Jornal dos Desportos

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Girabola

Ndunguidi e Jesus: dois cones da histria do futebol nacional

MORAIS CANMUA - 09 de Dezembro, 2019

Fotografia: Arquivo Edies Novembro

Os nomes de Ndunguidi e Jesus estão intrinsecamente ligados ao Girabola e ao futebol angolano tal foi o contributo, como jogadores, que esses dois ícones deram ao nosso association, quer a nível dos seus respectivos clubes, como na Selecção Nacional.
No retrato retrospectivo de trajectória dos 40 anos que vem sendo disputada a prova maior do futebol nacional, vulgo Girabola Zap esses dois nomes não devem nem podem ser olvidados. Antes pelo contrário, devem ser ressaltados por, em nosso entender, serem das maiores figuras do nosso futebol a par de outros vultos que fizeram furor quer a nível interno, como na diáspora.
Porém, neste espaço, fazemos referência à essas duas figuras que a determinada altura elevaram o nome do nosso futebol principalmente a nível das massas associativas das duas maiores formações nacionais, no caso o 1º de Agosto e o Petro de Luanda. No entanto, por força do destino, Ndunguidi acabou vestindo a camisola dos dois emblemas, transferindo-se para os tricolores em 1990.
Ndunguidi Daniel, de seu nome oficial, o ex-internacional angolano iniciou a carreira futebolística nas Escolas de Fernando Peyroteo, em Luanda, indo mais tarde, já como sénior, para o Futebol Clube de Luanda e daí para o 1º de Agosto, em 1977.
Donos de algumas particularidades mas que tinham algo de comum, o de proporcionar o arrasto de multidões aos campos de futebol onde evoluíam e não só. Ndunguidi, pelo 1º de Agosto, e Jesus, pelo Petro de Luanda, faziam na verdade, furor. Cada um a seu jeito. Ndunguidi, o camisola 7 da turma militar, jogava preferencialmente como extremo direito ou médio ala direito ou, vezes sem conta como avançado ou médio mais interior.
Possuía uma velocidade sem igual e fintas estonteantes onde a rapidez nos dribles eram as suas principais armas, aliado a remates fulminantes e geralmente bem colocado, com ambos os pés, à meia-distância. Outra das suas armas eram cruzamentos em jeito de “banana” quase sempre no sítio certo. Aliás, Carlos Alves, o goleador-môr de todos os Girabola (ainda ninguém conseguiu superar-lhe o record de 29 golos), seria a pessoa ideal a confirmar isso mesmo.
Além disso, Ndunguidi era, também ele, um exímio artilheiro. Uma das insuficiências que dele se notou durante a sua passagem pelo Girabola foi sem dúvidas o jogo aéreo.
Poucas vezes se conseguia ver Ndunguidi em acção ofensiva cabeceando à baliza adversária. Mas, ainda assim, marcou alguns golitos de cabeça.
Ndunguidi tinha um estilo característico, inclinando ligeiramente para baixo o ombro esquerdo com o braço do mesmo lado colocado ao longo do corpo e a mão dobrada em concha para trás. Desta forma, com velocidade na condução da bola, aliado à técnica apurada e boa condição física que patenteava, era praticamente um desequilibrador. Era o ÁS da formação do 1º de Agosto onde nutria admiração e respeito de milhares de adeptos. Aliás, essas qualidades e por ser verdadeiramente craque, provocaram que, na época muitos jovens fosse “contagiados” pela febre de jogar futebol e, sobretudo irem aos estádios assistir os jogos.
“Eu com a bola nos pés, era um “diabo” à solta (…)”, disse ele próprio numa entrevista há alguns anos, concedida ao programa “A voz dos Kotas da Rádio 5.
De entre muitos episódios onde a evidência da técnica, habilidade e do bem jogar, ficou na história o episódio registado num célebre jogo entre o 1º de Agosto e o Progresso Associação Sambizanga, que nos anos 80 eram considerados verdadeiros clássicos do futebol nacional, em que Ndunguidi terá terminado prematuramente com a carreira do lateral esquerdo da equipa adversária, de nome Paulo Cassule.
Numa noite “endiabrada” Ndunguidi pegou a jeito o defensor e com sucessivas variações de velocidade e dribles, estonteou Cassule que acabou “esfarrapado” na pista de cinza que o estádio dos Coqueiros possuía. Isso lhe terá valido a designação de jogador mais popular, num concurso promovido na altura pelo conceituado semanário de então, Jornal Desportivo Militar (JDM).
Episódio idêntico aconteceu aquando da vinda da equipa principal de futebol do Sporting Clube de Portugal à Angola, nos anos 80, em que rubricou uma soberba exibição provocando que os dirigentes leoninos o quisessem contratar. Infelizmente, a política desportiva do País, não permitia. Outro, foi aquando da vinda do Canon de Yaoundé, para as Taças dos Clubes Campeões, o camisola 7 do 1º de Agosto foi protagonista de um golo, o primeiro, que Thomás Nkono não viu, alegando que a bola teria passado no espaço entre as redes e o poste esquerdo da baliza do lado Sul da cidadela. O resultado foi 3-4 a favor da turma camaronesa.
Uma referência se deve fazer ao facto de Ndunguidi ter sido o jogador que abriu o activo na final do primeiro Girabola, em 1979 (que foi disputado em séries e por zonas), em que o 1º de Agosto defrontou, na Cidadela, o Nacional de Benguela, num desafio em o árbitro foi Dionísio de Almeida. Ndunguidi fez o 1-0; a equipa de \"nacionalista\" ainda empatou por intermédio de Lino mas, no cair do pano, Sansão, que entrara na etapa complementar, apontou o golo da vitória, vencendo os militares por 2-1, vencendo assim o primeiro campeonato nacional de futebol, vulgo Girabola.

