Jornal dos Desportos

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Futebol

Marximina Bernardo reconhece corrupção

Pedro Augusto - 23 de Abril, 2018

Internacional angolana apresenta dualidade no processo de defesa no caso de corrupção

Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

A árbitra internacional Marximina Bernardo, suspensa por três anos pelo Conselho de Disciplina da Federação Angolana de Futebol (FAF) por alegado acto de corrupção passiva e falsificação de resultado de um jogo que envolveu o Benfica de Luanda na época de 2014, reconheceu ter agido \"involuntária  e inconscientemente\", por isso, solicitou benefícios atenuantes plasmados na legislação em vigor, pelos serviços prestados à pátria e por ser infractora primária.
O reconhecimento da internacional angolana consta nos pontos 1.2 e 2 (conclusão)  do recurso endereçado ao presidente do Conselho Jurisdicional da FAF, face à deliberação do Conselho de Disciplina do órgão federativo que a suspendeu por três anos da actividade de arbitragem.
\"A recorrente lamenta o sucedido e retrata-se perante os agentes desportivos, por ter agido involuntária e inconscientemente,  roga atenciosamente os benefícios atenuantes plasmado na legislação em vigor, em atenção os serviços prestados à Pátria e por  tratar -se de infractora primária\", lê-se na nota de recurso e acrescenta que \"os factos remontam do ano de 2014, por essa razão, a recorrente pede perdão e benesses nos termos da Lei 11/16 de 17 de Agosto (Lei de Amnistia)\".
Marximina Bernardo informa igualmente no seu recurso, que durante os 20 anos de carreira nunca cometeu nenhuma infracção disciplinar ou ilícito penal e esteve sempre pronta para o cumprimento da missão, com humildade, determinação, disciplina e pontualidade.
Apesar de reconhecer que agiu involuntária e inconscientemente no caso de corrupção, a árbitra FIFA assegura na segunda fase dos argumentos de defesa, que as alegações expostas na deliberação do Conselho de Disciplina da FAF, \"está desajustada com a matéria, que a recorrente lhe foi presente na fase de instrução preparatória do processo disciplinar, em que o ofendido ou participante é o senhor Augusto Pereira da Silva ´Alvarito´\", e que os três elementos arrolados no processo, nomeadamente Carlos Brecha, Mário Rocha (dirigentes do Benfica de Luanda) e a \"testa de ferro\" Catarina Manuel da Costa, são para ela pessoas estranhas .
\"No decurso do processo , existiram divergências nas declarações do ofendido ou participante e a recorrente, o que obrigou à uma acareação entre as partes, para melhor esclarecimento dos factos e não foram arrolados assistentes nos autos, nem outros elementos ou sujeitos processuais. Os agora constituídos participantes, Carlos Brecha e Mário Rocha (igualmente suspensos, ver peça à parte), assim como a intermediária Catarina Manuel da Costa que servia de ´testa de ferro´, são elementos estranhos e desconhecidos da recorrente, porquanto, nunca existiu qualquer tipo de relação ou abordagem, nem no decurso do auto processual, nem em sede da FAF ou outro local/instituição, o que significa  que qualquer acusação gratuita prestada é falsa e infundada, por não reunir elementos probatórios\", ressalta a nota de recurso da árbitra.

 JOGO DA POLÉMICA
O jogo que deu origem à suspensão da árbitra internacional Marximina Bernardo, contrariamente ao que informou o nosso jornal, por uma fonte da FAF, realizou-se às 15h30 do dia 1 de Março (e não 1 de Novembro) de 2014, no Estádio 4 de Janeiro, entre o União Sport Clube do Uíge e o Benfica de Luanda, referente à segunda jornada do Girabola dessa época, com vitória das águias, por 1-0, golo de Diakité, aos 22 minutos.
O trabalho de Marximina foi muito contestado, ao longo do jogo, pelos adeptos do União  do Uíge. A indignação dos uigenses cresceu depois das expulsões de Diavita e Raul, ambos aos 87m, cinco minutos depois da expulsão igualmente com vermelho directo, do avançado Milambo.
A situação gerou tumultos no estádio. Os adeptos arremessaram pedras, latas e outros objectos para o interior do  relvado, o pior só não aconteceu graças à pronta intervenção dos efectivos da Polícia Nacional.
O Conselho de Disciplina da FAF informa em comunicado que a árbitra recebeu de Carlos Brecha e Mário Rocha a quantia de 1.250.000,00 (um  milhão e duzentos e cinquenta mil kwanzas), assim como benefícios da \"testa de ferro\" Catarina Manuel da Costa, para facilitar a equipa das águias no duelo com os uigenses do União Sport Clube. 


