Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Girabola

Crena militar

Paulo Caculo - 11 de Setembro, 2017

1 de Agosto derrota Petro com golo solitrio rubricado pelo defesa Bobo

Fotografia: Jornal dos Desportos

A excelente moldura humana que ajudou a colorir ontem as bancadas do estádio 11 de Novembro, para ver jogar 1º de Agosto e Petro de Luanda, não saiu defraudada com a qualidade do espetáculo proporcionado pelos maiores emblemas do futebol nacional. É verdade.
Há muito que não se via um estádio com gente a vibrar do princípio ao fim, a deixar-se envolver pelos dribles estonteantes, pelas jogadas de cortar a respiração, mas sobretudo a contribuir para a beleza do espectáculo.

Para casa, os adeptos levaram várias recordações de um jogo emotivo, bonito e aberto, onde esteve presente a beleza das coisas bem feitas, cujo apelo ao "FairPlay" acabou sendo a imagem de marca nas bancadas, muitas vezes incitadas pela voz grave e audível que vinha dos gigantes alto-falantes do estádio.

O JOGO
As duas equipas entraram para o relvado assumindo uma postura extremamente ofensiva. Fruto desta postura, acabou sendo com alguma naturalidade que nos primeiros 45 minutos assistiu-se a um duelo repartido na posse de bola e na criação de oportunidades de golo.

Dada a grande dinâmica imprimida por ambos os conjuntos às respectivas jogadas, o jogo ganhou velocidade e correu rápido demais. Mas é bom que se diga, também, que nesse período pertenceu ao Petro a situação mais flagrante de golo, protagonizada pelo inevitável Tiago Azulão, aos seis minutos, num rematar forte e violento, com a bola a embater de forma estrondosa no travessão da baliza de Tony Cabaça.

Os militares terão interpretado a tal jogada de golo iminente do brasileiro, como se de um insulto se tratasse. Em face disso, encontraram uma pronta resposta numa jogada de belo efeito, produzida com "princípio, meio e fim", porém finalizada  de forma deficiente por Rambé. O avançado do 1º de Agosto após esta jogada, deixou de ser o mesmo, tendo saído lesionado, devido a uma ruptura no músculo esquerdo.

Pese a grande contrariedade sofrida no ataque, nem por isso os militares decidiram ficar entrincheirados no seu sector mais recuado. Muito pelo contrário. A equipa de Dragan Jovic manteve a postura de pressão alta ao adversário, ao mesmo tempo que encontrava argumentos para produzir caudal ofensivo. Se, por um lado, era pela magia futebolística de Job, Diney e Manguxi que o futebol dos tricolores ganhava fluidez para correr junto à baliza contrária, por outro, dependia da qualidade individual de Nelson, Bua e Ibukun.

O jogo estava, de resto, muito aberto, tendo a segunda parte sido um paradigma da etapa inicial. Às jogadas de elevado corte técnico, houve quem respondesse, de ambos os lados, com futebol musculado. Nada anormal. A intensidade do jogo, a arte e o engenho das jogadas tornava cada vez mais frenético o ambiente, que a dada altura alterou os ânimos. A ordem de expulsão ao técnico Beto Bianchi, pode ter roçado o exagero, mas foi uma prova disso mesmo.

Com a bola a rondar constantemente ambas as balizas, o equilíbrio foi a tônica predominante. Militares e petrolíferos lutavam pela posse de bola, como se do pão para a boca se tratasse. A luta no relvado foi duríssima, para homens de barba rija. É verdade. E, como nos grandes jogos, a decisão acabou por surgir num importante detalhe: alguém esqueceu-se de escoltar o central Bobo, que na sequência de um passe magistral de Bua na área, teve tempo para recepcionar a bola de costas para a baliza e fazer um remate à meia volta, batendo Gerson entre os postes.

A perder, o Petro teve reacção. Foi à luta. Fez pela vida, mas Tiago Azulão não teve espaços para fazer a diferença, como sempre habituou. O avançado esteve muito marcado, ora por Dany, ora por Bobo, tendo conseguido poucos espaços para provocar calafrios à baliza dos tricolores. O jogo terminou de forma dramática, com o Petro a tentar chegar ao golo da igualdade e o 1º de Agosto a gerir da melhor forma a posse de bola e os poucos minutos que restavam para António Caxala apitar pela última vez.

