Jornal dos Desportos

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Futebol

Futebol feminino est em decadncia

Augusto Panzo - 10 de Outubro, 2011

Treinador julga que o futebol feminino necessita de novo impulso para estar mais activo

Fotografia: M.Machangobgo

Como é que o Ferreira Pinto caracteriza o actual momento de futebol feminino em Angola?
O futebol feminino em Angola está pobre. A título de exemplo, Luanda, que é a principal praça da modalidade neste escalão, está a ressentir-se dessa pobreza. Só existem sete equipas e destas, apenas quatro trabalham e disputam regularmente o Campeonato Provincial. Estou a referir-me às equipas mais fortes na capital, nomeadamente o Progresso do Sambizanga, a Regedoria, o Mártires do Kifangondo e o Clube Desportivo da Terra Nova. As outras só complementam o campeonato. Acho que há muitos problemas a nível desses clubes, principalmente no que toca aos apoios.

A falta de escolas de formação do futebol feminino não é um dos factores de estrangulamento do projecto?
É em grande medida, porque só existe um escalão, que é o de seniores. Não há iniciados, nem juvenis, nem juniores, o que provoca alguns constrangimentos, principalmente na altura dos jogos. As meninas que querem aparecer a jogar têm entre os 12 e os 13 anos, enquanto as adversárias estão na linha dos 20 a 22 anos de idade. Isso não é possível, porque há muita disparidade de idades.
 
O que deve ser feito a esse respeito?
As coisas devem ser organizadas dentro dos parâmetros exigidos, escalonando os campeonatos de acordo com as idades das jogadoras. Temos um exemplo prático disso no Progresso. A nossa jogadora Marta tem 17, mas é obrigada a jogar com as mais velhas, porque no país há falta desse ajuste de idades nas provas. Logicamente que essa jogadora se ressente.

O que falta para que isso seja possível?
Tem de se arranjar mais campos. Temos poucos, sobretudo em Luanda. Tem de haver pessoas de boa vontade para se fazerem escolas de formação para as faixas etárias dos 10, 12 ou 13 anos, que carecem de muita paciência. Não é fácil trabalhar com gente dessas idades, sobretudo quando se trata de meninas. É difícil.

Em Luanda existe algum clube com escola de formação?
Se não estou em erro, o único clube que tem escola é o CD da Terra Nova. Tem duas equipas, sendo uma de formação, onde vão buscar reforços para o grupo de seniores.

Que apelo faz para reverter a situação?
Que haja mais apoio, quer material, quer moral, principalmente para aquelas equipas que têm manifestado vontade de dar passos em frente. Há que se arranjar condições para a aquisição de materiais, a disponibilidade de campos para a realização de treinos e também dinheiro, porque não dá certo manter as meninas de pouca idade a treinarem e no fim não haver leite, gasosa ou bolo, de maneira a motivá-las, porque podem desaparecer. Sem essas componentes que acabei de citar, não haverá escolas de formação para o futebol feminino no país.

Remédio
está na criação de uma escola


Alguma vez apresentou à direcção do Progresso as condições materiais, financeiras e logísticas que enumerou atrás para o futebol feminino não morrer no vosso clube?
Já sim. Eu e a minha colega China já fizemos uma proposta à direcção do Progresso para que se crie uma escola de futebol feminino. Só que, até agora, ainda não obtivemos a devida resposta. Mas, tendo em conta a vontade expressa da colega China sobre o surgimento dessa escola, acredito que vai demorar, mas vamos conseguir esse desiderato. Ela vai continuar a bater na mesma tecla para ver se conseguimos ter essa escola cá no Progresso.

A equipa actual do Progresso está a tornar-se mais velha. Qual é o remédio?
Infelizmente sim. Grande parte das actuais jogadoras está a atingir o limite de idade e corremos o risco de ver a equipa do Progresso a decair. O remédio é a criação de uma política de formação, para contornarmos essa preocupação.

O que é necessário para que se consiga inverter o quadro negativo que se vive?
Tudo passa por um encontro de todas as pessoas de boa vontade que gostam de futebol feminino. Devemos estar juntos, falarmos uma só linguagem, porque de contrário, fica difícil. As meninas que temos agora, têm a idade a avançar e vão chegar a altura em que deixam de praticar futebol. Seremos obrigados a buscar jogadoras de outros países, como a RDC, enquanto podemos fazer a formação das atletas em Angola e jogarem nas nossas equipas. Isso não é muito bom para o nosso país.

Que perspectivas existem para futuro do futebol feminino em Angola?
Se não houverem os apoios necessários para as equipas femininas, acho que mais cedo ou mais tarde, o futebol nesse género vai acabar em Angola, porque não há suporte financeiro e material, nem escola de formação. Por isso, é bom que esses senhores de boa vontade, que gostam do futebol feminino, apareçam, que mostrem a cara, apostando na sustentação de contratos, no pagamento de salários e de prémios. Se isso acontecer, acredito que vai aguentar as equipas femininas cá em Luanda, ou mesmo em Angola.

