Jornal dos Desportos

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Futebol Internacional

Balano possvel

Matias Adriano - 22 de Julho, 2019

O Senegal foi um digo vencido, que teve um excelente desempenho na prova

Fotografia: DR

Na última sexta-feira caiu o pano sobre a XXXII edição do Campeonato Africano das Nações em futebol, com a Argélia como campeã, consagrada com todo mérito e justiça.  O Senegal foi um digo vencido, que teve um excelente desempenho na prova, e, na final, apesar da derrota, mostrou arte e engenho de um verdadeiro intérprete da linguagem futebolística. Em termos gerais foi um campeonato que teve de tudo, do ruim ao prazenteiro. O Egipto, como anfitrião, assim como Camarões, como detentor do título, morreram à nascença. Mas o torneio não perdeu graça, porque estavam em acção outros actores, que souberam valorizá-lo. Aqui, em leves pinceladas, vai o resumo do que de A a Z foi esta edição da maior cimeira do futebol africano.

A - ANGOLA - Esteve na prova pela oitava vez. De todas penas em 2008, no Ghana e em 2010, em Angola, logrou atingir os quartos-de-final. Nas outras quedou-se sempre na fase de grupos. Com a elevação do torneio de 16 para 24 países, naturalmente, que os quartos-de-final passaram a representar uma boa e difícil meta, havendo os “oitavos” de permeio. Talhado a passeios turísticos, mais uma vez morreu na praia, revelando uma acentuada mediocridade competitiva, já que em face da necessidade de repescagem, dos quatro melhores terceiros, tinha quase tudo para seguir em frente. Mas preferiu passar a bola à África do Sul.

B - BAGUNÇA - Não há outro adjectivo para qualificar aquilo que se passou dentro da comitiva angolana, com quase todos desencontrados ou em verdadeira manta de retalhos. Não havia química entre o seleccionador nacional e o presidente da FAF. Por sua vez, os atletas andaram divididos, sendo uns pró-direcção e outros pró-equipa técnica. Por aí e com a problemática dos dinheiros sempre a fazer caixa alta, o desfecho da participação nunca poderia ser melhor.

C- CAMPEÃO - Campeão pela primeira vez em casa, em 1990, a Argélia vinha a lutar pelo segundo título há quase 30 anos. Em 2010, em Angola, esteve próximo mas ficou nas meias-finais, tendo disputado e perdido(1-0) o terceiro lugar com a Nigéria. No Egipto apareceu determinado, apesar de o anfitrião ser o mais ganhador. Deixou bons indicadores na primeira fase, onde foi totalista a par do Egipto e do Marrocos. O deslise de outros candidatos facilitou-lhe a empreitada até à final, onde teve a sorte de cruzar com um Sénégal que já conhecia e havia superado na fase de grupos. Teve algumas dificuldades sim, mas valeu-lhe aquele golo madrugador, que no dizer de Honorato Silva caiu do céu. Um digno campeão, que tornou o último fim-de-semana festivo em toda Argélia.

D - DECEPCÇÃO - Não tem outro nome. Foi, realmente, uma grande decepção a eliminação do Egipto, ainda nos oitavos-de-final da prova. À partida, é para si que apontavam todos os prognósticos quanto ao provável vencedor. Por duas razões que se explicam em poucas palavras. É a selecção mais titulada, e agrega a esta particularidade o facto de nas quatro ocasiões que tinha acolhido prova ter ganho em três, perdendo apenas uma vez, em 1974, para o antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo. Podia até não chegar ao título, mas não se previu o seu afastamento logo nos oitavos-de-final.

E - ENCHENTES - É comum em torneios do género ser os jogos da equipa de casa que mobilizam maiores enchentes. Nos outros, o registo varia muito. Nesta edição foram muitos os jogos disputado quase que às moscas, situação que veio a acentuar-se com a desqualificação da selecção caseira. Em dois jogos de Angola, nomeadamente com a Mauritânia, em Suez, e com o Mali, em Ismailia, a assistência calculava-se em dois, três mil espectadores. Muito pouco público.

F - FRANCÊS - Uma prova que começou com 24 selecções, representadas por anglófonos, francófonos e lusófonos, chegou aos oitavos-de-final com 13 a se pronunciar em língua francesa. Do leque das 16, apenas Nigéria, Uganda e Ghana eram falantes da língua inglesa, sendo caso para dizer que o francês falou alto no campeonato.

G - GOLOS - Constituem o melhor elemento do jogo de futebol. No Egipto os homens da área da acção não tiveram contemplações com as redes. É basta ver que entre os 56 jogos da fase de grupos apenas cinco tinham terminado em branco. Seja como for, é escusado estabelecer uma analogia com o registo de golos da edição anterior. Pois, este campeonato teve mais equipas, mais jogos e logicamente tinha de ter um maior registo de golos.

H - HOSPITALIDADE - Tido como a mais antiga civilização de África, o Egipto, turisticamente, tem tudo para atrair os seus visitantes. Com as suas pirâmides no Cairo, com o canal Suez, na cidade com o mesmo nome, com lindas praias em Alexandria tratou de recrear as delegações em dias de pausa do campeonato. De resto, não pode haver queixas quanto a hospitalidade que todos que se fizeram em terras egípcias poderiam desfrutar.

I - IMPRENSA - Mais de mil jornalistas oriundos dos 24 países participantes, e não só, estiveram credenciados para a prova. O serviço de credenciamento foi de uma grande eficiência. Os Media Center estiveram equipados com meios de alta tecnologia, embora hoje com a Internet à mão de cada um, poucos tenham se servido de tais meios postos à disposição.

