Jornal dos Desportos

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Girabola

Falsrios invadem Girabola

Paulo Caculo - 28 de Junho, 2016

O principal campeonato de futebol do pas pode estar a ser vtima de uma rede de futebolistas de identidade duvidosa

Fotografia: Jos Soares

O Girabola Zap que é a  denominação do principal campeonato de futebol da Primeira Divisão, pode estar a sofrer uma invasão silenciosa, de uma rede de futebolistas falsificadores de documentos, que na ânsia de extorquir dinheiro de clubes angolanos, adulteram a identidade para rubricar vários contratos num só ano.

A prática, segundo apurou o Jornal dos Desportos, não é nova e redunda há vários anos, desde que o campeonato passou a despertar o interesse de atletas expatriados. Na maioria,  são jogadores proveniente da República Democrática do Congo e aproveitam-se da alegada facilidade com que se obtêm o bilhete de identidade em Angola, verdadeiro ou falso, para protagonizarem investidas no campeonato nacional.

O caso mais recente, cujos dados o nosso jornal teve acesso, aconteceu no Benfica de Luanda. Na tentativa de reforçar o meio-campo, a direcção das águias contratou  o congolês democrático Eric Musau Bokanga, antigo craque do Vita Club e do TP Mazembe.

Quando tudo parecia seguir os seus tramites legais, com normalidade, eis que o clube encarnado vê-se confrontado com uma notificação da Federação Angolana de Futebol (FAF), a dar conta de que o jogador firmou contrato com o Progresso do Sambizanga, onde não chegou a fazer qualquer jogo.

O futebolista acabou por aplicar, com êxito, golpes aos sambilas e às águias, levou cerca de cem mil dólares ao primeiro clube e quase duzentos mil ao segundo. O que pode ter chamado à atenção da Federação, foi o facto do médio (ver fac-simile em anexo) ter apresentado na documentação para o contrato com o Benfica, um passaporte congolês, provavelmente da naturalidade verdadeira, em que se apresenta como cidadão da RDC, nascido a 9 de Outubro, em Kinshasa, Eric Musau Bokanga, e na tentativa de angariar mais alguns valores, alterou a sua naturalidade para obter outro passaporte angolano,  sob a identidade de Henriques Moisés Mokanga, nascido a 9 de Outubro, em Cabinda.

DUAS NATURALIDADES
O caso considerado de Polícia, salta à vista o facto do jogador em causa apresentar  duas naturalidades, facto que representa uma prova fiel de que algum dos documentos apresentados por Eric Bokanga, não é verdadeiro.

Enquanto, no passaporte congolês, o atleta confirma ter nascido em Kinshasa, já no outro angolano, o médio apresenta-se como originário de Cabinda. Dados confusos que contribuíram para que facilmente fosse apanhado, como se diz na gíria "com as calças na mão".

"Qualquer cidadão pode adquirir várias nacionalidades, não é possível obter-se várias naturalidades. Como pode uma pessoa nascer no mesmo dia, mês e ano, em Cabinda e em Kinshasa? Alguma coisa não está bem.", interrogou-se um jurista ouvido pelo nosso jornal sob anonimato.

"A partir destes pressupostos, pode-se chegar à conclusão de que as motivações deste cidadão só pode ter sido para  obter valores monetários e nunca jogar futebol", acrescentou.
Chamado a provar a  real identidade, sob risco de ser encaminhado para os órgãos de justiça, no caso à Polícia, consta que Eric Bokanga optou por colocar-se em fuga, desconhece-se até ao momento o paradeiro do jogador.

INDUZIDOS A ERRO
Muitos clubes do campeonato nacional já se confrontaram com situações do género,  são obrigados a retirar jogadores estrangeiros da competição, assumir todos os riscos relativo à perda de valores monetários investidos com a contratação dos mesmos, para evitar serem sancionados pela FAF.

O facto, é que muitos destes clubes são induzidos ao erro, porque são apanhados de surpresa, pois não se dão ao trabalho de verificar a autenticidade dos documentos apresentados pelos futebolistas estrangeiros que contratam, para "enriquecer" os respectivos planteis.

"Realmente não é missão dos clubes, provar a autenticidade de bilhetes de identidade ou passaportes. Este, é um trabalho da Polícia. Mas os clubes devem solicitar o apoio da Polícia Nacional neste particular", esclareceu o jurista.

SÃO INOCENTES
OU CONIVENTES?

Embora não se conheçam casos de jogadores estrangeiros, que tenha sido "incitados" a adulterarem  os seus dados para jogar futebol, consta que existe a suspeita de haver clubes que deliberadamente incentivam atletas expatriados a falsificarem a nacionalidade e identidade, sobretudo, quando confrontados com excesso de estrangeiros nos planteis.

O jurista ouvido pelo nosso jornal considera que não é a obtenção da nacionalidade angolana um acto criminoso, desde que alcançados mediante o cumprimento de normas legalmente exigidas, os clubes acabam por serem cúmplices, quando participam dessas fraudes.

"Este jogador adulterou a identidade, para firmar um novo contrato. Conforme as coisas  caminhar para a transparência, muitas coisas que antes eram consideradas normais, hoje há mais exigência e rigor em relação a estes aspectos. Hoje, já se começa a ser mais difícil tratar um documento e a Federação deve arranjar mecanismos para ajudar os clubes a não incorrerem no erro", sugeriu o jurista.

O ideal, de acordo ainda com o nosso interlocutor, é a Federação criar uma base de dados informatizada, caso ainda não tenha, que  permita  o cadastramento de todos os atletas inscritos no campeonato. Esta base de dados - acrescenta ele -  deve estar interligada com as APF'S, de forma a obter-se um histórico destes atletas, como faz a FIFA com o seu Sistema Integrado de Jogadores, que permite ter acesso ao cadastro dos jogadores de futebol. 

O Campeonato Nacional de  da Primeira Divisão, vulgo Girabola Zap tem sido assolado por futebolistas de várias nacionalidades, com destaque para congoleses, congoleses e democráticos, brasileiros, portugueses, zambianos, camaroneses, namibianos e cabo-verdianos.