“As pessoas que apoiavam
com dinheiro desistiram”


Senhora Lourdes Lutonda “China”, na qualidade de membro do corpo técnico do futebol feminino no Progresso, como encara um eventual desaparecimento desta categoria em Angola?Se isso acontecer, será uma tristeza. Mas, pela forma como as coisas andam nessa vertente não restam dúvidas que, se não houverem políticas bem direccionadas para o surgimento de escolas de formação de futebol feminino, o pior pode ocorrer. A falta de apoios é um dos factores principais para esse descalabro. Repare que quando eu comecei a jogar futebol, havia duas divisões aqui em Luanda. A primeira divisão tinha 18 equipas e a segunda tinha 14. Infelizmente, essas equipas foram desaparecendo aos poucos.

Como se chegou a esse ponto?
Chegou-se este ponto porque as pessoas que estavam a apoiar, com vontade e dinheiro, desistiram a partir de um determinado momento e as coisas começaram a tornar-se difíceis.

Qual é a solução agora?
Na minha opinião, para que o futebol feminino não desapareça, é necessário que se recorra às escolas, para nelas se incentivar e implementar a modalidade, essa disciplina não existe nessas escolas, até mesmo no género masculino. Aqui no Progresso, nós já fizemos uma proposta para que seja criada uma escola dessas.

Já obteve a resposta desejada?
Ainda não, mas o director-geral do clube, senhor Tony Estraga, mostrou-se receptivo a essa proposta.

Já que fala no recurso às escolas, alguma vez o corpo técnico da equipa feminina do Progresso recorreu a um desses estabelecimentos de ensino da capital do país?
De facto, sim. Temos algumas meninas que vieram da escola do Dom Bosco, mas são em número reduzido. Apesar disso, gostaríamos que outros estabelecimentos também colaborassem nesse aspecto.

A vossa intenção só está virada para as escolas?
Não. Nós estamos abertos a todas aquelas meninas que queiram aprender e praticar futebol. Gostaríamos que aquelas meninas que estivessem interessadas em fazer isso, aparecessem cá no nosso campo, para podermos fazer a devida avaliação.             

“A FAF deve fazer alguma coisa”

O futebol feminino deu os primeiros passos há 15 anos, através do falecido treinador Chico Ventura. De lá para cá, os níveis foram decaindo O teu apelo não estará a cair em saco roto?
 Não, porque já existem clubes com esse pensamento. Refiro-me às equipas do CD da Terra Nova, do Gira Jovem e do próprio Progresso que, apesar de não termos uma escola propriamente dita, já contamos com as meninas que referi, que vieram do Dom Bosco. Por outro lado, um abraço a esse apelo iria ajudar na manutenção do que existe em futebol feminino, e na melhoria do que possa vir a existir, para que essa categoria não desapareça por completo. Seria muito bom que clubes como o 1º de Agosto, ASA, Petro de Luanda ou Interclube criassem uma escola de formação de futebol feminino, a exemplo do que se passa cá no Progresso.

Não está em causa a condição financeira nos outros clubes?
Se a questão fosse essa, então esses clubes que acabei de citar nem teriam escolas de outras modalidades, como as de andebol, por exemplo, que também esteve mergulhado numa grande crise. Hoje, essa disciplina está numa fase de ascensão, porque os clubes foram recrutando algumas meninas das escolas e hoje os resultados são visíveis. Temos agora muitas equipas de andebol. A FAF também deve fazer alguma coisa nesse sentido, visitar as escolas numa missão de observar alguns talentos do género feminino, levando consigo para oferta equipamentos e bolas, a fim de incentivar as direcções das escolas a criarem equipas nos dois géneros, de forma propiciarem condições para a aprendizagem de futebol nesses estabelecimentos.

E depois disso?
Depois disso, os jogadores e as jogadoras que se revelassem grandes talentos seriam repescados para os grandes clubes, para a criação de escolas de formação, isso para o género feminino. Quanto aos rapazes, seriam integrados nos escalões já existentes nesses clubes.

O que impede que os clubes que citou possam dar continuidade à formação de jogadoras.
O clube que tiver uma equipa sénior feminina, tem de ter também os outros escalões. Enquanto não se fizer valer essa exigência, acredito que as outras equipas não se vão preocupar com isso, vamos continuar a ver campeonatos com jogos entre meninas de 17 anos contra senhoras de 40.

Trata-se de um apelo indirecto à FAF?
Exactamente. Este apelo é dirigido à FAF, que é o órgão capaz de fazer prevalecer essa orientação.