Jornal dos Desportos

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Opinio

Obrigado, bailarino das Antas!

18 de Abril, 2019
O dia 11 de Fevereiro de 1996, é uma data importante, para a história do Kuduro. A bem da verdade, foi nesse dia que o estilo de música/dança angolana passou pela primeira vez num canal de televisão português, no caso a RTP. Porém, antes de mais detalhes, vou recuar até o ano de 1992, quando a inseparável dupla técnica Gegé/Tião lideraram a selecção de futebol de Sub-20, num torneio em Portugal.
A participação angolana ficou manchada, por um episódio mal explicado, que acabou por ser o princípio do fim da carreira de Gegé, todavia, como nem tudo foi desgraça, no plantel existiam pérolas como Cacharamba e um desconhecido avançado do Rodoviário de Luanda, de nome Quinzinho, cujas exibições encheram os olhos do técnico Bobby Robson, do Sporting de Portugal.
O Sir Bobby Robson acabou, inesperadamente, despedido do Sporting algum tempo depois do torneio, mas o FC do Porto abriu-lhe, de imediato, as portas das Antas. Quando os resultados dos dragões eram mais do que consensuais, Robson tirou Quinzinho das intenções e o avançado que estava a fazer uma grande época no ASA, acabou por trocar o campeonato angolano pelo português, decorria o ano de 1995.
A vida de Quinzinho, no Porto, foi dura, ainda mais, porque em Janeiro de 1996 teve de ir ao CAN 96, na África do Sul, representar Angola que fazia a sua estreia no africano. Esse, foi o mal que veio por bem, para Quinzinho, porque no jogo inaugural Akwá saiu literalmente de gatas do relvado, minutos antes tinha sido lesionado, intencionalmente, é minha opinião, por um defesa egípcio, e Carlos Alhinho lançou Quinzinho aos 19m. Angola perdia por 2-0, quando Quinzinho assistido por Abel Campos fez o 2-1, aos 77m, o primeiro golo de Angola num CAN, no dia15/01/96. Quinzinho mal festejou, poucos dias depois, na despida do CAN, 3-3 com os Camarões, voltou a marcar e dançou junto ao banco de Angola, em meio ao forte abraço de Délcio Costa.
As exibições e os golos melhoraram a imagem de Quinzinho junto dos adeptos portistas, entretanto, Bobby Robson qual pai amoroso, tratou de preparar Quinzinho para o momento certo, aproveitou os jogos da Taça de Portugal para lançar o novato de 22 anos às feras, até que no dia 4 de Fevereiro de 1996, deu-lhe a primeira grande oportunidade no campeonato, ou seja, lançou Quinzinho, aos 66m, para o lugar de Folha, na vitória caseira de 2-0 sobre o União de Leiria. Uma semana depois, 11/2/96, o Porto recebeu o Felgueiras para a 22ª e quando o jogo já estava resolvido, o técnico Bobby Robson pôs em campo Quinzinho, para o lugar de Latapy, aos 67m, e aos 70m o avançado angolano assinou o livro de ponto e repetiu a dança do jogo com os Camarões, no CAN 96. Quinzinho de luvas pretas calçadas, essa era sua marca, a dançar na linha lateral para milhares de espectadores nas Antas e milhões de telespectadores da RTP. Na conferência de imprensa, após o jogo, um jornalista queria saber o porquê da dança, Quinzinho meio tímido respondeu que tinha o hábito em Angola de festejar os seus golos com dança e revelou o nome: Kuduro. Quando o campeonato terminou, a RTP fez um rescaldo com as melhores imagens do campeonato e lá estava o camisola 28 do Porto, de nome Quinzinho, a dançar o seu Kuduro. Foi a partir desse momento, que alguns adeptos portistas passaram a chamar ao avançado \"Bailarino das Antas\".
O FC Porto achou por bem, no final da época, dar margem de progressão a Quinzinho, pois, estava tapado pela qualidade que fazia, até um Drulovic contentar-se com o banco de suplentes. O Leiria, época 96/97 e depois o Rio Ave, 97/98, deram ao angolano a confiança necessária para voltar ao Porto, 98/99, o avançado repetiu os mesmos oito golos dos tempos do Rio Ave e acabou por deixar saudades aos adeptos, ao sair na temporada seguinte para o futebol espanhol, Rayo Vallecano.
Quando soube da morte de Quinzinho, a emoção tomou conta de mim, creio ter-me conseguido controlar para fazer esta publicação, pois, há algum tempo que estava a preparar uma matéria em que ia falar de Quinzinho, infelizmente, nem podemos falar porque a morte chegou de maneira inesperada, para estragar tudo. É verdade, que o Quinzinho não era um jogador do musseque, como às vezes, os brinca na areia ou habilidosos eram chamados, era mais um jogador de força, do tipo que nenhum defesa queria enfrentar, porque era rápido. Nem sempre tomava as melhores decisões, por isso, Bobby Robson sugeriu-lhe que tirasse a carta de condução, a intenção era ajudá-lo a corrigir o defeito de correr de cara baixa, mas era capaz de fazer jogadas geniais, como o de calcanhar com a Namíbia, no CAN 98, ou mesmo bons desvios de cabeça, além de arrancadas que deixavam os adversários com a língua de fora.
É possível, que se trabalhasse mais tempo com Bobby Robson, viesse a ser um avançado mais prolífico, mas o que vi no ASA, Porto, Leiria, Rio Ave e até nas Selecções Nacionais, deixam-me contente.
Não tenho como esquecer o último jogo de Quinzinho, com a camisola do ASA, 11/11/95, na final da Taça de Angola, em que os aviadores afogaram a mágoa do campeonato perdido, até hoje, uma ferida aberta na história do clube, com o triunfo de 3-1, sobre o Independente do Tômbwa. Quando fez o 3-1, aos 30´, Quinzinho começou a bater com a mão na garganta e os colegas imitaram o gesto, feito para replicar as bocas do adversário, antes do jogo. Ainda estou a ver os aviadores a mergulhar no relvado da Cidadela, em meio da emoção do categorizado João Machado, que juntou o útil ao agradável, conquistou o seu primeiro título na carreira que era também o primeiro da história do clube, do país independente.
A alegria de Quinzinho era contagiante, senti isso, várias vezes, nos treinos da selecção, mas o coração acabou por traí-lo, de maneira inesperada, são muitas as recordações, boas e más, que vão fazer com que Quinzinho permaneça vivo nas nossas memórias.
BETUMELEANO FERRÃO

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