Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Futebol

Palancas preocupam Figueiredo

Manuel Neto - 22 de Julho, 2016

Paulo Figueiredo, lamentou a actual crise de resultados que o futebol angolano

Fotografia: Jornal dos Desportos

O antigo internacional angolano, Paulo Figueiredo, lamentou a actual crise de resultados que o futebol angolano atravessa e alerta para a necessidade de uma reflexão urgente de quem de direito para se inverter o quadro e resgatar o prestigio que já granjeou.

O ex-capitão dos Palancas Negras apela à mudança de mentalidade dos dirigentes desportivos a todos os níveis para a melhoria do quadro actual. "O estado actual em que se encontra o nosso futebol é lastimável e os resultados desastrados falam por si", deplorou.

"Não podemos escamotear a verdade, mas devo dizer que pelo tempo que estamos nestas andanças era altura de darmos passos mais importantes e consistentes. Infelizmente, continuamos a oscilar entre o positivo e o negativo, agora resta-nos trilhar caminhos piores", sublinhou.Paulo Figueiredo comentou que a posição 133ª, que Angola ocupa no Ranking da FIFA, espelha a realidade que a modalidade enfrenta. Realçou que esta situação não está relacionada com a competência dos técnicos, nem tão pouco com a qualidade dos nossos jogadores, mas sim pela forma como o futebol tem sido gerido.

"Nesta altura é difícil apontar o dedo à federação, porque não estou lá dentro. Por outro lado, acho que o momento não é para procurar culpados, mas sim encontrar soluções de forma a  invertermos rapidamente este mau quadro que pinta o nosso futebol, sob pena de vermos beliscado a nossa imagem e até mesmo corrermos o risco de contaminarmos os jovens praticantes com este mau clima", preveniu. O actual técnico-adjunto da equipa principal do Progresso da Lunda Sul, não ficou apenas por lamentações e adiantou algumas soluções que a seu ver, podem ser bastante úteis para a mudança do triste quadro por que passa o futebol angolano.

"O tempo urge e penso que devemos sem mais demora começarmos a trabalhar seriamente, sobretudo, com as camadas jovens para invertermos a situação", sublinhou e elogiou os clubes que trabalham nestes escalões.

"Deve-se dar uma atenção especial às infra-estruturas, embora algumas equipas estejam já a trabalhar nesta senda, como são os casos do 1º de Agosto e a  AFA. Acho que estão num bom caminho, mas não é o suficiente", destacou.

Reiterou que iniciativas do género, não devem apenas cingir-se as equipas da capital, pois, devem estender-se a todo o país. "Isso não deve cingir-se apenas em Luanda, mas sim a nível nacional, porque é da quantidade que devemos tirar a qualidade", explicou.

Acrescentou que existem exemplos do género além-fronteiras e apontou que devem ser "feitos com projecto que vai a médio e a longo prazo" e apontou Portugal como um modelo a seguir. 

"Acho ser um bom exemplo para a formação. Falo de Portugal, por ser o país onde andei e conheço bem os seus meandros  nesta vertente, para citar as Academias do Sporting e do Benfica, que   começaram há dez ou mais anos a trabalhar na formação", salientou.

Recordou que são investimento a longo prazo e requer paciência" e só nos dias de hoje começaram a colher os frutos. Aliás a reestruturação não se faz de dia para noite, leva algum tempo e  podemos ainda implementar torneios inter-provinciais  para captação de talentos", referiu.




PROGRESSO Lunda SUL
"Estamos a trilhar bom caminho"


Paulo Figueiredo revelou que dos três sectores das equipas do campeonato nacional, o meio campo, posição que fala com conhecimento de causa, já que habitualmente jogava nesta zona do campo é o que carece de novos talentos.

Ainda assim, acredita que podem surgir a breve trecho novas promessas, dado o grosso de praticante interessados nesta posição e que demonstram possuir algum talento.

"Em Angola temos jogadores para todas as posições, mas devo dizer que os mais bem dotados levam algum tempo a surgirem. São ciclos que acontecem em qualquer país e notem bem que, há tempos o Brasil esteve com falta de guarda-redes e Portugal de atacantes. Apenas nesta altura vão surgindo alguns atletas", frisou.  Disse acreditar que com um pouco de mais trabalho as coisas podem mudar. "Com mais empenho e trabalho os craques vão aparecer, sobretudo, os que jogam no centro do terreno dado a avalanche de jovens com apetência para esta posição", afirmou.

O capitão dos Palancas Negras na fase final do Mundial 2006, na Alemanha, sublinhou que o futebol na província da Lunda Sul tende a trilhar um bom caminho, embora as infra-estruturas continuem a ser um empecilho para rápida evolução.

"Temos uma grande moldura humana com vontade de praticar futebol, mas infelizmente fazem-no nas ruas, por falta de campos. O único campo em condições para prática do futebol é o do senhor Santos Bicuco e não chega para todos. No meu ponto de vista, isso trava a vontade dos praticantes", disse.

O adjunto de Kito Ribeiro, adiantou que não obstante estes factores, vai continuar a trabalhar para o desenvolvimento do futebol da província, e de Angola de um modo geral.

"Apesar de encarar algumas dificuldades, não vamos parar. E como podem ver temos algumas equipas a disputar o provincial e a segunda divisão, com os olhos postos no Girabola. Temos aconselhado para trabalharem com cabeça, tronco e membros, sem imediatismo para evitar subir num dia e descer no outro", aconselhou.


DESISTÊNCIA
" O 4 de Abril deve
repensar a posição "


A desistência da equipa do 4 de Abril do Cuando Cubango é uma questão que também preocupa o antigo médio dos Palancas Negras. Para Figueiredo a desistência da turma orientada por João Machado, traduz mais uma vez o mau momento que o nosso futebol vive.

Afirmou ser um mau presságio para a prova que a seu ver tem estado cada vez mais competitiva e a ganhar alguma simpatia alem-fronteiras, por isso, considera uma posição preocupante.

"É muito triste quando à meio de uma competição de grande nível como é o Girabola Zap, as equipas apresentam estes problemas. Já está a ser uma prática recorrente e as entidades de direito devem ver bem isso, sob pena de acontecerem coisas piores", acautelou.
Questionou, se a direcção dos referidos clubes não acautelaram esta situação antes do arranque da competição e aconselhou às equipas a repensarem melhor as suas posições.

"Será que antes de fazerem parte da prova não analisaram as vantagens e desvantagens? Aconselho as equipas que quando estejam nestas provas, devem analisar melhor o que é bom e o que interessa", disse.

Por último, apela para uma melhor reflexão sobre a decisão para que a desistência não aconteça para o bem da verdade desportiva.


PERFIL

Paulo José Lopes de Figueiredo, nasceu em Malanje, no dia 28 de Novembro de 1972. Considera a participação no Campeonato do Mundo de 2006, como o maior feito da sua carreira, que começou em 1991 nos Belenenses.  

Representou ainda  o União de Tomar,  AD Camacha, Desportivo de Santa Clara, Dragon FC, Varzim Sport Clube e FC Olivais Moscavide e terminou a sua carreira em 2009 na equipa do Recreativo do Libolo.

Foi o capitão da Selecção Nacional de Angola em substituição de Akwá e foi um esteio no meio campo dos Palancas Negras. Recorda, com uma certa nostalgia os jogos que o marcaram  com a camisola da Selecção Nacional de Angola e aponta as partidas o diante do México e Portugal com as mais importantes.

Dedica uma atenção especial ao duelo de Kigali, que culminou com a qualificação de Angola para a estreia num Campeonato do Mundo.