CARREIRA
DE TREINADOR

Faz-se ainda referência no facto de Ndunguidi ter sido igualmente técnico adjunto e depois principal do clube do \"Rio Seco\" e, nessa condição, como técnico principal, ter logrado arrebatar o título em duas ocasiões.
Da mesma forma, foi técnico das equipas do Sonangol do Namibe, Clube Desportivo da Huíla  (em duas ocasiões diferentes) e do Progresso do Sambizanga.

E O CRAQUE
DO CATETÃO...

Por seu turno, Osvaldo Saturnino de Oliveira, conhecido nas lides futebolísticas como Jesus, foi igualmente um expoente máximo, mas do lado do Catetão. Era o célebre camisola número 9 do Petro Atlético de Luanda.
Ao contrário de Ndunguidi, Jesus era ponta-de-lança e exímio marcador de golos. Praticamente um verdadeiro “matador”. Isso justifica o facto de, na véspera de um jogo diante do arqui-rival 1º de Agosto, numa entrevista, Jesus ter aludido “ter sede de golos” e, no dia seguinte, apontado cinco tentos, num jogo em que o Petro protagonizou uma das maiores derrotas (6-2) que o clube militar já sofreu na sua história.Durante a sua trajectória no Girabola, Jesus era, sem sombras para dúvidas o “abono de família” da equipa comandada na altura pelo brasileiro António Clemente. A sua característica era de um jogador esguio, e um “falso” lento.
Dono de dribles à sua maneira e todos eles intencionais, conseguindo desta forma ludibriar os defesas contrário para fazer das suas. Foi assim que, por mais de uma vez foi o artilheiro da prova. Jesus tinha uma altura boa para ponta-de-lança e, por isso, marcava muitos golos de cabeça, fruto da sua boa compleição física e da capacidade de salto que possuía. Na área contrária era um autêntico “rato” que farejava o golo. Com essas características, chegou a rumar para o profissionalismo na diáspora jogando, no Oliveirense e no Varzim Futebol Clube, em Portugal. Com Ndunguidi, Jesus iniciou-se na modalidade no FC Luanda, em 1974.
Foi homenageado como lenda do futebol africano, pela Confederação Africana de Futebol (CAF), ao receber, em 2008 um “Óscar do futebol”. Jesus ganhou sete campeonatos nacionais, cinco Taças de Angola, recebeu três troféus de melhor marcador do Girabola, foi vice-campeão dos Jogos da África Central, e campeão como treinador pelo Petro Atlético de Luanda. Seguiram-se algumas distinções como a da gala dos desportos, em 2007 e a da CAF de figura lendária do futebol africano, pelos muitos anos de carreira e de contributo em prol do futebol angolano.
Na verdade, Jesus, tal como Ndunguidi, capitalizavam atenções e tinham uma legião de fãs que emprestava de facto outra beleza ao futebol.