Jornal dos Desportos

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Girabola

FC Luanda augura competir no Girabola

Paulo Caculo - 01 de Setembro, 2016

Paulino Silva reconduzido para mais um mandato como presidente do clube

Fotografia: Domingos Cadncia

O FC de Luanda é dos mais históricos e antigos clubes do país. Os louros da trajectória redundam ao século passado, altura em que atletas como, José Eduardo dos Santos, Pedro de Castro Van-Dúnem "Loy", Prado, Francisco Magalhães Paiva "Nvunda", Justino Fernandes, Abreu, Veloso, Paulino, Makuária, e tantos outros, faziam as delícias dos adeptos, elevaram bem alto o emblema do clube. De lá para cá, muita coisa mudou. Mudaram-se os tempos, os artistas, mas permanece  na memória, momentos de glória protagonizados pelo futebol dos azuis e branco. A nova direcção está apostada em reerguer a tradicional formação da capital, a partir dos escombros. Em entrevista ao Jornal dos Desportos, Paulino Silva, presidente reeleito do clube, fala dos 80 anos, e aponta os objectivos com vista o próximo quadriénio, e recorda com nostalgia as épocas e anos de glória do FC de Luanda. O dirigente fala das dificuldades enfrentadas, dos motivos que o prendem ao "cadeirão máximo" do clube,  destaca a parceria com a Academia de Futebol de Angola (AFA), como a grande "lufada de ar fresco" que veio proporcionar à equipa de futebol, com esperança num futuro melhor. Atente, pois, à conversa.

Acaba de ser reeleito para o cargo de presidente de direcção do FC de Luanda, quais são os novos desafios?

Houve alguma preocupação, em termos de momentos menos bons que o clube atravessa, e tivemos de assumir novamente a liderança. Sobrevivemos, praticamente três pessoas: o presidente, vice-presidente e secretário-geral. Agora, estamos no ano olímpico, tínhamos de estruturar a direcção e tivemos de sensibilizar as pessoas, para este acto. Não houve grande ligação, no sentido de termos algo mais forte, porque algumas pessoas não estavam cá, mas conseguimos unificar algumas partes, facto que permitiu formarmos um elenco, para estarmos no FC de Luanda como direcção.

Qual é a actual situação do clube?

O FC de Luanda é um clube que não tem nada para oferecer às pessoas, já que é um clube que está a reerguer-se, apesar de ter já 80 anos de existência. É um clube praticamente novo, nesta situação, mas usámos pessoas extremamente importantes e apaixonadas pelo clube, porque neste momento pertencer a uma direcção como a tem o FC de Luanda, é preciso ter muita coragem, e principalmente, muita paixão pelo clube. Para mim, este é considerado o ano zero para o clube, sobretudo, nesta fase que vamos atravessar.

Quais os objectivos imediatos?
Nos últimos dez anos, trabalhámos intensamente, mas sem conseguir o que pretendíamos. Estávamos um pouco fora do nosso âmbito, e estratégia de clube, mas  mantivemos a estrutura para sobrevivermos, tendo sempre em atenção o apoio à juventude. Neste momento, estamos com um grupo de 60 a 80 atletas, ligados ao futebol, mas não é fácil manter a equipa no activo, porque o dinheiro escasseia no clube. Ainda assim, retiramos  da rua muitos jovens que se mantêm no clube, embora com muitas dificuldades.A partir do momento em que passamos a pensar em algo novo para a nossa agremiação, conseguimos parceria com a AFA, que nos proporciona a perspectiva de pensar brevemente, dentro de quatro a cinco anos, em relançar um novo FC de Luanda e com um novo espírito de luta.

Quais as vantagens da parceria com a AFA?
A parceria com AFA é  que perseguimos há muitos anos: ter alguém que nos ajude. As pessoas ligadas ao FC de Luanda e ao FC do Porto - uma vez que somos a quinta filial do FC do Porto - estão sensibilizadas à chegada de mais pessoas ao clube. O facto de termos a parceria, dá-nos a possibilidade de dentro de alguns anos, estarmos outra vez a tentar entrar no que são os ideais do FC de Luanda, uma equipa de topo e apetecível.

