Jornal dos Desportos

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Girabola

O primeiro tcnico campeo

Augusto Fernandes - 08 de Dezembro, 2011

Antes de assumir a equipa tcnica do primeiro campeo angolano de futebol Nicola Beraldinelli jogou em alguns clubes

Fotografia: Jornal dos Desportos

Aos 35 anos de idade, Nicola Beraldinelli tornou-se no primeiro treinador a ganhar um campeonato nacional depois da Independência, com o 1º de Agosto. Natural de Porto Amboim (Kwanza-Sul) onde nasceu a 28 de Maio de 1944, até à altura da conquista do primeiro título nacional não tinha qualquer formação como técnico de futebol. Man Nico, como é carinhosamente chamado pelos seus amigos e colegas, disse que o “segredo para a conquista do primeiro título nacional foi a experiência que tinha acumulado como jogador e ter sido treinado por grandes treinadores, como Serra Coelho, e adjunto do já falecido Eduardo Santos”.

Nicola Beraldinelli, como jogador, começou por jogar como extremo-direito e depois foi adaptado a defesa direito, tendo jogado pelo Sporting de Luanda, Benfica de Luanda, Clube atlético de Luanda e outros. O antigo treinador militar disse que “além da experiência como jogador, também tive a sorte de ter no meu plantel jogadores de grande valia técnica, na época considerados como dos melhores que Angola teve depois da Independência, como Chimalanga, Zeca, Mendes, Luvambo, Lourenço, Sabino, Ndunguidi, Mateus César, Barros e outros. Portanto, tinha uma grande equipa e condições para vencer. Quanto ao Nacional de Benguela, foi um digno vencido.

Deu grande luta e valorizou aquela final. Jogadores como Leandro, Silva, Quim, Samuel, Pinto Leite e companhia faziam a diferença”, referiu.Como prémio pela conquista do campeonato, a direcção do 1º de Agosto ofereceu um curso de treinador ao técnico na Hungria.Além de ter sido treinador, Beraldinelli também foi jogador e capitão dos militares do rio seco.


D´Agosto-nacional


Mário Luvanbo
-
Campeaõ divido


Campeão nacional pelo 1º de Agosto, em 1979, na primeira edição, diz que “o primeiro campeonato nacional de futebol, hoje Girabola, foi muito forte e contava com 24 equipas agrupadas em quatro séries com seis equipas cada. Para mim, foi uma grande honra ter sido campeão nacional com a camisola do 1º de Agosto”, disse.Luvambo não jogou a final porque estava lesionado. “Mesmo da bancada, era como se lá estivesse, pois vivia intensamente o jogo, porque de um lado estava a minha antiga equipa, o Nacional de Benguela, e do outro, a minha nova paixão. É claro que torci para que a vitória fosse do 1º de Agosto, pois estava em jogo o primeiro campeonato nacional depois da independência”, referiu.

Segundo Mário Luvambo “ as duas equipas chegaram à final porque eram das melhores que existiam naquele tempo, ao lado do grupo Desportivo da TAAG (hoje ASA), Leões de Luanda, Desportivo da Chela, (Benfica da Lubango), Construtores e Futebol Clube do Uíge.”Luvambo diz que, “apesar do primeiro modelo de disputa do campeonato nacional abranger todas as províncias do país, sendo por issomais nacional, o actual modelo de disputa é melhor, porque só as melhores e mais fortes equipas é que devem disputar o Girabola.Equipas fracas do ponto de vista financeiro não devem disputar o Campeonato Nacional, para evitar ficarem a meio do caminho.Em 1979 Luvambo tinha 25 anos de idade. É co-fundador do 1º de Agosto, na companhia de Nicola Beraldineli, Napoleão, Zeca, Mendes, Lourenço, Chimalanga e outros.

Lourenço Chilombo
Um capitão
“rassudo”


Foi ele que recebeu das mãos do Presidente da Republica, José Eduardo dos Santos, a primeira taça de campeão nacional do 1º de Agosto, na grande final disputada contra o Nacional de Benguela.Com 25 anos de idade, Lourenço fazia parelha com Ndongala (já falecido) no centro da defesa. Era um defesa “rassudo”, que impunha respeito na sua área de jurisdição. Também conhecido por Nheñgo (nervo) pelos seus colegas, Lourenço recorda que naquele tempo o 1º de Agosto entrava para ganhar em todos os jogos. “Éramos uma equipa demolidora, mais ou menos como é o Barcelona. Todos os adversários que tivessem de nos enfrentar entravam a tremer, porque a nossa equipa era muito forte, constituída pelos melhores jogadores. Aliás, jogar no 1º de Agosto era sinónimo de craqueza. Só os melhores jogavam no d’Agosto”, disse.

Entretanto, apesar de ser a melhor equipa da época, Lourenço reconhece que” a TAAG, com Rola, Geovete e outros, o próprio Nacional de Benguela, com Silva, Leandro e companhia limitada, os Leões de Luanda, com João Machado no comando, o Desportivo da Chela, com Basílio e colegas, o Construtor do Uíge, onde figuravam Vicy e outros, bem como o Futebol Clube do Uíge, com Arménio, eram as equipas que mais luta davam ao clube militar. Por isso, a conquista do primeiro campeonato nacional pelo seu 1º de Agosto foi motivo de muito orgulho. Lourenço diz também que “quando o Nacional de Benguela marcou o golo de empate foi como se tivessem “cutucado” a onça com vara curta. “Nós metemos o pé no acelerador até aparecer o golo da vitória”, adiantou.Lourenço foi três vezes campeão pelo 1º de Agosto.

