Jornal dos Desportos

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Futebol

Rumo final

Betumeleano Ferro - 04 de Outubro, 2018

A pontaria certeira de Bu fez a histria da primeira mo da eliminatria.

Fotografia: Edies Novembro

O triunfo do 1º de Agosto sobre o Esperance de Tunis até pode ser magro, mas é inegável que o golo de Buá aos 79\', dá uma certeza irrefutável, a final da Champions está mais perto de se tornar realidade para o campeão angolano. Mais, na segunda mão, a equipa tunisina vai ter de fazer pela vida, para, no mínimo, empatar a eliminatória, até lá os militares podem continuar descansados a \'sombra\' da bananeira.
A primeira vitória dos rubro e negro nos jogos entre si, pode ter chegado na hora certa. Incapaz de sorrir diante do mesmo carrasco nas anteriores eliminatórias, desta vez fizeram os tunisinos sentir o aperto do laço no pescoço.
É verdade que demoraram a encontrar o caminho do golo, mas fizeram a coisa mais importante em jogos a eliminar. Se colocar em vantagem e deixar o oponente sem margem de erro na segunda mão, é bom prenúncio para atingir a tão almejada final.
Sem discernimento nem sabedoria para ver o quadro completo, os militares cometeram o erro de cair na armadilha bem preparada pelo seu oponente. Motivo por que fez muito pouco, para se libertar mais cedo das amarras tácticas trazidas do magrebe.
Por ter feito muito bem o trabalho de casa, o Esperance sabia para onde queria levar o 1º de Agosto. A disposição táctica adoptada pelo início era esclarecedora, o jogo deveria ser disputado em ritmo lento e de preferência mais vezes no meio-campo militar.
Como Geraldo tem a fama de ser o agitador, a equipa tunisina esticou-se e inclinou todo o meio até para lateral em que o esquerdino estava posicionado. Essa pressão tirou criatividade aos militares, porque faltava o abre-latas.
Além de estudar bem a lição táctica, o Esperance fez o que o 1º de Agosto considerava inimaginável nesta fase da competição. Dar a sensação de que estava mancomunado com o árbitro Maguete Ndiaye.
O truque deu certo. O adversário enervou-se e perdeu o foco no jogo, tanto é assim, que quando na segunda parte o juiz senegalês e os seus assistentes começaram a cumprir com o seu papel, aí sim, o campeão nacional conseguiu ver que de bicho papão o adversário já só tem o nome.
O jogo estava a se encaminhar para o seu final, mas nem que nenhum dos contendores tivesse muitos motivos de queixa, afinal pouco tinham feito para criar chances de golo. Mas tudo mudou no minuto 79, com o arco triunfal de Buá.
O médio militar soube aproveitar o deslocamento do guarda-redes Jeridi e chutou para o lado fraco, o keeper ainda se esticou todo mas foi incapaz de evitar o 1-0 final, resultado que abre boas perspectivas, para o jogo da segunda mão.
Tão logo esteve em desvantagem, o Esperance, pela primeira vez em todo o jogo, apareceu em campo para discutir pelo resultado. Parou de queimar tempo e começou a correr atrás do prejuízo. E no pouco tempo em que atacou, criou duas boas oportunidades para marcar, mas a sorte já tinha mudado de lado. O 1º de Agosto estava com a mão na massa; não estava nem um pouco interessado em fazer qualquer tipo de partilha com o indigesto adversário.

