Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Reencontro em 2015

10 de Novembro, 2014
A exemplo de outras manifestações artísticas, as tendências do futebol são também a expressão dos tempos. E nem é exagero dizer que, deste ponto de vista, o tipo de jogo que dominou a última edição do Girabola é a antítese do futebol especulativo que tantas vezes vimos sair em glória, fosse à custa desta ou daquela estrela ou apenas à boleia de tácticas baseadas no engodo.

Desta vez, o que vimos de mais forte foram equipas solidárias, dispostas a ocupar cada centímetro de todo o terreno em que a bola pode ser jogada. O Benfica de Luanda, a grande sensação da temporada, pelo futebol praticado e pelo terceiro lugar alcançado no Campeonato Nacional, é bem o exemplo do que afirmamos, bem como o campeão nacional, o Recreativo do Libolo. O padrão de jogo que saiu da edição 2014 do Campeonato Nacional é contra o futebol especulativo, que come fases de construção, aliena espaços para explorar entrelinhas através de falsas funções de falsos jogadores.

Ao contrário dos anos anteriores, venceu a posse de bola intensiva e a ocupação extensiva da terra, servida por executantes com qualidade de passe. Meyong (Kabuscorp); Gilberto (Petro de Luanda),Yano(Progresso), Ary Papel (1.º de Agosto), só para citar estes, souberam conferir ao campeonato o aspecto artístico que faltou nos anos anteriores ,O futebol sai da edição 2014 do Girabola com um padrão que outras actividades gostavam de ter já encontrado para sair desta crise que teima em nos apoquentar. As melhores equipas, Libolo e Kabuscorp, agiram segundo princípios colectivos inalienáveis e basearam o seu jogo na posse da bola e na completa ocupação do campo. Talvez tenha residido aí a diferença que as separou de outros concorrentes ao título, relegados para plano secundário na hierarquia da competição interna mais importante do calendário da FAF.

O defeso pode ajudar as equipas relegadas para plano secundário a recuperar e procurar descobrir os motivos dos seus fracassos e depois caminharem seguras rumo a uma melhor temporada em 2015, em que venham a ter acções mais consentâneas e objectivos bem definidos. Se pudéssemos repetir os trechos da História da Humanidade em que expressões artísticas constituíram sinais precursores de novos regimes e modos de vida, então este padrão de futebol que saiu do Girabola 2014 era uma excelente vanguarda para um novo compromisso do mundo com os seus valores mais reais. Vamos acreditar que a próxima época pode superar as estatísticas de 2014.

Em Fevereiro a prova volta à arena com outras motivações, novos desafios, novas emoções. Três novas equipas vão juntar-se à festa, com a alegria de o campeonato poder chegar pela primeira vez à província do Bengo, uma terra aqui bem na curva a seguir, mas que esperou uma eternidade para se fazer presente na "fina-flor" do futebol nacional.Em 2015 o futebol de primeira água vai poder rolar na terra do jacaré bangão, para alegria das suas gentes, que ao longo dos anos chegou a pensar que o Girabola era um direito reservado a outros e não a si. O próximo ano é que vão ser elas.

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