Jornal dos Desportos

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Girabola

"Podíamos ter ganho ao título"

Paulo Caculo - 09 de Novembro, 2016

Treinador do Petro manifesta satisfação pela conquistado segundo lugar

Fotografia: Kindala Manuel

O Petro de Luanda encerrou de forma invicta a segunda volta do Girabola Zap, ao vencer no sábado, no Estádio 11 de Novembro,  o rival 1º de Agosto, jogo a contar para  a última jornada do Campeonato Nacional, e carimbou uma série de 16 jogos consecutivos sem derrota.

O técnico Beto Bianchi assegurou em entrevista ao Jornal dos Desportos, que o balanço é " positivo", sobretudo, pelo facto de no começo do campeonato "ninguém ter apostado no Petro" como potencial candidato ao título. O hispano -brasileiro confessou, igualmente, que apesar da direcção e equipa técnica traçar como objectivo a conquista do terceiro lugar, no final fica o "sabor amargo" de que o Petro podia ser campeão.

"Acho que os números do nosso rendimento falam por si. Não se trata de nenhuma invenção. O Petro é uma equipa que no princípio do campeonato ninguém apostava, mas aos poucos crescemos na competição, com trabalho e dedicação dos jogadores, e mais importante ainda, fomos invictos e tivemos oito jogos seguidos com vitórias, facto que não é fácil numa competição como o Girabola, com muitas dificuldades. Penso que desta forma o balanço só pode ser positivo", apressou-se a afirmar o treinador que chegou ao clube petrolífero em Novembro do ano passado, em substituição do seu compatriota Alexandre Grasseli.

"Logicamente, que fica uma amargo na boca, pela grande sensação de que podíamos ter chegado ao título. Hoje, com os pés bem assentes no chão e  depois de analisar bem a idade e o historial dos jogadores do Petro, em que alguns nem tinham jogado antes no Girabola, e o enorme esforço financeiro que o Petro fez diferente de outros tempos, acho que a prestação é muito positiva", acrescentou.

O treinador de 49 anos esclareceu ainda, que um dos aspectos que contribuiu para afastar a sua equipa da conquista do título, foi o facto de ao contrário do Petro de Luanda, houve equipas que "gastaram muito mais", mas que nem por isso, foram capazes de estar acima da tabela de classificação. Bianchi sublinhou que estes aspectos devem ser levados em consideração nas análises a serem feitas pelos críticos do futebol, em relação à avaliação da prestação das equipas.

"Tudo isso, deve ser analisado, porque é muito difícil conseguir-se bons resultados sem grandes investimentos. Houve jogadores que tiveram a primeira experiência no Girabola, e muitos deles, em fase de aprendizado no plantel", disse.

Questionado se o Petro seria campeão em circunstâncias diferentes, caso gozasse de melhores condições financeiras, Beto Bianchi foi peremptório na resposta. O treinador referiu ser relativo antever um desfecho do campeão, apenas a olhar para o nível de investimento do plantel.

"No futebol é difícil prever o que vai acontecer, porque não é uma ciência lógica. Futebol não é matemática, mas de uma coisa estamos certos: as possibilidades de uma equipa como o Real Madrid e o Barcelona serem campeões são enormes, porque têm jogadores de grande qualidade, nem sempre estes dois clubes podem ser campeões. Há sempre uma equipa que investe muito mais no seu plantel, mas nem isso serve de garantias de que pode ser campeão, embora, as possibilidades sejam maiores", fez questão de sugerir a analogia, para em seguida sustentar.

"No caso do Petro, logicamente, que se a gente buscasse mais equilíbrio no plantel em termos de qualidade, as possibilidades de sermos campeões eram maiores. Mas estou satisfeito com todos os jogadores, porque estivemos durante todo o campeonato a discutir o título com o 1º de Agosto, que é uma equipa que investiu muito mais em jogadores valiosos, mas nem por isso ficámos muito distantes deles", referiu.

Beto Bianchi assegurou ainda, que mesmo em relação aos demais candidatos ao título, nomeadamente, Recreativo do Libolo, Benfica de Luanda e Kabuscorp do Palanca, o Petro partiu em desvantagem, em termos da capacidade de investimento feito nos referidos plantéis.

BALANÇO
Técnico considera época extraordinária


Beto Bianchi mostra-se surpreendido, com o rendimento do Petro de Luanda, durante as 30 jornadas do Campeonato Nacional. O técnico dos tricolores sublinhou que ao contrário da primeira volta, em que o rendimento da equipa não foi excelente, na segunda, o registo de jogos foi impressionante e o rendimento excepcional.

"Surpreende-me, um pouco, quando se comenta que a primeira volta do Petro não foi boa. A verdade é que fizemos 27 pontos, e apesar de não ser excelente, foi boa e a segunda volta foi impressionante e os meus jogadores foram excepcionais", regozijou-se o técnico de nacionalidade espanhola, nascido no Brasil, para em seguida acrescentar.