Acredita  ser possível recolocar o clube, nos grandes palcos do futebol nacional, perante as inúmeras dificuldades básicas que atravessa?
 Acreditamos que sim. Por isso, é que estamos aqui. E, só para fazer um pouco de história, veja que o FC de Luanda sempre teve no seu seio, pessoas muito influentes, como são os casos, de Sua Excia.  o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, o comandante Van-Dúnem Loy, Prado, Vunda e Justino Fernandes. Mas o clube teve também outras pessoas, que são portistas e que gostam do FC de Luanda, casos do actual governador Kundy Payhama, e tantos outros, que agora não me lembro. Há jogadores também que foram criados no FC de Luanda, a exemplo do Ndunguidi, Santinho, Abreu, Veloso, Makueria, sem esquecer que eu estive 12 anos no clube.

Podemos considerar um clube com alguma mística...

Claro. E, é esta mística, que leva as pessoas a aparecerem agora, porque verificaram que o FC de Luanda está a voltar ao seu lugar. As pessoas começam a aparecer no Estádio da Glória, na AFA, para assistirem aos nossos jogos. Pelo menos, 30 a 50 pessoas têm invadido o Estádio da Glória para ver jogar o FC de Luanda. Já há também uma mística criada, porque os jovens da AFA vão ver os nossos jogos e começam a gostar e adaptar-se ao FC de Luanda.

Pelos vistos, o FC de Luanda passa a utilizar as instalações da AFA. Certo?
Obviamente. Este, é um dos resultados da parceria. Conseguimos com isso, contar com uma enorme ajuda, e gostava de agradecer à casa do FC do Porto, especialmente à direcção do senhor Rochinha, uma pessoa muito importante nesta ligação e à própria direcção da AFA, na pessoa do senhor José Garrido.
Agradecimentos especiais aos grandes companheiros, Daniel Cata e o senhor Domingos Inguila, este último que foi um profissional de futebol, em Portugal, e que nos ajudou muito nesta ligação. À toda equipa do professor Ramon, pelo grande contributo, porque se não tivéssemos este apoio era difícil estarmos a pensar noutros objectivos.

O que espera colher em termos objectivos para o futebol com esta ligação à AFA?
Os nossos objectivos colocam-se dentro das expectativas que temos neste momento, e que são altas, mas ainda não temos nenhum fundo, para ver o que vamos fazer no futuro, no  aproveitamento desta parceria com a AFA. Entretanto, de uma coisa estamos certos: a parceria vai ajudar-nos  no sentido de sermos o parceiro privilegiado da AFA, quando os seus atletas do futebol de formação tiverem necessidade de passar para outros escalões. Possivelmente, ainda não foi nada conversado sobre isso, o FC de Luanda pode ser a parceria ideal nesta ligação, com a AFA do futuro.

TRANSFERÊNCIAS
"Todos os anos perdemos atletas"


Futebol continua a ser principal 'cartão de visitas' do FC de Luanda?

Com certeza. Apesar de temos várias modalidades, neste momento, o futebol é a principal, porque não temos hipótese de mais. Temos só um escalão a competir, que é de juvenis, os sub-17. Já tivemos muitas outras modalidades, incluindo o futsal, mas questões financeiras nos impediram de prosseguir. Portanto, estamos a chamar todos os ex-atletas do FC de Luanda para contribuírem para o engrandecimento do clube.

Como está a equipa de sub-17?
Neste momento, é a equipa mais jovem do campeonato de juvenis, e que fez o seguimento das camadas de iniciados da AFA. A equipa está numa fase inicial, em que precisa de aprender muito, comparadas às outras do mesmo escalão, e que são formadas por jogadores supostamente do segundo ano, mas muito desenvolvidos fisicamente em relação ao FC de Luanda.