BANCOS
Técnicos  reconhecem  justeza  no  resultado


A vitória do 1º de Agosto foi justa. Pelo menos esse foi o consenso a que chegaram os técnicos Zoran Maki, 1º de Agosto, e Khaled Ben Yahia, Esperance de Tunis.
O treinador do campeão angolano só lamentou pela escassez do resultado, mas reafirmou que os militares foram os únicos, que sempre estiveram com o foco no triunfo. Do lado oposto, o seu colega percebeu o \"bife\" e defendeu-se: \"eu não falo português, mas entendi um pouco o que disse o meu colega\", realçou.
O triunfo era a única ambição do sérvio e afirmou que os números até poderiam ser escassos, pois, o que ele mais queria era sair do 11 de Novembro em vantagem na eliminatória. \"Este é um resultado positivo para nós, não é largo como gostaríamos, mas deu para ganhar\", enalteceu.
A vitória colocou toda a pressão para o lado tunisino, mas Zoran Maki ainda não vê motivos para festejos. A segunda mão é que vai ser decisiva, para determinar quem vai à final. \"É uma boa vantagem a que obtivemos com muita humildade e muito espírito de entreajuda, contudo ainda estamos muito distantes da final\", reconheceu.
O 1º de Agosto encheu as medidas a Khaled Ben Yahia. O técnico tunisino revelou que o seu plano inicial \"era marcar, pelo menos, um golo em Luanda\", mas a postura em campo do campeão angolano acabou por frustrar este objectivo. \"Eu tenho de felicitar o nosso adversário pela vitória, foi muito corajoso e acabou por vencer com naturalidade\", disse.
Sem fugir a nenhum tipo de questão, o técnico tunisino considerou que a sua equipa teve duas fases em todo o jogo, mas a partir do momento em que se viu a perder teve de atacar mais para, no mínimo, empatar. \"A minha equipa fez o que esteve ao seu alcance para anular a desvantagem, infelizmente, não fomos muito bem-sucedidos, mas conseguimos criar duas boas chances depois do golo sofrido\", afirmou.
A eliminatória está favorável para o 1º de Agosto, é isso o que o técnico Maki quer que seja valorizado e falado, até começar o jogo da segunda mão. \"Eu sempre acreditei que iríamos ganhar, não estamos nesta fase por mero acaso, mas sim com todo o mérito. Quando se tem um plantel como o nosso, é legítimo pensar na final, porque não chegamos até aqui por causa da sorte\", enalteceu.
A qualidade do campeão angolano também foi elogiada por Ben Yahia. O antigo jogador do Esperance viu coisas boas no adversário e assegurou que a segunda mão vai exigir muito da sua equipa. A primeira missão vai ser anular a vantagem dos militares.
\"Realmente, essa é a primeira parte desta eliminatória. Temos de marcar, pelo menos, um golo para relançar as nossas chances, mas nunca vamos tirar da nossa mente, que temos de respeitar esse adversário\", sublinhou.

ATITUDE DOS ADEPTOS
Arbitragem  dá  motivos
de queixa e possível castigo


As imagens televisivas e os relatórios do comissário Abennet Meskel, Etiópia, e do trio de árbitros do Senegal chefiado por Maguete Ndiaye, pode ser determinante para o 1º de Agosto ser sancionado pela CAF.
O critério adoptado pelos juízes senegaleses deu enormes motivos de queixa aos adeptos, que, em sinal de protesto, arremessaram garrafas de plástico e uma delas chegou ao relvado aos 29\'. A outra quase acertou um dos assistentes, no exacto momento em que o trio de arbitragem entrava no túnel, depois de soar o apito para o intervalo.
Em princípio, essa tentativa de atingir os árbitros, pode ser a que mais consequências pode trazer ao campeão nacional. Primeiro, o árbitro assistente visado limitou-se a esquivar e continuou a sua caminhada para o túnel, porém, segundos depois, regressou e recolheu a prova, levando-a consigo.
Os apelos feitos para que o público evitasse esse tipo de comportamento, é capaz de servir muito pouco ao 1º de Agosto. O jogo estava a ser televisionado em directo, pelo que só resta aos militares aguardarem pelo eventual castigo, que vai ser tomado com base nos regulamentos disciplinares da CAF, se uma multa ou outra sanção afim.
A actuação do trio chefiado por Maguete Ndiaye acabou por influenciar o rumo dos acontecimentos no rectângulo. O técnico Zoran Maki preferiu ser económico nas palavras, mas realçou o \"muito anti-jogo praticado pelo Esperance\".
Os árbitros nunca tiveram autoridade, para impedir que os tunisinos fizessem o que bem quisessem e quando quisessem, situação que deu motivos de queixa dos atletas militares e contagiou os adeptos.
Em vários momentos, a equipa de arbitragem agiu como se estivessem mancomunados com o adversário do 1º de Agosto. Inventou faltas, permitiu que os tunisinos simulassem lesões e fossem assistidos no relvado. Houve situações que, mesmo com a autorização da entrada da equipa médica, o jogador se levantava e melhorava de imediato sem ser assistido. Nenhum deles foi advertido com cartão amarelo.
O irritante critério adoptado pelo árbitro Ndiaye, fez com que o médio Badri criasse uma aborrecível sociedade com Paizo. O lateral esquerdo do 1º de Agosto acabou por cair no truque e só despertou para a realidade, quando viu o amarelo aos 17\', a Badri e outros simuladores nada aconteceu.

