Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Sempre assim?!..

01 de Abril, 2016
Numa das suas interpretações musicais mais badaladas, "África", Jacinto Chipa pergunta que erro o continente negro terá cometido para estar fadado a todos os males que corroem a espécie humana, como a escravatura, a pobreza, a fome, as doenças endémicas, as guerras. Numa interpretação em língua nacional umbundo, pergunta o músico ,"Que pecado cometemos" (Nhê pway twanhola".

Transportada, por minha conta e risco, esta inquietação de Chipa para a realidade futebolística angolana, pergunto igualmente o que Angola terá feito de tão pecaminoso para merecer esta sina. É que mudam-se gerações de atletas, mudam-se treinadores, mudam-se dirigentes federativos, mas o ritmo competitivo é quase sempre o mesmo: estéril e inconstante a todos os títulos.

Inquietante e perturbador até certo ponto, é que se conjugam esforços redobrados no sentido de se proporcionarem as condições apropriadas a uma preparação sem contratempos, que seja capaz de conferir ao grupo de trabalho uma rodagem e maturidade que correspondam às obrigações do compromisso competitivo. E a safra é sempre ruim. Ou seja, a prestação e os resultados nunca são compensatórios ao investimento que se faz.

Às vezes há sinais de que o voo vai levantar mais alto. Mas tudo acaba por se revelar numa simples ilusão de óptica. Os momentos de inspiração dos Palancas Negras acabam sempre por ser uma espécie de sol de pouca dura, efémeros. Por exemplo, no torneio que apura para o CAN'2017 entraram determinantes, assumindo a liderança do Grupo B, mas foi só como um homem pobre e andrajoso que põe fato emprestado para disfarçar.

Bastaram dois jogos com a República Democrática do Congo para voltarem a ser remetidos à sua condição normal, onde talvez nem deviam ter saído.
E ai estamos nós de novo de máquinas calculadoras em punho, para as avulsas matemáticas do se, se e se, condição a que, em regra, ficam sujeitas as equipas que, para atingir os fins competitivos passam na dependência de resultados das outras, ou de terceiros como se ousa dizer.

Se se tratasse de uma segunda ou mesmo terceira vez talvez encarasse o quadro com alguma normalidade e teria escusado recorrer à tese de Jacinto Chipa. Passasse que o processo é recorrente. À excepção das primeiras duas qualificativas ao CAN, nomeadamente para 1996, com Carlos Alhinho e 1998 com Manuel Gomes "Neca" , todas as outras qualificações foram algo atribuladas.

Mesmo a memorável e histórica qualificação ao Mundial'2006, na Alemanha, resultou de uma qualificação sofrível definida apenas na última jornada. Embora se deva dar mérito a Zé Kalanga que faz o genial passe para Akwá, que marca o golo vitorioso diante do Ruanda, não devemos esquecer que beneficiou também de alguma negligência da selecção nigeriana que só viria despertar do sono arreliador tardiamente.

A dependência é uma condição que precisamos corrigir. É certo que competição não passa disso mesmo. É algo que se disputa ao limite das forças.
Porém se nos belisca a honra e a dignidade quando em ocasião alguma conseguimos disputar uma fase de apuramento a depender dos nossos próprios resultados. Enfim, e como se diz com alguma ironia, Angola tornou-se uma selecção do quase. Está sempre quase, e nunca chega ao objectivo.

Quando tudo parecia bem encaminhado, pelo menos até à entrada da terceira jornada, tudo complicou-se. As próximas jornadas serão de dar o litro, de jogar o tudo ou nada. Ainda assim, haverá que se esperar pelo deslize dos outros concorrentes, quando parecia o nosso país ter tudo para gerir a sua pontuação de modo a chegar à última jornada sem dependência. Aqui apetece-me evocar de novo Jacinto Chipa "Nhê pway twanhola?"

Na verdade, a ausência em dois campeonatos do mundo(2010 e 2014) não nos deve incomodar bastante, sendo esta uma prova de outra galáxia, cujos moldes de qualificação são também mais sérios e mais exigentes. Mas a ausência sistemática em fases finais do campeonato africano, não devemos encará-la de forma impávida. Belisca a honra e o nome do país que nos dá motivo de orgulho, enquanto cidadãos, enquanto patriotas.
MATIAS ADRIANO

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