O rendimento desportivo da equipa permite aspirar a altos patamares?
A equipa promete, está numa boa posição no campeonato, tem marcado também uma posição muito boa, derivada da qualidade da formação dos seus técnicos e de todas as áreas envolventes no futebol dentro da AFA, em que usufruímos de todas as ajudas. Em termos de forma de jogar, a equipa do FC de Luanda joga ao nível do pensamento dos seus treinadores. São técnicos que se implantaram na AFA.

Sem grandes recursos, de que forma a direcção mantém os Sub-17 a competir?

Temos  o principal apoio que vem do pessoal do clube, respectivamente, do presidente de direcção e de outros elementos da direcção, como são os casos do secretário-geral e do vice-presidente. Temos canalizado alguns apoios de amigos, que nos ajudam com ofertas, que nos permite manter a equipa a competir. De um tempo à esta parte, temos contado com o imprescindível apoio da RIPOR, que nos ajuda de maneira incansavel com o pagamento à arbitragem, treinadores e a muito custo, mas sempre nos apoia. A SICAL é um dos nossos principais patrocinadores, o resto advém graças ao gesto de boa vontade de algumas pessoas singulares.

De que forma obtêm o material desportivo?
Conseguimos o equipamento que nos é oferecido, e outro a preço baixo que compramos em Portugal, através de uma marca desportiva conhecida. Fazemos alguma coisa, mas só quando tivermos uma estrutura avançada, seremos capazes de passar à fase de apoios pós-AFA.

INFRA-ESTRUTURA
Paulino Silva clama por apoios


Quais as principais dificuldades do FC de Luanda neste momento?

Essencialmente, infra-estrutura. O FC de Luanda não tem infra-estrutura. Não temos um campo para treinar, jogar e nem um espaço onde possamos construir um campo de futebol, e muito menos, onde possamos ter uma sede. Portanto, estas são as grandes dificuldades do FC de Luanda, e sem isso, não temos nada.

Sem infra-estruturas, onde a direcção se reune para tratar de assuntos  relacionados com o clube?
É muito difícil reunir em restaurantes, à mesa de um café, canalizarmos as pessoas para este tipo de reuniões. Conseguimos reunir apenas porque temos pessoas dedicadas e com paixão de dar seguimento ao projecto do FC de Luanda. Se não tivermos um espaço, uma sede onde posamos ter pessoas que administrativamente possam trabalhar para o clube, é extremamente complicado termos ideias avançadas.

Sente receio do projecto fracassar?
Não. Nada nos impede de vir a ter futuramente estas condições. É claro que vamos ter dificuldades, porque o país não atravessa bons momentos, e isso, reflecte-se em todos os níveis. Ainda assim, vamos lutar,  e aliás, há dez anos que continuamos nesta luta incessante, para termos uma sede, porque o clube neste momento não pensa noutros voos. É preciso, primeiro, pensar o presente, para depois atacarmos o futuro. O futuro não pode ser muito alargado, se calhar o mais breve possível, para podermos incentivar algumas pessoas que estão sempre abertas a ajudar noutras modalidades.

FORMAÇÃO
Dirigente lamenta atitude dos clubes


O FC de Luanda só tem a equipa de sub-17, para onde vão os atletas que atingem os escalões subsequentes?
Temos alguns atletas que jogam no Girabola, e que começaram no FC de Luanda, mas nunca vimos nenhum clube solicitar ao FC de Luanda os seus talentos. Os clubes não falam com o FC de Luanda,  acho que isso é negativo, porque há jogadores que hoje são titulares em algumas equipas do Girabola, e tiveram a formação no FC de Luanda. Os clubes esquecem-se que formamos o jogador e não falam com a direcção.
   
Está a reclamar algum direito sobre esses jogadores?

O problema, é que quando temos um atleta na formação, devemos  inscrevê-lo na Associação ou na FAF, e se não fizer isso, faz com que o nosso jogador não tenha um histórico. O atleta não tem uma fidelidade com a Associação, nem a Federação, e nesse caso, qualquer um vai para qualquer clube, porque não pertence a ninguém, não tem um histórico, uma identificação.
Há um atleta que joga no Girabola, que deve ter entre 24/26 anos, foi do FC de Luanda. Fui ver o histórico do jogador e notei, que estava registado a partir de 2014. Em qualquer parte do mundo, o histórico permite-nos ver que os rapazes foram iniciados ou não, e isso dificulta sobremaneira os clubes, porque todos os anos temos de arranjar jogadores novos.

