Jornal dos Desportos

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Futebol

Irene Gonçalves quer mais incentivos

11 de Abril, 2017

Revitalização do desporto-rei tem a mão da ex-atleta da Mabo FC e do Progresso Sambizanga

Fotografia: Edições Novembro

A antiga capitã da selecção nacional de futebol feminino, Irene Gonçalves, defendeu mais incentivos aos clubes, para adesão à classe feminina, à semelhança do 1º de Agosto e do Interclube.Em entrevista à Angop, à propósito do estado actual do futebol feminino, a antiga atacante da Mabo FC e do Progresso  do Sambizanga sublinhou a importância do apoio institucional para o regresso aos períodos áureos que balizou entre a década de 1990 a 2006.

“Agora é necessário apoio institucional, para realização das competições, principalmente, a nível nacional. Creio que vai depender muito da Federação Angolana de Futebol na aposta séria ao futebol feminino, e dar continuidade aos projectos em curso e pesquisas feitas a nível nacional”, disse.Irene Gonçalves considera o estado actual da modalidade no país, em fase de melhorias e ressalta a aposta na massificação com trabalho na formação de crianças, assim como na divulgação da modalidade nos municípios, de modo a aumentar o número de praticantes.

Em face disso, mostrou-se convicta de que este passo deve permitir a divisão por escalões, para que dentro de dois anos se possa ter campeonatos provinciais e nacionais em infantis, juvenis, juniores e seniores, assim como o regresso das selecções nacionais à competição internacional, principalmente em Sub-15, Sub-17 e Sub-20. A ex-jogadora considerou a sua contribuição “a melhor possível”, para que a modalidade continuasse viva desde quando estava prestes a desaparecer, com a ausência de campeonatos provinciais em 2012 e 2013.

Irene Gonçalves, antiga coordenadora do futebol feminino no clube 1º de Agosto, revelou que desde aquela data começou a organizar torneios com o seu nome, para crianças, de modo a encontrar talentos infantis.Nesta senda e na qualidade de impulsionadora para o retorno do futebol feminino, indicou que existe trabalho de continuidade com a realização de torneios seniores a nível nacional,  com equipas das províncias de Malanje, Benguela, Cabinda e Huíla, que  trabalham neste domínio.

Informou, que nesta fase, estão a ser disputadas as competições infanto-juvenil unificadas,  campeonatos de júnior e sénior unificados, em Luanda, assim como provas regulares em várias regiões de Angola, torneios inter-provinciais e jogos amigáveis.A nível de Luanda, praticam o futebol feminino, os clubes Progresso do Sambizanga, 1º de Agosto, Interclube, Gabriela FC, Sol Nascente, Galácticas do Zango, Terra Nova, Gira Jovem, Renascer do Estoril, Escorpiões de Viana e Recreativo da Paz.

CONSTATAÇÃO
Extinção de equipas
origina decadência


A extinção das formações, Expresso, Mártires, Kadó, Mabo FC e Regedoria, que por vários anos animaram os campos de Luanda, originou a decadência do futebol feminino, na capital, nos últimos anos. Face ao número (18) de equipas de então, a competição em Luanda chegou a ter duas divisões (primeira e segunda) a nível da capital do país. Os campos que serviram esta classe do desporto - rei, foram a Rádio Nacional de Angola, Kicalanga da Maianga, Hoji ya Henda, São Paulo, alguns dos quais já desapareceram.

O futebol feminino viu realizar quatro campeonatos nacionais (todos vencidos pelo Progresso Associação do Sambizanga).Com o crescimento da modalidade naquela época, a Federação Angolana de Futebol (FAF), sob presidência de Justino Fernandes, constituiu uma comissão técnica liderada por Miller Gomes para a formação de uma selecção nacional.

Angola participou uma vez numa fase final do Campeonato Africano das Nações (CAN), em 2002, na Nigéria, em que ficou na quinta posição. Nesta prova, as angolanas marcaram dois golos, nos empates a uma bola, às congéneres do Zimbabwe e da África do Sul, anotados por Irene Gonçalves e Guigui. A selecção nacional participou também em duas edições da Taça COSAFA.

Faziam parte da selecção nacional, praticantes como Guigui (capitã), Irene Gonçalves, Tânia, Detinha, Sónia, Rita, Mpata, Fatinha, Jú, Gigi, Nuna, Sarita, Tekas, Keya, Aninhas e Avô Lina.Entre os nomes que marcaram o futebol feminino, em Angola, estão Guigui, Tânia, Detinha, Fatinha, Dickson, Sónia, Irene, Veró, Lídia, Rita, Janeth, Keya e Nadine.

GERALDO QUIALA * IMPULSIONADOR
“No passado jogava-se por amor à camisola”


O futebol feminino em Angola pode retornar o seu espaço, se houver política direccionada e proporcional ao mercado, à semelhança do que acontecia no passado, quando movimentava dois campeonatos paralelos (A e B), com algumas equipas de escalões etários.

De acordo com o jornalista Geraldo Quiala, um dos impulsionador da modalidade, em entrevista à Angop, à propósito do estado actual do futebol feminino na década de 90 do século passado, jogava-se “por amor à camisola, sem fins lucrativos”.

“O futebol em Angola está mal, a morrer aos poucos, por falta de quase tudo. Quando começámos com o futebol feminino, em Luanda, na década de 90 do século passado, era ainda por amor à camisola, sem fins lucrativos declarados. Éramos guiados pela paixão e amor ao desporto”, disse. O jornalista que integrou o grupo de promotores da modalidade, conta que na época “o objectivo era, primeiro, tirar as raparigas da ociosidade e ocupar os seus tempos livres’’.

Realçou, que com o passar do tempo, os largos foram transformados em recintos de jogos, e mais tarde  conseguiu-se a aceitação para disputar os desafios em campos com medidas oficiais.

“Saímos de simples disputas, entre meninas de uma e  de outra rua, para uma competição de facto. O empenho e entrega das meninas, antes discriminadas pela sociedade, ganhou corpo e passámos a organizar campeonatos provinciais”, recordou.

Cada município de Luanda tinha duas ou mais equipas.De maratonas semanais, disputa de vários jogos num só dia, passaram a distribuir para outros campos, conta Geraldo Quiala, enquanto repórter  – a par da sua colega Sílvia Cabral (já falecida) - era um dos mentores na divulgação, com regularidade, do nascimento desta prática desportiva.

Foi nessa fase, que começaram a surgir os campos da Refrinor, Mabor, Kikalanga, CTT, Terra Nova, Coreia, Frescangol, Sambizanga, Marçal, Cazenga, Blocos, Vidrul e outros, que movimentavam aos sábados a competição oficial sob gestão da Associação Provincial de Luanda da modalidade (APFL).