Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Girabola

Assim surgiu o nosso campeonato

09 de Dezembro, 2019

Fotografia: Arquivo Edies Novembro

Passavam alguns anos que tinha terminado o Estadual de Angola, designação do campeonato que se disputava o período antes da independência. A última edição tinha sido em 1975, então ganha pelo Recreativo da Caála. Nos anos que se seguiram o campeonato não teve lugar, em face das convulsões que viriam conduzir o país à independência, na sequências das quais muitos portugueses e descendentes abandonaram Angola.
As infra-estruturas estavam ai. Mas algumas equipas se tinham desintegrado por completo. Vivia-se, enfim, uma "sede de bola ", saciada, entretanto, com a disputa de alguns jogos, nos grandes centros urbanos, de carácter amigável e recreativo. Competição como tal não existia.
Via-se que a vontade de assistir a jogos de futebol era enorme em todo o país. Seja qual fosse o jogo, entre clubes de uma mesma província, ou entre selecções de duas províncias diferentes, lotava o recinto. Por exemplo, em 1977 a Cidadela, com apenas um anel na época, gemia ao peso das enchentes nas célebres jornadas de amizade Angola e Cuba.
O Tonreio Ano da Agricultura, disputado em 1978, só por equipas de Luanda, mostrou por A+B a forma como efusiva como o povo vivia o futebol. Sendo que o país , ainda esquartejado pelos horrores da guerra precisava de se reencontrar, viu-se então que o futebol estava em condições de jogar papel de relevo na implementação da política de Unidade Nacional.
Deste modo é gizada a estratégia de realização do primeiro campeonato nacional de futebol da primeira divisão, que começa a ser disputado a 8 de Dezembro de 1979 sob despacho da então Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos. Abre-se aqui um parêntesis para dizer que inicialmente a prova estava marcada para o mês de Outubro, vindo a ser adiada em função do luto nacional decretado na sequência do passamento físico do presidente Agostinho Neto.
Entretanto nessa edição são chamadas a participar as 17 províncias do país(o Bengo não existia), naquilo que na altura se convencionou chamar "luta pelo afastamento total dos resíduos das taras tribais que o colonialismo nos tinha legado. Na divisão de equipas províncias com maior expressão futebolística tiveram o mérito de se fazer representar por mais de uma equipa , perfazendo no total 24 equipas que ficaram divididas em quatro séries.
Nesta ordem, Luanda teve três equipas(1º de Agosto, Taag e Diabos Verdes); Com duas equipas estavam as províncias da Huila, com Ferroviário e Desportivo da Chela, Huambo com Mambrôa e Palancas do Huambo, Uige com Construtores e FC Uige, Bié, com Juventude Kunge e Vitória do Bié, Benguela com Nacional e Académica do Lobito e Cabinda com FC de Cabinda e Luta Sport Clube de Cabinda.
As restantes províncias se fizeram representar por apenas uma equipa. Mas o quadro permitiu que a bola rolasse por todo o país. As emoções do futebol levaram Angola à loucura, mesmo tratando-se de uma fase de grande instabilidade política. Os fins-de-semana ganharam outro ânimo, outra azáfama, tal e, pois, a capacidade do futebol movimentar as massas.
Os resultados em si não contavam muito. O povo queria mais é ver espectáculo e a evolução de jogadores de referência. Aliás, do ponto de vista competitivo, a diferença entre as equipas era colossal, Dai a onda de goleadas que se registavam em quase todas as jornadas, sendo que a primeira na História da prova foi o 11-0 que a Taag aplicou ao Desportivo de Xangongo na primeira jornada.
No resto, o campeonato decorreu de forma alegre e salutar, principalmente a segunda fase em que se verificou mais equilíbrio na disputa. Equipas como 1º de Agosto, Taag, Palancas do Huambo, Nacional de Benguela, FC Uige e Desportivo da Chela  se impuseram às outras nesta fase.
Nas meias-finais, para as quais se apuraram as quatro equipas vencedoras dos quatro grupos, o Nacional de Benguela deixou pelo caminho os Palancas do Huambo, ao passo que 1º de Agosto e Taag tiveram de realizar três jogos,  - um dos quais disputado na cidade do Lubango - para se encontrar um vencedor que acabou por ser a turma militar.
O jogo da final disputou-se no dia oito de Março de 1980, no Estádio da Cidadela, entre 1º de Agosto e Nacional de Benguela, tendo a vitória sorrido a favor do 1º de Agosto por 2-1, depois de uma renhida disputa entre dois adversários que, na verdade, tinham se revelado nas mais esclarecidas do torneio.

MEMÓRIAS
Luvambo recorda
a final da Cidadela

Campeão nacional pelo 1º de Agosto, em 1979, Mário Luvambo diz que o primeiro campeonato nacional de futebol foi muito forte  porque contava com 24 equipas agrupadas em quatro séries de seis. "Para mim foi uma grande honra ter sido campeão nacional com a camisola do 1º de Agosto", disse.
Luvambo não jogou a final de 8 de Março de 1980 na Cidadela, porque estava lesionado. "Mesmo da bancada era como se lá estivesse, pois vivia intensamente o jogo, porque de um lado estava a minha antiga equipa, Nacional de Benguela, e do outro a minha nova paixão. É claro que torci para que a vitória fosse do 1º de Agosto. Pois, estava em jogo o primeiro campeonato nacional depois da independência ".
Acrescenta que, "as duas equipas chegaram à final porque eram as melhores que existiam naquele tempo , ao lado Grupo Desportivo da Taag (hoje ASA), Palancas do Huambo, Desportivo da Chela, Leões de Luanda, Construtores do Uige, FC do Uige e Mambrôa.