"Não perdemos nenhum jogo e tivemos oito vitórias consecutivas. O único problema é que na primeira volta, o nível de jogo não foi o mesmo que tivemos na segunda etapa do campeonato, faltavam os golos.  Quando chegou o Tiago Azulão, as coisas mudaram, surgiram os golos, mas o estilo de jogo e a metodologia de trabalho continuou a ser a mesma. A única coisa que mudou foi a eficácia ofensiva do ataque, e os golos no futebol, dizem tudo", asseverou.

No capítulo defensivo, Bianchi mostra-se feliz com o facto de a equipa ter sofrido 14 golos, facto que na sua óptica, espelha muito bem a "solidez defensiva" que sempre notabilizou a equipa do Petro durante todo o campeonato.

"Só na segunda volta do campeonato fizemos 37 pontos, e estes números ajudam a provar que jogámos com a mesma qualidade, mas a ineficácia ofensiva é que dificultou um pouco no princípio".

CONSTATAÇÃO
"Fui julgado pela aparência"


A chegada de Beto Bianchi ao comando técnico do Petro de Luanda gerou alguma celeuma, no principio, com os adeptos a questionarem a competência do treinador. Tais alaridos não passaram despercebido ao hispano-brasileiro que, em jeito de resposta, diz ter sido julgado pela aparência.

"Concordo que internacionalmente não tinha nome, porque era conhecido apenas pelos países onde trabalhei, mas acho que faltou um pouco de educação dos adeptos, ao julgarem uma pessoa sem conhecer. Não posso encontrar alguém na rua e julgar essa pessoa pela sua aparência ou como se veste. Acho que foi mais ou menos parecido com o que aconteceu comigo", esclareceu, sem magoa, Beto Bianchi.

"Houve realmente muita critica, mas fui capaz de mostrar o meu valor com o trabalho, porque não tem outra história. No futebol também é muito difícil agradar a todos e ter muitos amigos, mas acho que os números do meu trabalho estão aí aos olhos de toda gente. Acho que posso voltar para casa super-satisfeito e de cabeça erguida", assegurou o  técnico que teve passagens pelo futebol da Bélgica, Espanha, Indonésia e Brasil.

Beto Bianchi fez questão de realçar, por outro lado, o facto de ter sido muitas vezes mal interpretado pelas declarações feitas. O técnico considera que as suas palavras só constituíram problemas, porque as pessoas não gostam de ouvir verdades.

"Sou uma pessoa muito sincera e às vezes a sinceridade no futebol é mau, porque a gente fala verdade que às vezes dói a algumas pessoas. Quero dizer que ao longo do campeonato vi coisas que não gostei e dei a minha opinião, mas nunca tive a intenção de faltar respeito a ninguém, porque foi uma opinião profissional", esclareceu.

O técnico destacou igualmente a forma como foi recebido em Angola e, particularmente, pela direcção do Petro de Luanda, a quem agradece a oportunidade proporcionada para conhecer uma realidade diferente daquela que estava habituado.


GIRABOLA ZAP
"Campeonato é desgastante"


O técnico do Petro de Luanda está ansioso em voltar  a casa (Espanha) para gozar as férias com a família, mas não esconde a satisfação por ter conseguido obter um "desfecho positivo", após um campeonato que considera ter sido de enorme desgaste físico e mental.

"O campeonato foi muito desgastante, porque é muito difícil você ganhar todos os jogos e trabalhar sempre num clima de muita pressão", confessou o treinador, admitindo ter vivido uma "experiência louca", em que teve sempre de trabalhar a equipa para conseguir alcançar a excelência.

"A satisfação de termos conseguido, na segunda volta, este nível louco de futebol e resultados deixa-nos muito satisfeitos. Agora, o meu objectivo é regressar para casa e ficar ao lado da minha família, porque não estou ainda a pensar na próxima época. Quero descansar e estar com a família", desejou o treinador.

Ainda no capitulo da análise do campeonato, Beto Bianchi garantiu ter gostado do nível de competitividade e da qualidade das equipas e dos jogadores, mas deixou expresso também, no seu discurso, ser necessário melhorar a competição em alguns aspectos.

"Sempre existe uma possibilidade de as pessoas melhorarem o campeonato, desde que metalizem a importância de mudarmos alguma coisa e termos a humildade de reconhecermos e aceitarmos algumas criticas construtivas. Mas penso que foi uma experiência enorme para mim, porque é um campeonato futebol africano que não conhecia. Tenho a certeza de que aprendi bastante e ensinei também muito. O objectivo é fazer melhor na próxima época, mas agora é o momento para reflectir sobre o nosso trabalho", referiu.
 PC