país se viu assente em novos alicerces que hoje completamos.

No campo da nossa política diplomática, foi um verdadeiro aliado do governo, desenvolveu acções vistosas dentro e fora do país, mesmo em plena "guerra fria" que serviu em muitas ocasiões, de bálsamo ao sofrimento do "heróico povo angolano"Chegados aos 40 anos, é longa a estrada percorrida pelo nosso desporto, percurso ao longo do qual conquistamos a nível de algumas modalidades a África, desfilamos em campeonatos do mundo noutras. Portanto, há motivos de sobra para os fazedores do nosso desporto, alguns dos quais já noutra dimensão da vida, exibirem algum sentimento de orgulho, por deixarem para trás feitos de realce que a História registou.
Matias Adriano

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