Que razões impedem o FC de Luanda de criar um histórico para os jogadores na APFL e na FAF?
O FC de Luanda não vai atrás de ninguém, as pessoas não querem mudar de mentalidade. Temos de colocar gente nova, com mentalidade inovadora, que queiram implantar novas ideias. Temos a certeza de que os nossos atletas, se mantiverem o nível que demonstram actualmente, nos próximos cinco anos podem tornar-se jogadores de gabarito. Outro problema, prende-se com a idade das crianças, que também é um tabu, e que infelizmente está a trazer problemas ao nível das nossas selecções de formação e na selecção principal. Portanto, se não fizermos um histórico dos jogadores, não conseguiremos fazer uma selecção de honras muito forte.

FUTURO
Direcção augura competir no Girabola

Que estratégias a direcção pensa adoptar, de forma a evitar a fuga, de futebolistas do clube?

Neste momento, a nossa parceria dá-nos algum à vontade, para que isso, não aconteça. Mas penso que se deve trabalhar, para que qualquer clube, essencialmente, os clubes grandes, prestem o apoio necessário aosw clubes pequenos, porque só assim os jogadores de equipas mais pequenas podem ter oportunidade de jogar em equipas grandes. Devemos ajudar as equipas pequenas, a formarem jogadores, para as equipas grandes levarem às selecções. De certeza, não são as equipas pequenas a levar os jogadores às selecções. As equipas pequenas devem ser salvaguardadas pelas equipas grandes. Mas temos uma parceria e não vejo que haja razões para outros clubes virem retirar jogadores que sejam  nossos, porque muito dificilmente os levam.

De que forma o clube pensa angariar adeptos e sócios?
Os sócios são o nosso principal enfoque neste momento. Temos de arranjar mais sócios e pensamos contar também com a ajuda dos médias, para a divulgação e ajuda aos clubes pequenos. Penso que a divulgação dos objectivos e de projectos do FC de Luanda são formas importantes de mostrar ao mudo angolano que o clube existe, tem potencial, sobreviveu aos tempos difíceis, e está outra vez apostada em ressurgir.

Qual é o principal sonho à frente dos destinos do FC de Luanda?
Todos podemos sonhar, porque não custa dinheiro (risos). Fui atleta do FC de Luanda durante 12 anos, venho de uma geração posterior a do meu pai, que foi atleta durante 15 anos,  dirigente do clube e gostava de deixar para alguém uma pequena estrutura, um campo e uma sede. Estamos a lutar para isso, mas sozinhos não conseguimos. Precisamos de apoios, de forma a termos possibilidades para pagar a dois ou três funcionários, que nos ajudem administrativamente no clube. Temos a certeza que vamos  levar o clube a disputar outra vez o Girabola, não é agora, mas quem sabe daqui a dez anos. Vamos trabalhar neste sentido, colocar o clube a funcionar como era antes, ou depois da independência, porque o FC de Luanda sobreviveu muito tempo na primeira divisão.

Tem saudades do FC de Luanda do seu tempo?
A saudade também é permitida. Tenho saudades da minha carreira, porque fui um internacional do futebol bem sucedido, a nível da Europa. Joguei desde os seis aos 18 anos no FC de Luanda, onde toda a gente que tem 50 a 55 anos se lembra perfeitamente, do Paulino que foi guarda-redes. Temos a certeza de que vamos aparecer em grande, mas não sabemos se vai ser como no antigamente, porque as perspectivas não são tão fáceis. Hoje, o FC de Luanda tem dificuldades de se implantar no futebol e temos perspectivas de começar a disputar o provincial,  depois o campeonato da segunda divisão, e mais tarde ressurgir na primeira divisão.