Jornal dos Desportos

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Futebol

Calado critica lacunas

Paulo Caculo - 20 de Junho, 2019

Mrio Calado acredita ter sido bom que o jogo falhou

Fotografia: Miqueias Machangongo |Edies Novembro

A Selecção Nacional encerrou o seu ciclo de preparação, visando o “assalto” ao Campeonato Africano das Nações (CAN) do Egipto, tendo como registo do estágio que efectuou em Portugal, apenas um jogo-treino diante da Guiné Bissau, após fracassar a possibilidade de defrontar a África do Sul, no palco da competição.
De acordo com o técnico Mário Calado, o nível de qualidade do ciclo de trabalhos realizado pelos Palancas Negras, antes da chegada ao Egipto, obriga os prosélitos do futebol, em Angola, a estarem receosos, em relação ao desempenho da selecção na maior competição continental a nível de selecções.
“Partindo do princípio que se trata de uma competição, cujo grau de exigência é enorme, obrigatoriamente a preparação tem de ser diferenciada. Não pode haver lacunas, como temos estado a observar”, adiantou-se a avaliar o conceituado treinador.
Uma das grandes debilidades da preparação da Selecção Nacional, segundo o ex-seleccionador nacional, prende-se com o facto de o conjunto ter efectuado apenas um desafio de preparação, durante o ciclo de estágio, facto que considera ser demasiado pouco, para o nível de competição que representa o CAN.
“A não realização de um conjunto de jogos, que possa permitir uma melhor harmonia e entrosamento de todas as vertentes, consequentemente condiciona no desempenho da Selecção Nacional”, acrescentou.
Ainda assim, o técnico angolano garante que a fracassada tentativa de realização de um jogo-treino com os “Bafana Bafana”, no Cairo, não pode ser vista como um mal maior. Muito pelo contrário. Mário Calado acredita ter sido bom que o jogo falhou, porque não aconselha a disputa de um teste, diante de um adversário no nível da África do Sul, a escassos dias da estreia na prova. “É bem verdade que, se o seleccionador atempadamente sabia desta não realização e os treinos tivessem sido realizados com uma certa intensidade, estou em crer que será um mal menor. O importante é que o seleccionador tenha conhecimento antecipado desta situação e, por força disso, conseguiu alterar os conteúdos de treino, no sentido de dotar a equipa de argumentos, que lhe poderão ser úteis durante a competição”, sustentou o ex-técnico dos Palancas.
Calado considera ser sempre bom para a Selecção Nacional, fazer jogos de preparação, ao contrário de não fazê-los, mas acredita que fazer um jogo com uma Selecção do cariz da África do Sul, nessa altura, se podia correr o risco de um eventual resultado negativo criar um aspecto desfavorável nos jogadores.
“O preferível, nessa altura, seria fazer um jogo-treino contra um adversário de nível inferior, porque em causa está a qualidade da África do Sul”, disse.
O técnico revelou, ainda, ter constatado que, durante o período de preparação da Selecção Nacional, esteve envolvida num conjunto de aspectos negativos, com reclamações de prémios e ameaças de greve à mistura, que podem comprometer os objectivos. “Penso que os elementos da federação fizeram o possível, com intuito de proporcionar ao seleccionador um conjunto de condições para fazer um trabalho positivo, mas acontece que, do ponto de vista prático, não foi o que vimos. As dificuldades foram surgindo, umas atrás de outras e isso condiciona no nível de apresentação do grupo”.

CONSTATAÇÃO
“A COSAFA ajudaria melhor a Selecção”


A disputa da Taça COSAFA seria, na óptica do técnico Mário Calado, a melhor opção para os Palancas Negras prepararem a participação no Campeonato Africano das Nações (CAN) do Egipto. O treinador acredita que, ao prescindir da COSAFA, Angola deixou escapar uma oportunidade soberana, para permitir ao seleccionador trabalhar o entrosamento da selecção com os novos jogadores e ensaiar novas opções nos titulares.
“Na minha modéstia visão, a Taça COSAFA seria o meio especial, que deveria ser usado no sentido de podermos criar um conjunto de mecanismos competitivos, para aferir o entrosamento dos atletas novos e que o seleccionador não os conhece perfeitamente. Seria uma boa oportunidade, para o treinador conhecer todos os atletas novos em competição”, garantiu ele.
Mário Calado acrescentou, ainda, que ao disputar o torneio da COSAFA, o seleccionador submeteria os jogadores a três ou quatro bons jogos, onde poderia fazer as alterações que quisesse, ao invés de jogar apenas com os prováveis titulares.
“Acho que o Zimbabué, por exemplo, levou a sua equipa principal para esta competição, e vimos os jogos da COSAFA e os atletas titulares que jogam em grandes equipas sul-africanas e que estavam na Selecção principal do Zimbabué. A partir daí, quem ganharia com isso é o próprio seleccionador, porque teria um conjunto de jogos para poder avaliar a equipa. Em vez de dar dez minutos a um jogador, podia dar muito mais tempo e acredito que as conclusões poderiam ser diferenciadas”, admitiu o treinador, vencedor da Taça COSAFA com os Palancas, em 2001.
Questionado sobre as situações embaraçosas enfrentadas pela selecção, durante o estágio em Portugal, em que alguns jogadores chegaram a ameaçar abandonar o grupo, em virtude da ausência de esclarecimentos em relação aos prémios de qualificação ao CAN, Mário Calado foi peremptório na sua resposta.
“Não tem sido característica, fundamentalmente nossa, relativamente estes processos preparatórios. Tem sido comum normalmente, nos grandes eventos desportivos, muitos países da África francófono terem estes tipos de problemas. Angola nunca viveu uma situação similar. É preciso também registar estes elementos negativos, como meios de experiência, para que no futuro situações desta natureza sejam acauteladas”.
O treinador considerou de delicado os momentos conturbados vividos pela selecção, pois acredita que perante situações daquela natureza “cada ser humano reage à sua forma” e “como achar conveniente”.