Jornal dos Desportos

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Girabola

Stima queda

Jlio Gaiano, em Benguela - 20 de Agosto, 2018

O 1 de Maio precisa de uma liderana altura das encomendas

Fotografia: Santos Pedro | Edies Novembro

A despromoção da formação do Estrela Clube 1º de Maio de Benguela do Girabola Zap, a sétima desde a sua estreia em 1981, tem sido motivo de discussão no seio da sociedade desportiva benguelense e não só. Os dirigentes, atletas, treinadores e a sociedade civil apresentam versões diferenciados, ou seja, ninguém quer assumir a culpa por mais um “descalabro”.
O facto coloca grande parte dos associados em situação de dúvida gritante, quanto ao futuro da equipa mais titulada das terras das acácias rubras. Aventa-se ainda a hipótese, que a estagnação na liderança do grémio proletário, esteve na base de mais este fracasso.
Existe uma onda de insatisfação entre os benguelenses e apontam o fraco apoio, associado ao incumprimento das promessas de algumas pessoas colectivas e singulares, à luz dos contratos firmados com a direcção liderada por Wilson Fernando Faria, que chegou ao ponto de sacrificar parte das suas poupanças, para manter a equipa no Girabola Zap2018.
Para a tristeza dos demais ligados ao grémio proletário, a direcção está sem recursos para saldar as dívidas (quatro meses de salários e tantos prémios de jogos), que contraiu com os atletas e técnicos. Fala-se, à boca pequena, que além dos atrasados deste ano, existem calotes da época passada. 
Em função da manifesta incapacidade de se ultrapassar o imbróglio que existe, um grupo da sociedade benguelense, liderada por pessoas ligadas a antiga direcção, do \"lendário\" Rui Eduardo Araújo, enceta um amplo movimento junto das instâncias do governo e do empresariado local, no sentido de minimizar/aliviar a crise financeira de que aflige o clube.
O antigo guarda-redes da formação do Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, Samuel Kiala, considerou que o problema reinante na formação da Rua Domingos do Ò, passa pelo regresso do carismático dirigente na liderança proletária, não obstante reconhecer o esforço empreendido pela actual direcção, em manter o clube funcional.
“O problema é sério. O 1º de Maio precisa de uma liderança à altura das encomendas. O tio Rui Araújo pode ter os seus defeitos, porém, jamais deixaria a equipa a deus dará, sem glória e nem honra. Perdemos a nossa identidade e, pior do que isto, não foi digno na competição. Não sei ao certo o que terá acontecido, mas a direcção não deve estar isenta de culpa pelo sucedido”, lamentou.
O antigo internacional nacional, acredita que se o governo da província, por intermédio do Gabinete da Juventude e Desportos e a classe empresarial, velassem pela situação do clube, as coisas teriam seguido um rumo diferente e, dificilmente, a equipa baixaria de divisão.
“A direcção queixou-se da falta de apoios, mas este é um problema que vem de longe. Penso que faltou um pouco mais de sagacidade e audácia da parte dos dirigentes, na busca de alternativas. Agora estamos tristes e com  a certeza de que o 1º de Maio já não vai competir na primeira divisão, porque faltaram os apoios necessários, para suportar a crise financeira durante a campanha futebolística”, comentou.
Uma fonte ligada à direcção do Estrela 1º de Maio de Benguela, garantiu ao JD que esforços estão a ser envidados no sentido de, nos próximos dias, isto é, até antes do fim mês em curso, liquidar-se parte dos atrasados para com os atletas e equipa técnica.
De acordo com o dirigente, que, por razões de disciplina interna, pediu para não ser identificado, admitiu que a crise financeira é uma certeza e que “não será tão cedo que o clube vai livrar-se dela. A direcção fez o possível para juntar dinheiro e manter a equipa na competição, mas não conseguiu lograr os seus objectivos”, precisou.
Considerou que o fracasso deveu-se à gritante falta de apoios prometidos por determinadas pessoas na província. “As pessoas só criticam, porém, não sabem bem ao certo, por que dificuldades vivemos. É triste aceitar, que a equipa vai baixar de divisão. Em parte valeu a pena, pois vai servir para repensar-se num projecto que melhor se adapta à realidade do clube (…)”, confessou o dirigente.


REACÇÃO DO CAPITÃO
Márcio Luvambo assume “mea-culpa”


Márcio Luvambo, capitão da formação proletária, considerou lamentável a forma como a equipa se apresentou ao longo da temporada, tendo por isso, desculpabilizado o trabalho realizado pela direcção, bem como da equipa técnica.
Na sua óptica, a responsabilidade deve ser repartida por todos, isto é, jogadores, treinadores e dirigentes. “Tivemos uma equipa muito jovem, alguns deles sem experiência do Girabola Zap. Fraquejamos nos momentos cruciais da contenda”, avaliou, desiludido com o fracasso do 1º de Maio.
“Repare que em alguns jogos, a equipa deixava-se empatar ou perdia nos minutos derradeiros. Não acho justo responsabilizar os membros da direcção ou da equipa técnica, até porque eles não estiveram em campo para defender ou marcar golos”, acentuou.
Disse mais adiante que, a par dos problemas financeiros e outros que preferiu não mencionar, “faltou maturidade e responsabilidade da parte da equipa nos momentos decisivos dos jogos. É claro que a direcção poderia fazer um pouco mais. Tal não aconteceu e o resultado está à vista de todos”, precisou. 
Sobre os quatro meses de salários atrasados, Márcio Luvambo disse que receberam garantias de que vão pagar, porém, não estipulou os valores a amortizar. No entanto, afastou a hipótese da equipa não se apresentar, para o embate da despedida diante do Sporting de Cabinda, como se ventilou nos bastidores benguelenses, caso a direcção não honre com a sua palavra.
“Não é verdade. O 1º de Maio de Benguela já passou por situações piores e não desistimos. Não vai ser agora que vamos fazê-lo. Sabemos das nossas responsabilidades e das consequências que podem advir, caso embarquemos nesta prática”, realçou.
“Admito que muita coisa deve ser melhorada na estrutura e na gestão do clube. A direcção deve estar mais presente e a par dos problemas por que passam os jogadores, os treinadores e demais funcionários do clube”, precisou.
Visivelmente marcado pela situação decorrente no clube, o capitão foi categórico ao afirmar, que o dinheiro em si pode servir para resolver e acudir as necessidades prementes das pessoas, mas quando mal usado não ajuda na melhoria da componente desportiva, tão-pouco na fortificação da moral competitiva dos jogadores.
“Este é o problema que se vive na maioria dos nossos clubes. Quando o dinheiro escasseia, as pessoas desaparecem e os jogadores ficam sem saber com quem contar. Por exemplo, este ano as coisas correram mal no 1º de Maio, não é só porque faltaram os salários, mas sim o calor solidário, o carinho e a sensibilidade dos dirigentes”, salientou.
“Imagine, tivemos um plantel formado, na sua maioria, por jovens e com muito pouca experiência no Girabola e, diante da situação que se viveu, sem contar com ninguém a sua volta, foi um martírio. Daí o descalabro”, referenciou.