ARBITRAGEM
O árbitro António Caxala teve uma actuação que passou quase despercebida ao cabo dos primeiros 45 minutos regulamentares do desafio, não fosse um ou outro lance que hesitava a tirar o cartão da algibeira.  Aos 42 minutos, o juiz da partida terá feito vista grossa a um lance do ataque militar em que Maludi comete falta sobre Guelor.  Contudo, deixamos o benefício da dúvida, porque os seus auxiliares, Jerson Emiliano e Júlio Lemos, também não reagiram ao mesmo. Aos 66 expulsou, António Caxala expulsou o hispano-brasileiro Beto Bianchi, por conduta má durante o jogo.

OPINIÕES
TÉCNICO
DO 1º de Agosto
Ivo Traça 

“Jogo especial”

"Esta vitória tem um sabor diferente. Foi um jogo especial, onde todos os jogadores queriam jogar e apresentaram-se bem. Temos de dar os parabéns as duas equipas. A equipa que ganhou merece e foi o Agosto, dar os parabéns aos meus jogadores. Vamos nos prepara para os próximos jogos, porque pode ser mais difícil que este. Ainda falta muito jogo e todos os jogos serão difíceis e acredito que tanto o Petro quanto o Agosto pode vir a escorregar e queremos conquistar os três pontos em todos os jogos".

Técnico Adjunto
do Petro
  "Nejó"

“Houve respeito mútuo”


" Vamos continuar a trabalhar, no sentido de fazermos os melhor. Respeitamos o adversário e o adversário nos respeitou. Houve respeito mútuo. A estratégia é a mesma, somar o maior número de pontos. Penso que o jogo foi bom, com oportunidade para as duas equipas".

Bobó foi general em campo

Tony Cabaça: O guarda-redes do 1º de Agosto transmitiu confiança aos seus colegas. Sempre que chamado a intervir o fez com determinação. Aos seis minutos "assustou" ao testemunhar o embater da bola, na sequência de um portentoso remate de Tiago Azulão. Contudo, no cômputo geral foi determinado e demonstrou realmente estar bem. Esteve bem nas saídas dos postes e na abordagem dos lances.

Paizo: Cumpriu com o seu papel mas, com maior preponderância a defender.  Subiu pouco, porque eram muitas as tarefas defensivas. Do seu lado, o Petro investia bastante nas incursões ofensivas. Na segunda parte teve missão de travar o irreverente Job e deu conta do recado. Nas acções ofensivas, procurou dar o seu melhor mas, como sempre, teve mal nos cruzamentos.

Bobó: Foi um autêntico "General".  Foi praticamente o melhor jogador em campo. O congolês democrata marcou o golo solitário do desafio aos 74'. Tal como tem sido hábito, o central do 1º de Agosto se tem revelado como um verdadeiro reforço. Neste confronto, o congolês democrata esteve bastante bem e com muita determinação na sua tarefa defensiva. Irreverente, por várias vezes subiu para tentar o golo, principalmente nas acções ofensivas. Aos 74' marcou o único golo da partida, aproveitando bem cruzamento de Bua vindo da esquerda coroando a belíssima exibição que rubricou. Viu a cartolina amarela por ter tirado a camisola nos festejos do golo.
 Dany Massunguna: Tal como Bobo, Massunguna foi um lider em campo. Diante de um adversário da igualha do Petro de Luanda, o capitão militar, foi determinante na manobra defensiva da sua equipa. Conseguiu anular bem a mobilidade de Tiago Azulão e depois de Tony. Demonstrou grande postura fisica e atlética,  transmitindo bastante confiança aos seus colegas.

Natael:
Foi mais produtivo a atacar do que a defender. Bobo e Massunguna faziam-lhe as dobras quando este estivesse em missoes ofensivas. Mesmo assim, cumpriu embora, com imensas dificuldades para executar os indispensáveis cruzamentos para a área contrária. Em alguns momentos exagerou no individualismo e em outros, mostrou-se algo trapalhão. Conseguiu acertar depois mantendo segura a sua defesa.