ÁRBITROS
Associação quer anulação da deliberação


A Associação de Árbitros de Futebol de Angola (AAFA) agradece e louva, em comunicado enviado ao Jornal dos Desportos, o trabalho e a atitude da Federação angolana da modalidade (FAF), em particular o Conselho de Disciplina, para que casos de corrupção não sejam \"uma praia\" no desporto-rei nacional. Ainda assim, solicita ao Conselho Jurisdicional a anulação da deliberação de suspensão aplicada à árbitra internacional Marximina Bernardo. 
O comunicado assinado pelo presidente de direcção, Vicente Domingos Garcia, resulta da suspensão de três anos aplicada à sua filiada Marximina Bernardo, por alegadamente ter sido corrompida para favorecer o Benfica de Luanda em um dos jogos que disputou no Girabola de 2014.
Contudo, a AAFA diz no comunicado não concordar com o que denomina \"irregularidades cometidas pelo Conselho de Disciplina\" no período da instauração dos sujeitos processuais, pois, considera que não foram levados em conta os pressupostos plasmados no regulamento de disciplina, tais como, o principio da irretroactividade, prescrição do procedimento disciplinar e extinção da responsabilidade disciplinar.
Assim , a AAFA, embora reconheça não ser à favor da corrupção, solicita o Conselho Jurisdicional que anule a deliberação do Conselho de Disciplina, por considerar que  não cumpriu com pressupostos legais.
\"Não somos à favor da corrupção, tão-pouco das injustiças, mas pelo futebol e pela justiça. Assim, pelo exposto, rogamos ao Conselho Jurisdicional da FAF, para o bem da verdade e do futebol, anular  a deliberação do Conselho de Disciplina, em virtude de não cumprir com os pressupostos legais. Ainda assim, não clarifica os factos, somente quantifica os montantes monetários. Esta infracção remonta há quatro anos\", lê-se no comunicado.      


\"OPERAÇÃO CHARME\"
Brecha e Rocha suspensos por seis anos


A denominada \"Operação Charme\" levado a cabo por dirigentes desportivos do Sport Luanda e Benfica, cujo objectivo foi o de corromper a árbitra internacional Marximina Bernardo, segundo deliberação do Conselho de Disciplina da FAF, com 1.250.00,00 (um milhão e duzentos e cinquenta mil kwanzas), para falsear o jogo que a águia disputou no passado dia 1 de Março de 2014, no estádio 4 de Janeiro, no Uíge, diante do União Sport Clube local, referente ao Girabola daquele ano, vai custar seis anos de suspensão aos vice-presidentes Carlos Brecha e Mário da Rocha.
O Comunicado Oficial nº 016/SG/18, de 18 do corrente, da Federação Angolana de Futebol (FAF), informa que ficou materialmente provado que durante a época desportiva 2014/2015,  os vice-presidente Carlos Brecha e Mário da Rocha efectuaram depósito na conta bancária nº 00005607377, do então Banco Espírito Santo (BESA  Angola), pertencente à árbitra Marximina Bernardo, no montante de 1.250.000,00 (Um Milhão e Duzentos e Cinquenta mil Kwanzas) , no dia 27 de Fevereiro de 2014, pelas 14h02:00, depósito efectuado pelo sr António Noé Prata, que exercia à data dos factos as funções de financeiro do Sport Luanda e Benfica, e que o referido pagamento antecedeu ao jogo disputado com o União do Uíge no passado dia 1 de Março de 2014, no estádio 4 de Janeiro.
O Comunicado da FAF faz ainda menção de que o referido depósito foi efectuado por orientações de Carlos Brecha e Mário da Rocha com a designação \"Operação Charme\", \"quando na verdade se destinava ao pagamento da referida árbitra para poder obter em troca resultado falseado de jogo, factos devidamente provados, através de envios de e-mails e depósito bancário pelos participados (Carlos Brecha e Mário da Rocha) a favor da referida árbitra (Marximina Bernardo)\", lê-se no comunicado.
Deste modo, os dirigentes da águia para além da suspensão vão pagar uma multa em kwanzas equivalentes à USD 5.000,00 (Cinco Mil Dólares) cada \"por práticas de fraude e corrupção no futebol no pagamento da árbitra Marximina Luzia Bernardo para obtenção de resultado falcioso\".  
PA