Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Futebol

Angola campe

Jlio Gaino, em Benguela - 12 de Outubro, 2019

Angolanos terminaram o campeonato africano invictos

Fotografia: Kauvi Muleka | Edies Novembro | Benguela

A Selecção Nacional sagrou-se, ontem, campeão africano, após vitória sobre a Nigéria por 2-0, destronando no trono a selecção da Libéria, vencedor das últimas três edições. Com este triunfo, Angola conquistou o inédito título que faltava na sua galeria.
Em menos de um ano, Augusto Chieto e pupilos voltaram a dar alegria ao país. Se a conquista do Mundial orgulhava a Nação, o Africano veio confirmar a hegemonia na referida modalidade. Venceram com dignidade e com todo mérito.
Fazendo jus ao seu estatuto e na condição de anfitrião, os angolanos confirmaram o seu favoritismo com classe, categoria, show e com goleadas. Com um percurso impressionante, nenhuma derrota e apenas um empate, o troféu está bem entregue a melhor selecção da competição.
A selecção entrou de rompante, assustando o adversário que diante da estratégia contrária remeteu-se à defesa, de onde saía para o ataque descontinuado. A forma como se apresentaram os angolanos souberam tirar proveito da técnica e mobilidade de que lhe é característico, anulando os pontos fortes da formação nigeriana que passava por Chibuike Kennedy e Kingslay Kevin.
A vitória de Angola começou a ser construída a partir do minuto 3, por intermédio de Sabino António, num lance de bola parada. O remate foi forte e a bola parou apenas no fundo da baliza Otutu Agu. O golo galvanizou os comandados de Augusto Chieto que com habilidade, desmontaram o plano montada pelo técnico Victor Nwenwe.
Em desvantagem os nigerianos foram forçados a arriscar em busca da igualdade, o que não aconteceu dando azo para o segundo golo dos angolanos, de novo pelo mesmo atleta, que bisou na partida aos 11’, gelando pelo completo o adversário.
Com o jogo controlado Angola limitou-se a gerir o resultado, sem no entanto, descurar a intenção de ampliar o marcador e só não aconteceu por pouco, pois as oportunidades não faltaram, mas a ansiedade falava mais alto.
No final da partida, Augusto Chieto emocionado e bastante feliz dedicou a vitória aos angolanos, a sua família e ao Comité Paralítico, sem contudo, esquecer do Senhor do Universo.
“Esta vitória é o resultado de sacrifício e luta dos angolanos que, sem medir a meios conquistaram a África, depois de terem feito o ano passado no Campeonato do Mundo. Valeu pelo esforço e agora vamos festejar até não poder mais. Os angolano merecem”, salientou.
O seleccionador nigeriano Victor Nwenwe reconheceu o potencial do adversário e admitiu que seria difícil jogar de igual para igual com os campeões do mundo.
“Seria arriscado jogar de peito aberto contra Angola, por isso, preferimos a contenção tal como aconteceu no jogo passado. Desta vez não foi possível, os angolanos estiveram melhor, só não marcaram mais, porque soubemos nos defender bem”, afirmou.
O defesa angolano, Celestino Elias, foi distinguido como melhor jogador do V Campeonato Africano de Futebol para Amputados, edição 2019, feito conseguido no Campeonato do Mundo, disputado no México, em 2018.
A organização premiou, de igual modo, como melhor guarda-redes, Augusto Lilito (Angola) e Augusto Baptista Chieto, como o treinador da compita.
O tanzaniano Alfani Kiyanga, com seis golos, foi o goleador, ao passo que  selecção dos Camarões foi distinguida como equipa fair play, pela organização do V Campeonato Africano das Nações de futebol para Amputados.