Bua:
O homem do cruzamento magistral. Sacou da cartola uma nota artística e fez o cruzamento primoroso de que resultou o golo marcado por Bobó, aos 74'. Tinha a missão de ser o carregador de piano. Fez bem esse "papel" mas, em alguns lances exagerou no individualismo. Demonstrou boa mobilidade em campo. Aos 83' foi substituído por Macaia
Vado: Esteve pouco produtivo. Não conseguiu mostrar o seu potencial,  talvez pelo facto e ter recebido um volume alto de missões defensivas. Explodiu pouco. Foi bem substituído aos 59' por Geraldo.

Ibukun:
Foi das melhores unidades dos agostinos eem campo. Jogou e fez jogar a sua equipa. Trabalhou bastante mas, a ausência de um homem de área na sua equipa dificultou a conclusão da sua tarefa enquanto armador de jogo. Conseguiu cumprir bem a sua tarefa, "pisando" as duas áreas.  Aliás,  o nigeriano ja nos habituou a exibições de encher os olhos como a de ontem.

Show: Foi um verdadeiro trinco. Conseguiu anular as principais unidades do Petro na luta acerrima no meio campo. Foi em varias fases do jogo, o elo de ligação, defesa-meio campo-ataque. Deonstrou estar em bom momento de forma. Nelson da Luz: Pouco produtivo.  Muito se esperou dele por ser um "abre-latas" mas, a natureza do jogo, confundiu o atacante do 1* de Agosto que, ante as ausências de Rambé, que saiu lesionado aos 15', e Geraldo, pelo menos na primeira parte, não produziu o que dele se esperava. Na segunda parte, por pouco chegava ao golo aos 88. Nao conseguiu aproveitar bem um erro da defesa petrolífera.

TRICOLORES
Petróleo carburou pouco
para anular a força militar


Apesar da grande atitude demonstrada, sobretudo ao cabo dos primeiros 45 minutos regulamentares do desafio de ontem, no Estádio 11 de Novembro, o Petro de Luanda não teve chama suficiente para levar da melhor sobre o arqui-rival no clássico dos clássicos do Girabola. Portanto, a equipa do "eixo-viário" não carburou o suficiente e fruto disso viu a armada militar suplantar as suas acções neste 74º confronto directo entre as duas equipas na maior prova do futebol, por obra do golo de Bobo, apontado à passagem do minuto. Segue-se a avaliação da forma como actuaram os tricolores:

Gerson:
esteve evidência durante quase todo desafio, mas aos 75 minutos viu o remate desferido por Bobo violar a sua baliza, não tendo, em consequência disso não teve outra alternativa senão ir buscar a bola no fundo das malhas.

Maludi:
teve imenso trabalho para anular as investidas do ataque militar. Primeiro enquanto o marcador de serviço do d’Agosto, o cabo-verdiano Rambé, esteve em campo e depois quer pela pressão exercida por Guelor, que rendeu este, quer pela de Ibukun.
Wilson: Esteve bem durante toda etapa inicial do desafio, mas no reatamento não conseguiu anular o lance de que resultou o golo do 1º de Agosto.

Herenilson: A par de seu colega Wilson teve enorme trabalho para anular quer Ibukun, quer a Guelor que rendeu profícuo ponta-de-lança Rambé aos 19 minutos, por lesão.

Ary: teve grande influência nas acçoes ofensivas do Petro, fundamental na primeira parte em que fazia bem as transições de meio campo para o ataque. Porém, apesar da boa postura que demonstrou na ala esquerda, não teve a devida recompensa dos companheiros do ataque.

Diney: tal como seu compatriota Tiago Azulão, foi outros dos jogadores que contribui grandemente para o caudal ofensivo demonstrado pelo Petro. Aliás, como nos vem habituando ao longo destes tempos o craque brasileiro demonstrou grande atitude.

