Jornal dos Desportos

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Futebol

Queirs e Akw defendem apoios para a sondagem de novos talentos

Betumeleano Ferro - 10 de Novembro, 2017

Figuras reconhecidas do futebol nacional apontaram caminhos para descoberta de novos talentos

Fotografia: Contreiras Pipa Edies Novembro

O renascimento do futebol angolano passa por dar formação aos antigos jogadores, para que se dediquem em exclusivo à captação de novos talentos, defenderam ontem o ex-técnico da modalidade Carlos Queirós e o ex-atleta Akwá, durante a discussão do painel \"Talento - passado, presente e futuro\" do II congresso de futebol \"O talento do jogador angolano\".

Figura incontornável na descoberta de talentos, o antigo treinador e coordenador da escola de formação do Petro de Luanda, olha para o futuro com confiança, mas alertou para a importância de se recorrer às pessoas que pela experiência adquirida durante a carreira podem ver um craque numa pelada de crianças. \"Temos de reverter tudo isso. Dar formação aos ex-atletas para que possam ajudar a desenvolver o nosso futebol. Há muitos deles que estão desempregados e se forem formados podem dar uma grande ajuda\", argumentou.

Para o antigo capitão dos Palancas Negras que corrobora da mesma opinião o seu projecto, Kandengues Habilidosos, tem percorrido Angola e tem constatado que as pérolas continuam a espera de serem descobertas pelas pessoas certas.

\"Eu tenho de lamentar, porque infelizmente temos aproveitado mal os ex-atletas, já que deveriam ser mais melhor aproveitados para que possam contribuir para o desenvolvimento que pretendemos\", garantiu.

Com o olhar criterioso de quem praticou e possui capacidade para descobrir novos talentos em todo o país, Carlos Queirós vaticinou e defende que o futebol de formação pode elevar a qualidade e a quantidade de praticante, o que resultaria em seniores com o talento ambicionado pelos clubes.

\"Um dos nossos grandes problemas está nas categorias de base e eu contínuo a acreditar que ainda é possível fazer grandes equipas em Angola, mas tudo tem de começar pela base\", aconselhou.

Ao contrário do que aparenta ser uma opinião consensual, Akwá acredita que muitos dos antigos colegas de diferentes gerações têm potencial para continuarem a ser úteis a modalidade, desde que tenham formação e oportunidade. \"Quando se fala mal do futebol angolano a mim também dói\", desabafou.O patrono do Kandengues Habilidosos admitiu que o seu projecto está a dar um amplo campo de visão sobre o futebol de formação e concluiu que, mais do que o esforço pessoal de alguns ex-atletas, é determinante que outros parceiros também apareçam a dar o seu valioso contributo para que a descoberta de novos talentos seja feita sem queimar nenhuma etapa.

A convite da organização do congresso e também a título particular, vários antigos praticantes estiveram presentes para escutar e também dar a sua opinião. O ex-lateral Nsuka e outros colegas foram elogiados pela persistência em lutar contra adversidades para se manterem ligados ao futebol na descoberta e formação de futuros futebolistas.


CAMPOS PELADOS
Ocupações afastam
atletas em Luanda


Os campos pelados estão em vias de extinção em Luanda o que dificulta os clubes de achar talentos como nas décadas passadas.
Akwá aponta as extinções dos espaço baldios como uma das razões que estão na base do \"esquecimento de Luanda\", como uma solução real para desenvolver o futebol nacional.

Alertou que pela capital afora existem muitos pelados com miúdos a serem passados por alto sem o olho atento de quem conhece e tem capacidade para descobrir novos talentos. 

O futebol nacional sempre cresceu com \"muitos bons jogadores vindos do interior\", em parte porque os pelados existem em abundância recordou com nostalgia.

\"Os campos fora da capital continuam a existir e não desapareceram. Temos, por isso, de olhar para Angola e \'esquecer\' Luanda\", garantiu.

A abundância de areais no interior é uma realidade que deveria ser mais bem aproveitada para dar uma alternativa real aos talentos que começam a escassear na capital, por falta de pelados para jogar.

\"Há crianças com muito talento porque têm muitos locais para praticarem futebol. Temos de olhar mais para o interior\", pediu Akwá.


AKWÁ
“Saí do interior para o Benfica”

O antigo internacional angolano defendeu que, além de muitos pelados que ainda existem no interior do país, enaltece a outra grande virtude dessas províncias pelo facto dos treinadores locais trabalharem com amor pela profissão.

\"Eu também comecei no bairro, mas quando federado tive a felicidade de trabalhar com pessoas que gostavam de futebol e devo muito a eles porque me ajudaram a desenvolver as minhas habilidades. Por isso, é que saí do interior para ir jogar no Benfica de Lisboa, sem passar por Luanda\", lembrou. Carlos Queirós recordou que muitos dos craques angolanos que brilharam na Europa começaram nas peladas na capital e reconhece que, depois da independência tudo mudou e todos esses espaços foram ocupados.

Comentou que antes percorria os campos de Luanda em busca de talentos, tendo inclusive apontado todos eles por nome e municípios, fruto dos terrenos baldios que existiam naquela altura.

\"Só aqui em Luanda tínhamos 18 campos de futebol, mas hoje todos eles desapareceram. Agora está difícil fazer a captação porque não há sítios para jogar\", assegurou.A Associação Provincial de Futebol de Luanda gostaria de ver o governo a sair em socorro dos poucos pelados que sobraram do que chamou de \"selva de betão\".

O presidente da APFL Domingos Tomás é de opinião que o executivo provincial exerça a sua autoridade para ajudar no renascimento da modalidade.

\"Ainda sobraram espaços, mas esses têm de ser recuperados, tinha de sair um decreto governamental para impedirem que esses poucos espaços sejam ocupados\", solicitou.