Jornal dos Desportos

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Futebol

Treinadores exigem correco imediata nos trabalhos de base

Paulo Caculo - 04 de Julho, 2019

Treinadores angolanos acreditam que futuro do futebol est dependente do trabalho desenvolvido nas estruturas de base

Fotografia: Jos Cola, Edies Novembro

O afastamento prematuro da Selecção Nacional na 32ª edição da Taça de África das Nações em futebol, na condição de pior terceiro classificado da fase de grupos, está a gerar inúmeras opiniões entre os agentes da modalidade.
Se, por um lado, existe uma corrente de opinião que considera ter sido a pior participação de Angola numa fase final do Campeonato Africano das Nações (CAN), por outro, há um grupo de angolanos que avalia a prestação da selecção com maior ponderação, como são os casos dos técnicos de futebol David Dias e Mário Calado.
Perfeito conhecedor da matéria, tal como David Dias, o antigo seleccionador nacional Mário Calado começou por considerar negativa a prestação da Selecção no CAN.
“Não podemos enveredar na mesma análise leviana da maioria dos nossos leitores. Sabemos que não foi positiva a nossa participação, mas do ponto de vista competitivo as referências são várias. Angola bateu-se de igual para igual com as principais selecções, mas não soubemos tirar proveito de momentos especiais que nos poderiam dar uma certa estabilidade”, avaliou o técnico, que esclareceu ter sido natural que a incapacidade de tirar proveito dos bons momentos se reflectiu no desfecho dos seus jogos.
“Quando uma Selecção não consegue ter ganhos destes momentos bons, reflecte no final da sua campanha. Foi isso que aconteceu. Fomos desequilibrados em algumas circunstâncias do jogo, facto que não permitiu a concretização dos nossos objectivos”, acrescentou o ex-seleccionador nacional.
De igual modo, o técnico David Dias acredita que, em jeito de balanço, se pode concluir que Angola não esteve no seu melhor. Considera que foi uma decepção, na medida em que se esperava muito mais da Selecção Nacional, sobretudo desde a imagem acalentadora deixada no jogo frente à Tunísia.
“Soube a pouco a nossa participação. Penso que podíamos ter feito muito mais e melhor. Sempre acreditei que fôssemos continuar em prova, nos oitavos de final, mas acabei dececionado com a derrota frente ao Mali”, disse o antigo treinador do Recreativo da Caála da Huambo.
“Marcámos apenas um golo e sofremos dois. Houve um período em que a Selecção fez acreditar os angolanos que a nossa prestação seria de alto nível, ou pelo menos melhor comparado com as edições anteriores. Agora temos de trabalhar mais e a federação terá de avaliar muito bem o que esteve na origem da fraca prestação”, disse David Dias.
Segundo Mário Calado, a Selecção Nacional revelou algumas dificuldades na compactação defensiva, organização ofensiva, com realce para o facto de no último passe - salvo raras excepções - nunca ser dada pelo atleta em melhores condições, no sentido de finalizar. “Isso também é motivo do processo de ansiedade. Os nossos atletas a qualquer momento queriam resolver no sentido de ganharmos estabilidade. Não eram as estratégias mais aconselhadas para podermos resolver a nossa situação”, esclareceu.
O adeus inglório do CAN, segundo David Dias deve obrigar a federação a alterar o seu modelo de trabalho, sob o risco de se continuar a somar fracassos, uns atrás de outros.
O ex-técnico do Recreativo da Caála acredita que se deve prestar “maior atenção aos escalões de formação, aos jovens talentos e a construção de uma estratégia de trabalho que potencie os escalões de formação”.
Os dois treinadores são unânimes na avaliação dos jogadores. Consideram ter havido vontade, voluntarismo, porque acreditam que “os jogadores deram o seu máximo”, mas não foi possível alcançar patamares superiores.
“O problema do futebol angolano não está apenas na Selecção Nacional, mas encontra na sua estrutura geral, desde os clubes até à base. A estrutura do nosso futebol tem uma predominância nos gabinetes, fundamentalmente onde se tratam estratégias e objectivos, sem a participação técnica das pessoas que dominam o futebol. Isso faz com que encurtamos a vida do nosso futebol”, lamentou Mário Calado.
De acordo ainda com o ex-seleccionador nacional a presença no comando de equipas do Girabola de técnicos nacionais e estrangeiros não qualificados para o desenvolvimento do futebol, está a contribuir muito mais para a degradação da qualidade. “É necessário fazermos esta correcção o mais rápido possível e saber quem deve treinar em Angola. E a FAF, enquanto responsável pelos resultados finais do futebol, não pode continuar a permitir que treinadores não qualificados continuem a treinar em Angola”, assegurou.