Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Girabola

No Arregaa ningum passava

MATIAS ADRIANO - 09 de Dezembro, 2019

O primeiro relvado do ps-independncia, em meados dos anos 80 do sculo passado, foi o do Estdio do Arregaa, plantado pela mo engenhosa de Jorge Bolota

Fotografia: Arquivo Edies Novembro

Quando em 1979 o Girabola veio à luz contavam-se os estádios com tapete relvado. Em Angola apenas três cidades davam-se ao luxo de possuir estádios com padrões internacionalmente exigidos, nomeadamente Luanda, Huambo e Huila. Nas demais províncias haviam estádios, com bancadas e balneários, mas o tapete de jogo era pelado. Luanda tinha os Coqueiros e a Cidadela Desportiva, esta última ainda a esbanjar algum modernismo, pois, sequer as obras estavam concluídas. No Huambo tínhamos as Cacilhas e os Kurikutelas e na Huila o Ferroviário e a Nossa Senhora do Monte. Nas restantes províncias predominava o areal. Isto leva a concluir que 90 porcento da prova foi jogada em tapete de areia, com todas as consequências que tal estado acarretava para os atletas. Mas era a realidade do momento, com a qual bem ou mal tínhamos de nos adaptar. O primeiro relvado do pós- independência, em meados dos anos 80 do século passado, foi o do Estádio do Arregaça, plantado pela mão engenhosa de Jorge Bolota. Mas a razão deste escrito tem pouco a ver com campos relvados ou pelados. Visa mais é dar realce, neste exercício a que nos propusemos escalpelizar os 40 anos do Girabola, aos campos que ficaram celebrizados, muito pela ousadia dos seus anfitriões, que dificilmente se deixavam vergar quando se achassem dentro dos seus domínios, por um lado, por outro pelas enchentes que proporcionavam. Destaque particular para os estádios dos Coqueiros e Cidadela. O primeiro, cito na baixa da cidade, porque gemia ao peso da assistência, apesar do suporte que recebia do edifício vizinho, que os relatores da época não se coibiram em chamar por "segundo anel ". A Cidadela pela sua localização estratégica, permitia atrair mais gente, não sendo sem razão que ganhou o cognome de Catedral do futebol angolano. O arregaça ficou celebrizado pela casmurrice do Desportivo de Benguela, que numa das edições do Girabola, ainda nos anos 80, quase terminou a prova imbatível no seu reduto. O máximo que se podia conseguir no Arregaça era um empate, de tal sorte que o recinto ganhou um complemento nominal, passando a chamar-se  "Arregaça onde ninguém passa". Os renhidos embates Mambrôa-1º de Agosto ou 1º de Agosto-Mambrôa, fizeram dos Kurikutelas um estádio de renome internacional. Neste recinto, hoje quase caído ao desuso, estes dois emblemas, à época quase de nível equiparado, travaram renhidas refregas. Infelizmente, para o Mambrôa, no Huambo a turma militar tinha mais adeptos, maioritariamente militares que naquela província cumpriam a sua missão militar. O quarto estádio, cuja fama colidia com as suas condições infra-estruturais é o Inferno do Dondo. Em tão pouco tempo que o Desportivo da Eka reinou no Girabola alcançou uma projecção que estádios mais antigos e em províncias de maior tradição futebolística não lograram. Também o Desportivo da Eka não era, no seu auge, nenhuma pêra doce. Quem anda de mãos dadas com o futebol e já com certa idade em finais dos anos 80, pode estar lembrado daquela equipa "tomba gigantes" à mão de Napoleão Brandão. Também tomara, o clube respirava boa saúde financeira nos bons tempos do velho Evaristo Pires.