Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Girabola

"No primeiro campeonato ramos poucos rbitros"

MATIAS ADRIANO - 09 de Dezembro, 2019

Fotografia: Jos Soares| edies novembro

Quando em 1979 se deu início à disputa do campeonato nacional de futebol da primeira divisão, as nossas estruturas desportivas não estavam ainda suficientemente organizadas. Estava-se no princípio de uma era. E como tal, não havia árbitros com experiência em número aceitável para dar resposta cabal a uma prova, que movimentava nada mais nada menos que 24 equipas.
Hoje, só mesmo os responsáveis pelo futebol naquela época saberão explicar como era possível movimentar o futebol pelo país inteiro, com um quadro bastante exíguo de árbitros. Mas, o que é facto é que o Campeonato rolou até à final sem atropelos e nem jogos adiados, por falta de homens do apito à época vestidos de negro.
Nesta edição especial, em que nos propomos escalpelizar a vigência da prova, dando maior realce aos contornos da primeira edição, 40 anos depois, o Jornal dos Desportos fez recurso ao conhecimento de Dionísio de Almeida, nome sonante da nossa arbitragem nos anos 80 do Século passado, tendo nos fornecido subsídios bastante válidos no percurso que procuramos fazer pelos caminhos e descaminhos do nosso campeonato.
Melhor que Dionísio de Almeida não haverá para fazer uma descrição exacta de como eram as coisas do ponto de vista da arbitragem. Hoje. comentador desportivo para a arbitragem da Rádio Cinco, Dionísio era dos poucos árbitros que já trazia alguma experiência da outra época, antes da independência. E quando se pensou na constituição do campeonato foi dos primeiros a ser “rusgado”.
Lembra-se, como hoje, a forma como começou o Girabola e das peripécias por onde ele e outros companheiros passaram para responder às obrigações da prova. “Éramos muito poucos. Cálculo que devíamos ser 15 ou 20 árbitros, nada mais do que isso, para um campeonato que movimentava 24 equipas divididas em quatro grupos.”
Apesar de tudo, conta o nosso entrevistado, “correu tudo bem, sem contratempos, embora tivessem havido ocasiões em que um mesmo árbitro foi obrigado a dirigir dois jogos na mesma jornada. Mas estes eram casos excepcionais, que só ocorriam quando, por exemplo, se desse a falta do árbitro indicado por o jogo programado.”
Dionísio de Almeida era dos árbitros mais consagrados, tendo pouco depois obtido a categoria de árbitro internacional. Hoje, volvidos 40 anos, lembra-se, com alguma nostalgia, dessa época de grande fervor revolucionário.
“Eu sou da primeira leva de árbitros angolanos de escalão internacional. Entre 1979 e 80 éramos apenas cinco. Os outros eram Pereira Lopes, Manuel Pimentel, Mário da Ressurreição e o tempo já não ajuda a lembrar do quinto, mas sei que éramos cinco.”
Com uma experiência trazida da época colonial, o homem com quem falámos e de quem falámos, é dos homens que teve o mérito de soprar o apito nas celebérrimas jornadas de amizade Angola e Cuba, tendo igualmente viajado para a Ilha Caribenha com o mesmo propósito. Também apitou no “Torneio Ano da Agricultura” em 1978.
Hoje gaba-se de ter sido o homem escolhido, para apitar a final do primeiro Girabola, no dia oito de Março de 1980, entre 1º de Agosto e Nacional de Benguela.
“Jogos daquela envergadura não eram confiados a qualquer arbitro, tinha de ser alguém com uma experiência vasta e que infundisse alguma confiança às equipas intervenientes.\" Disse a finalizar

DIABOS VERDES-1º DE AGOSTO

O jogo
foi decidido
no Ministério da Justiça

Dionísio de Almeida dirigiu vários jogos nacionais e internacionais, mas conta que o maior da sua carreira foi um célebre Diabos Verdes-1º de Agosto. “O jogo não terminou por insubordinação da equipa \"verde-e-branca\" e em função da situação criada não havia condições para prosseguir. Foi uma situação bicuda, que só viria a encontrar solução com recurso ao Ministério da Justiça, ao tempo do ministro Diógenes de Oliveira.”
Entretanto, houve outros jogos que marcaram a sua carreira. Mas sente-se feliz, porque em momento algum foi linchado num campo de futebol. \"Sabemos que é próprio dos adeptos protestarem todas as acções dos árbitros com as quais não concordem . Mas terminamos a carreira sem lembranças de um dia termos visto a vida por um fio.\"
No seu entender, na arbitragem sempre existiram reclamações, mas não como nos dias de hoje. \"Hoje as reclamações são demais por uma razão muito simples: está enraizado o interesse\"