AUTOR DO GOLO
Buá: a  imagem  da  persistência


A pontaria certeira de Buá fez a história da primeira mão da eliminatória. O médio foi lançado para o lugar de Mongó e dez minutos mais tarde acabou por ser o \'herói\' da tarde. A história poderia ter sido diferente se o atleta se deixasse abalar pelo começo incerto.
Antes de selar o placar, o médio angolano, no lance anterior, rematou para fora, quando tinha tudo para dar melhor sequência a jogada, mas a bola tomou a direcção errada para lateral. Ainda assim, minutos depois reajustou a mira e deu a vantagem na eliminatória.
Além do golo, a entrada de Buá deu uma ideia diferente de jogo ao 1º de Agosto. A troca de postura acabou por ser determinante para derrotar o Esperance. O técnico Zoran Maki reconheceu no final, que o Esperance conseguiu, em largos períodos, pôr a sua estratégia de jogo em acção \"para adormecer\" o campeão nacional.
Quando \"o homem da tarde\" entrou em campo, a postura tunisina ainda permanecia a mesma, mas o médio mostrou aos colegas, que as coisas poderiam ser diferentes, se evitassem o duelo individual, que favorecia em demasia o adversário.
Os tunisinos esfriavam a atitude dos militares com faltas constantes e, sobretudo, muito contacto físico sempre que necessário. A virilidade foi imagem de marca do Esperance para anular as investidas do seu oponente. Ao provar que a finta, como recurso, poderia ser eficaz, Buá em boa hora, ajudou os militares a perceberem que a recompensa poderia chegar a qualquer momento, pois, com a bola a circular com mais frequência, as chances de marcar aumentavam de maneira substancial.
Foi assim que as redes balançaram. Antes do remate certeiro houve uma dividida, em que atletas de ambas equipas caíram e pareciam lesionados, ainda bem que o árbitro não parou o jogo, porque quando o guarda-redes Jeridi deu passos para se reposicionar no meio da baliza, Buá meteu a bola onde o tunisino estava a sair.
A partir do momento em que o placar mudou, o Esperance se abriu mais, situação que favoreceu em demasia o modo de jogar do criativo médio angolano, pois tem qualidade de passe para colocar a bola nas costas do adversário.
Antes do apito final, o herói do jogo isolou Rasaq que acreditou que poderia ampliar, mas o capitão Chamam fez uma falta cirúrgica, que lhe custou o segundo amarelo e consequente expulsão. Uma baixa e tanto no centro da defesa tunisina, ainda mais pelo peso do braçal.
Contudo, vai ser necessário esperar até a segunda mão, para ver o peso do golo de Buá, mas até lá o 1º de Agosto vai continuar tranquilo e confiante, a preparar o que pode ser o jogo das carreiras do plantel liderado por Zoran Maki. A apetecível final da Champions, está, agora, a 90 minutos da realidade.