João Manuel (Manico)

Defesa de
muitas virtudes


Manico foi um jogador batalhador, incansável e nunca virava a cara à luta. Jogava como lateral direito, num período em que os avançados canhotos davam muito trabalho.Não era fácil marcar jogadores esquerdinos, porque eram muito talentosos por natureza e por isso é fácil imaginar a luta que Manico teve de travar no lado direito da defesa do 1º de Agosto.O antigo jogador diz que, “antes do jogo da final, não estávamos preocupados com o adversário.

Sabíamos que íamos ganhar o campeonato, pois o nosso ponto forte era todos nós termos uma atitude ou mentalidade vencedora.Sempre que entrávamos em campo, não importa em que competição fosse, era para ganhar, porque tínhamos uma equipa que impunha respeito e esse carisma tornou-se uma marca do 1º de Agosto. Se hoje o clube tem a grandeza que tem, foi graças à mentalidade ganhadora que nós tivemos ao longo dos três campeonatos seguidos que ganhámos”, frisou.

“Quando a maioria de nós enveredou pela saída do clube, depois de 1981, o 1º de Agosto começou a ter maus momentos, mas o carisma já tinha ficado e o d’Agosto continuou a ser um gigante do futebol angolano e uma equipa a abater por todos os que com ela jogam”.No jogo da final contra o Nacional de Benguela, Manico reconhece que “os nacionalistas deram uma grande réplica, o que já era de esperar. “Mas a superioridade do 1º de Agosto, de uma ou de outra forma, tinha de vingar e foi o que aconteceu. Ganhámos bem o campeonato”, salientou o antigo lateral militar.

Quanto aos moldes de disputa do campeonato nacional, Manico é de opinião que o primeiro modelo, em que a prova foi disputada por séries, é melhor do que o actual, em que só as equipas mais fortes economicamente resistem. “Além do mais, hoje há mais facilidades de viagem por via terrestre do que antes. Acho que quanto mais nacional for o Girabola melhor é para nós, pois temos mais por onde escolher e formar uma selecção nacional mais forte”, finalizou. AF

Samuel  O ‘dono do cabrito’
Nacional foi um digno vencido


Equipa benguelense bateu-se com galhardia e só muito dificilmente foi superada no célebre jogo que ditou o primeiro campeão nacional da história do Girabola,Com 32 anos de idade em 1979, o extremo-direito do Nacional de Benguela disputou a sua primeira e única final e sagrou-se vice-campeão nacional.Samuel diz que “antes da partida havia muita expectativa em torno do jogo pois tratava-se das duas melhores equipas do momento, com uma dose de favoritismo para o 1º de Agosto, pois era uma espécie de selecção nacional, composto por jogadores em idade militar que eram dos melhores a nível nacional”.

O antigo dianteiro do Nacional, também conhecido pela sua rapidez e fintas estonteantes e dono do famoso “cabrito”, também chamado “Apolo”, que consistia em prender a bola entre os pés e fazê-la passar sobre a cabeça do adversário, recorda que nos primeiros 15 minutos o 1º de Agosto já dominava a partida e vencia por uma bola a zero. “Nós estávamos completamente cansados.Mas, felizmente, conseguimos recuperar o fôlego depois de uma paragem do jogo por causa da chegada do Presidente José Eduardo dos Santos ao Estádio da Cidadela.

Daí em diante conseguimos equilibrar o jogo e no segundo tempo empatámos a partida a um golo. Mas a supremacia do 1º de Agosto veio ao de cima e quase no fim do jogo marcou o segundo golo que, quanto a mim, foi precedido de falta de Sanção sobre o nosso guarda-redes. Mas, de qualquer forma, o 1º de Agosto ganhou bem, pois, além de jogar em casa, era mais forte que nós. Creio que nunca mais havemos de ver um 1º de Agosto tão forte como aquele dos anos 80, com Ndunguidi, Julião, Zeca, Mateus César e outros grandes jogadores”, afirmou Samuel.


lateral esquerdo
Moyo
“Tremíamos só de
ouvir o nome deles”


O lateral esquerdo do Nacional de Benguela recorda-se daquela grande final diante do grande 1º de Agosto.Moyo afirma: “Quando começaram a anunciar o 11 inicial do 1º de Agosto, nós, os mais novos, tremíamos só de ouvir os nomes deles. Alguns até fingiram lesão de última hora para não enfrentarem jogadores da tarimba de Ndunguidi, que me deu muito trabalho. Aliás, nunca avançado algum me deu tanto trabalho como o Ndunguidi.

Na sua posição era o melhor do país. Além de Ndunguidi, ainda havia o Julião, Mateus César, o Chimalanga e outros grandes jogadores. Era difícil parar aquela máquina. Em 15 minutos, o 1º de Agosto dominava o jogo por completo, parecia que os homens tinham pulmões de aço. Com a chegada do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, parámos o jogo para cantar o Hino Nacional e para outros protocolos. Foi a nossa salvação, pois assim conseguimos ganhar forças e foi possível fazer um grande jogo.”Moyo, que na altura tinha 23 anos, refere “que existe uma diferença grande entre os moldes de disputa do Girabola, actuais em relação à primeira prova.