UNANIMIDADE
Jornalistas enaltecem organização

A organização do V Campeonato Africano das Nações de Futebol para Amputado, disputado de 4 a 11 do corrente nesta cidade, foi das melhores em termos de comodidade e condições de trabalho para comunicação social.
A forma pronta como viram atendidas as preocupações apresentadas, no local, por parte da comissão, mereceu da parte dos fazedores de opinião rasgados elogios, sobretudo a coordenação técnica que em tempo oportuno marcou presença com os comunicados, facilitando os trabalhos dos jornalistas, que tudo fizeram para manterem informados o público.
Jairo Miranda, jornalista afecta à Agência Press Angola (Angop), em representação do colectivo nacional atribuiu nota positiva, a \'roçar\' a excelência. No seu entender, o campeonato trouxe visibilidade à província, em particular, e ao país de um modo geral, que, de certeza, pode vir a tirar ganhos importantes para o desporto adaptado.
“Saio mais enriquecido pela experiência adquirida diante de pessoas abalizadas em actividades do género. Vai ficar marcado na minha vida, que tive a oportunidade de cobrir uma competição continental. Espero que tenha a sorte de cobrir mais realizações desafiantes, como foi o caso do Campeonato Africano para Amputados. Portanto, foram oito dias de convivência, trabalho e experiência”, comentou.
No mesmo diapasão alinhou o jornalista liberiano da Rádio Okay FM, Sylvester Tamba. “O 'africano' organizado em Angola foi um êxito, aliás, nunca tinha sido posta em causa e a prova está a vista de todos. Estamos todos satisfeito pela forma como foram preparadas as coisas. Do ponto de vista administrativo, às selecções foram-lhes colocadas à disposição meios de transportes, alojamento e alimentação condigna, para além de campo para treinarem”, sublinhou.
Por último, o jornalista tanzaniano da TB Corporation News, Asher Thomas, deu nota positiva a organização e considerou normal as queixas levantadas pelos dirigentes e técnicos das diferentes selecções presentes no “Africano” de Benguela.

FALTAS DE COMPARÊNCIA
Serra Leoa arrisca sanção

A selecção nacional da Serra Leoa terminou na 6ª (e última) posição, fruto da derrota averbada de forma administrativa pela comissão técnica, em função da não comparência no local da partida à hora marcada (10h00’), para o jogo com a similar dos Camarões, averbando a segunda falta de comparência.
De acordo as informações colhidas junto da delegação serra leonense, a organização terá se precipitado ao atribuir vitória à Tanzânia, quando tudo apontava pela remarcação do jogo, justamente no dia reservado para a observação da pausa.
“Viram-se pressionados pela Tanzânia, que ameaçava não mais jogar caso não lhe fosse atribuída à vitória. Sentidos pela injustiça, julgámos irrelevantes jogar, enquanto a posição se mantivesse”, comentou um dos integrantes da comitiva.
Em comunicado distribuído aos órgãos de comunicação social, a Comissão Técnica do Campeonato Africano de Futebol para Amputados, considerou improcedente o recurso interposto pela selecção da Serra Leoa, pelo facto de ter sido apresentado fora dos prazos estipulados pelos regulamentos da prova, mantendo desta feita a derrota aplicada.
Em conversa com o Jornal dos Desportos, o secretário geral do Comité Paralímpico de Angola, António da Luz, considerou grave a atitude tomada pelos dirigentes da referida delegação, que, apesar de tudo, podiam muito bem jogar sob o protesto e, nunca faltar ao jogo, o que pode valer-lhe uma suspensão de duas temporadas.
A acontecer, a Serra Leoa, duas vezes medalha de bronze (Ghana2011 e Quénia2013), pode constituir-se baixa no “Africano” a realizar-se em 2021, nos Camarões.

ASSISTÊNCIA
Público prestigia competição

O Campeonato Africano de futebol para Amputados, em seis dias, registou um recorde de assistência, com o Estádio São Filipe, a registar presença de público incomum no histórico do desporto adaptado no país.
Em 25 anos de existência do Comité Paralímpico Angolano, nem mesmo quando a província de Luanda albergou o CAN'2013 em basquetebol em cadeira de rodas, o Pavilhão da Cidadela Desportiva teve tal registo.
De modo particular, nos jogos da selecção nacional (realizaram-se sempre às 16h00), o público lotou o recinto que tem sete mil lugares e entradas livres.
Apesar não se vestirem à selecção, usaram vuvuzelas, apitos, batuques e outros objectos sonoros, tornaram o evento numa verdadeira festa, com manifestações que transcenderam o âmbito meramente desportivo.
O CAN2019 foi também entendido como uma lição de vida, de superação e também de afirmação, numa sociedade que ainda carrega tabus quanto à capacidade do portador de deficiência realizar tarefas úteis.
Pais, mães, filhos, enfim, famílias inteiras fizeram-se religiosamente presentes no São Filipe para testemunharem, não só os resultados dos jogos, mas, sobretudo, verem homens de honra a transformarem dificuldades em talento.
Ver futebolistas amputados a jogar com tamanha destreza, correr a uma velocidade igual a de qualquer jogador tem sido um privilégio, porque no final das contas “o desporto adaptado nunca foi apenas uma questão de resultados desportivos; sempre foi uma questão de superação e lição de vida”.