Mira:
a par do seu colega também esteve evidência nas jogadas construídas pela turma do “eixo-viário no corredor esquerdo.

Manguxi: jogou o que pôde enquanto esteve em campo, mas aos 57 minutos cedeu o lugar a Nandinho que ajudou a anular, em muitas ocasiões, o grande pendor ofensivo demostrado pelo 1º de Agosto

Carlinhos: foi, a par do brasileiro Tiago Azulão, dos jogadores tricolores, que mais carregou o piano sobre a defesa do 1º de Agosto. Aos 25, num lance em que foi bastante ousado, desferiu um remate do meio da rua para uma defesa apertada para canto de Tony Cabaça. No reatamento, na perspectiva se dar maior endurance no ataque do Petro, acabou substituído por Toni aos 78 minutos, que quase nada trouxe de novo.

Job: o experiente jogador tricolor, outrora apelidado por “Puto Maravilha”, não teve arte e engenho suficiente para suplantar a bem arrumada defensiva do d’Agosto. Por isso jogou o que pôde, mas ainda assim, em nada contribuiu para anular a vantagem da formação do “rio seco”, conseguido a partir dos 75 minutos com um golo de belo efeito do já referenciado Bobo.

Tiago Azulão: Entrou em grande plano no jogo e aos 6’ desferiu um remate que embateu na baliza de Tony Cabaça. No reatamento abrandou o ritmo evidenciado na etapa inicial e tendo, em consequência disso, sido bem anulado pela dupla de centrais militares, formada por Bobo, autor do golo solitário da partida, e por Dany.

NO CALOR DO DÉRBI
Enorme satisfação


Foi com satisfação incomensurável que retornei as páginas deste jornal, integrando a equipa de reportagem par a cobertura de um jogo de futebol. Fazia tempo, de facto, que esteva distante das coberturas de jogos de futebol do maior campeonato cá, do burgo. E a satisfação tornou-se, ainda, mais incomensurável por se tratar da cobertura do aliciante 1º de Agosto – Petro de Luanda, o clássico dos clássicos do futebol nacional.

E mais ainda:
como que a recordar os velhos tempos de correspondente deste título da Edições Novembro no Namibe, cidade da rara Welwitchia Mirábilis, repórter e sub-editor, agradou-me, ainda, na cobertura deste dérbi dos dérbis do Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão, que agora ganhou o cognome de Girabola Zap, partilhar esta com velhos companheiros como o Morais Canâmua e Paulo Caculo. No calor do dérbi dos dérbis do nosso futebol, que ontem atingiu a cifra 74, com a turma do “eixo-viário” a assumir supremacia, não fosse as 31 vitórias, contra 23 da do “rio seco”, além dos 20 empates inscritos nos confrontos entre ambos, não hesitei ao convite de Matias Adriano, director deste título, para integrar à equipa de reportagem.

Preferi, inclusivamente, abandonar o convívio familiar ao domingo, por algumas horas, e num momento especial para minha princesinha Daniela Vieira Dias, que ontem mesmo completara as suas 16 risonhas primavera, para poder partilhar esta cobertura do clássico dos clássicos do Girabola Zap. E valeu a festa deste duelo da maior montra do nosso futebol teve de tudo um pouco.

Valeu ainda porque quer o d’Agosto, quer o Petro, protagonizaram ontem, uma agradável partida de futebol e, como que, a recordar o clássico dos clássicos dos idos anos de 80 e do início dos de 90, quando pontificavam nas hostes militares nomes comos os de Ndunguidi, Alves, Lourenço, N’suka, Napoleão, e nos tricolores, Jesus, Lufemba, Abel Campos, Saavedra, Quim Sebastião, Nejó e outros, como de resto, também profetizou já aqui o meu camarada Domingos Mendes ou Betumeleano Ferrão, se preferirem, na antecâmara deste clássico, sempre com implicações no título.

De resto, valeu o espectáculo, valeu a bravura e bem assim como entrega da rapaziada de ambos conjunto neste confronto mais 35 mil almas para o Estádio Nacional 11 de Novembro, a nova catedral do futebol angolano.
SÉRGIO V. DIAS