Jornal dos Desportos

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Futebol

Chegou a alegria do povo

17 de Agosto, 2019

Enfim, como um dia escreveu Gustavo Costa, o Girabola \

Por entre expectativa da tribo do futebol, certamente, com os seus membros tocados pela fome da bola, na sequência do defeso verificado, eis aí o Girabola. Chegou o ópio do povo. Voltam os estádios a reganhar ânimo e vida aos fins-de-semana, e não só, no esperado reencontro com o público, ainda que no falatório de alguns, nos últimos tempos o futebol doméstico perdeu em qualidade, e, à despeito disto, se revele pouco atractivo. Seja como for, não devemos perder de vista, que o Girabola personifica a expressão máxima do futebol angolano, entendido, à primeira hora, como factor de Unidade Nacional. Pois, quando, em 1979, veio à luz, tinha esta incumbência, porque  o país, ainda esquartejado pelos horrores da guerra,  precisava de acções e políticas eficazes, que conduzissem ao seu reencontro, e partir para construção de uma nova identidade cultural. E, pelos vistos, conseguiu jogar este papel, porque com a magia do futebol foi possível irmanar um povo de diferentes matrizes linguísticas.
Saudemos, pois, o regresso à arena dos “artistas da bola”. Joguem bonito ou feio são os nossos, os que temos e que nos orgulham enquanto nação futebolística. Sabemos que o futebol virou, nos dias presentes, uma grande religião, que todos professam. Daí que muitos de nós se sintam mais atraídos pelo futebol de outras ligas. Mas isto não obriga a desdenhar o que é tipicamente nosso.
Desportivo da Huila e Bravos do Maquis trataram de dar o pontapé de saída da 42ª edição, que ganha um cunho especial, por ocorrer, precisamente, no ano em que a competição completa 40 anos de vigência, espalhando emoções pelas quadras, movimentando multidões pelo país e consagrando ídolos e ídolos, cada qual à sua dimensão exibicional.
Certamente que não caberia aqui a referência nominal daqueles que, em diferentes edições e gerações marcaram o nosso futebol com iniludível competência. É certo que, nos dias de hoje, quase se apagam no horizonte as estrelas. Mas seria um desatino dizer que o Girabola não produziu, em tempos de boa safra, astros que em nada ficavam a dever àqueles que hoje têm povoado o universo do futebol.
Mas cada época é uma época, sendo de todo normal que da mesma forma que em umas emergem nomes que fazem a diferença, noutras não surja ninguém. Pode ser que a edição que agora começa, venha ter a particularidade de lançar para a ribalta novas descobertas, que venham agregar outro interesse ao torneio e outro capital ao próprio futebol. Afinal Girabola não é mais senão uma montra de talentos.
Competitivamente falando, já sabemos que a prova começa sempre dividida em três pólos. Daqueles que, à partida, são assumidamente candidatos ao título, daqueles que entram para melhorar a classificação anterior e daqueles outros que, animados com a mera presença neste escalão, lutam apenas para a obtenção de classificações que permitam a sua permanência. O quadro pouco difere.
E neste entretanto, estamos a ver “colossos” como 1º de Agosto, Petro e Interclube, na primeira linha, seguindo-se-lhes outros candidatos que não se manifestam, mas que agem no silêncio para depois surpreender. Há outras equipas como da craveira do Sagrada Esperança, Bravos do Maquis, Desportivo da Huila, Progresso Sambizanga, que são de posições intermédias,  e outras, bem conhecidas, de ambições modestas, para quem o que mais interessa é não baixar de divisão.
Em resumo, é toda esta amálgama de ambições, que constitui o interesse de qualquer competição em que as equipas nunca são do mesmo nível, situação determinada por diferentes factores, que pouco importa chamar para aqui. Mas, todas são importantes neste exercício, sendo que é a sua presença que torna possível a sua disputa, que lhe confere alma e grandeza.
Assim se define o Girabola, capaz de agregar ao espectáculo futebolístico outros atractivos, como é, à guisa de exemplo, a ameaça por parte das equipas, quase constante nos últimos tempos, de desistência por incapacidade financeira, que permita suportar as 30 jornadas, e outros casos, como de arbitragens e de resultados combinados. Enfim, como um dia escreveu Gustavo Costa, o Girabola é \"um verdadeiro cortejo de dramas, enganos e burlas\".