Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Faltar verdade

09 de Janeiro, 2020
Têm sido frequentes as reclamações sobre incumprimento de certos clubes com atletas ou com técnicos. É lógico que o sermão não é de hoje. Vem de há muito, porque também, verdade seja dita, os dinheiros nem sempre estão à mão de semear. O que é certo é que nos tempos actuais, a coisa tornou-se uma espécie de peste. Todos ficam a dever e todos os devidos cobram, reclamam, esperneiam, enfim.
O cenário não é de estranhar na actual conjuntura. Pois, as facilidades havidas no passado deixaram de existir em face da galopante crise económica, e quando há crise já se sabe qual é o resultado que vem a seguir. É evidente que alguns clubes, talvez com uma gestão mais responsável ou mais assistidos, conseguem dar volta à situação. Outros não têm como, senão mergulhar na onda de dificuldades.
Nos últimos tempos tem sido assim. Diríamos mesmo, que fazer desporto passou a ser uma empreitada para poucos, devendo ser enaltecidos todos aqueles, que se movimentando no mundo desportivo fazem trinta por uma linha, para manter vital esta actividade social. Não vai para muito tempo, a direcção da Federação Angolana de Futebol, através do seu Conselho de Disciplina, tratou de fazer um apelo aos clubes devedores a liquidar as suas dívidas.
A terreiro vieram as designações de clubes que se acham na condição de devedores, assim como os nomes daqueles a quem os mesmos ficam a dever. Na verdade, é longa a lista nominal, deixando escapar a sensação de que a falta de verdade desportiva no nosso futebol não reside apenas nos resultados, que, às vezes, são mais de laboratórios que de campo, mas também na falta de sensatez de alguns gestores.Dívida, no sentido real da palavra, é aquilo que se tem a pagar a alguém por algum serviço que nos tenha prestado. Logo, é algo que não deve ser secular, mas sim temporário. Infelizmente, cá entre nós não é o caso. Foram relatados factos de que os agentes do futebol já andam familiarizados. Há dívidas prestes a ter outra designação. Calote, talvez seja o termo melhor enquadrado.
Porque quando a tendência do devedor é se remeter ao silêncio, numa clara manifestação de falta de vontade de repor aquilo que é de outrem, já não estamos perante um devedor, estamos sim perante um caloteiro. E há casos constantes na matéria que nos foi dado a ler, que já não devem ser tomados por dívidas. Estão muito para lá disso.
A pergunta que não se quer calar é: será neste mundo de enganos e desenganos que se pretende fazer um desporto são e para todos? Os casos de que nos referimos têm a ver apenas com o futebol. Mas nada nos diz que a nível de outras modalidades, a realidade seja diferente. Haverá igualmente situações análogas, geridas inteligentemente, antes que escapem à praça pública.

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