J - JUVENTUDE - No desporto a regra é a renovação. Muitos talentos que marcaram a sua época já não voltaram a estar presentes no Egipto. Ficou para trás a era de jogadores da igualha de Yaya Toure, Didier Drogba, Samuel Eto’o, para só citar estes. Mas uma catadupa de jovens deu às vistas, sendo um dado adquirido que novos astros despontam para o futebol africano..

L - LIMITAÇÕES - Apesar de este facto não ter manchado a organização do certame, porém, diga-se, de passagem, houve muitos excessos nas questões de segurança, que acabaram por impor limites aos movimentos das pessoas, dos profissionais de comunicação sobretudo. Em Suez, terra natal do líder da Irmandade Muçulmana no país, Mohammed Morsita que tinha morrido dias antes em pleno Tribunal, a situação roçou os píncaros do absurdo. À entrada ao estádio as revistas eram à pente fino, obrigando-nos muitas vezes à dispensa das ferramentas de trabalho, entrando apenas com uma folha A4 à mão e uma esferográfica, forma de evitar os incómodos.

M - MADAGÁSCAR - Estreante na prova, o Madagáscar acabou por ser a agradável surpresa do torneio. Enganou-se, redondamente, quem ousou duvidar da sua capacidade competitiva. Na fase de grupos superou gigantes como Nigéria e terminou alcandorado no primeiro lugar. Não foi um sucesso de mero acaso. Pois, nos oitavos-de-final mandou para casa a RDC. Caiu de pé nos quartos-de-final diante da Tunísia.

N - NOSSOS - Diga-se de passagem que Angola não voltou do Egipto totalmente derrotada. Se a equipa de futebol não deu conta do recado em campo, os nossos árbitros tiveram uma lição exemplar. Hélder Martins, Jerson Emiliano entram em campo duas vezes, uma na primeira fase e outra nos oitavos-de-final. Estes, auxiliados moçambicano Arsénio Marengula, foram os “nossos”, que nos encheram de orgulho.

O -ORGANIZAÇÃO - Para quem acolhia a prova pela quinta vez, cometer erros de organização seria um cúmulo. Diga-se que tirando proveito das suas excelentes infra-estruturas desportivas e uma cadeia hoteleira à altura das exigências, para além de vários lugares de interesse turístico, o Egipto caprichou. Se houve uma ou outra falha terão escapado ao nosso registo.

P - POLÉMICA - Foi mais ou menos aquilo que se levantou em torno de alguns desajustes que se verificaram na caravana angolana. Tentava-se ao máximo silenciar os problemas, mas estes, ainda que contendo algumas inverdades, escaparam sempre aos ouvidos de jornalistas mais avisados. Tornados públicos, porque viraram elemento noticioso, procurou-se crucificar os jornalistas, acusando-os de anti-patriotas, como se fossem obrigados a encobrir um mal que, a olho nu, molestava a equipa e inibia os atletas a jogar ao seu mais alto nível. Organizem-se camaradas...

Q - QUALIDADE - Qualidade, como factor primordial num jogo de futebol não faltou na prova do Egipto. Da fase de grupos à final assistiu-se a jogos de apurado teor qualitativo. Podíamos particularizar alguns, mas sob risco de sermos contrariados ficamo-nos pelos diversos. Também assistimos a alguns jogos ruins, mas, ainda assim, a qualidade não ficou beliscada.

R- RIVALIDADE - Não se pode duvidar da rivalidade desportiva existente entre os países do Magreb e os que se situam na linha a baixo do Sahara. Depois do poderio Árabe, através do Egipto, campeão em 2096; 2008e 2010, as quatro edições que se seguiram foram vencidas pela Zâmbia, Nigéria, Costa do Marfim e Camarões. Daí que depois da queda do Egipto, Marrocos e Tunísia a Argélia tenha feito tudo para salvar a honra do clã. Vai-se ver o que será nos Camarões em 2021.

S - SADIO MANÉ - Estrela que rompe o firmamento, hoje a vestir a camisola do Liverpool, terá aproveitado bem o campeonato para mostrar aquilo que vale na realidade. Mané e pares foram estupendos, apesar de na final não terem sido bem sucedidos. Pois, a eles também o título serviria como luva. Particularmente Mené mostrou por A+B que não é sem razão que é hoje uma das maiores referências do futebol mundial.

T - TREINADORES- Estiveram na prova 26 treinadores de diferentes nacionalidades. Uns à frente das seleções dos respectivos países e outros na condição de estrangeiros. Porém, quis o capricho das circunstâncias que chegassem à final dois com muito em comum. Aliou Cisse e Djamel Belmadi, são ambos da mesma idade, do mesmo signo, da mesma nacionalidade adoptiva, com o mesmo percurso como atletas, enfim. Mas como não podiam vencer os dois, Belmadi foi mais sortudo. Mesmo assim, Aliou Cissé deixou na prova a sua marca.

U - UNIÃO ÁRABE - Sobre a rivalidade competitiva entre os países árabes e os da África Sub-sahariana já falamos atrás. Mas nunca é de mais dar realce no espírito de unidade existe entre os árabes. Quando a Egipto foi surpreendido nos oitavos-de-final pela África do Sul, o público egípcio foi instruído no sentido direccionar o seu apoio a outras seleções da região magrebina. Isto reflecte, realmente, o espírito de União da comunidade árabe, que deve ser enaltecido ao lugar de ser interpretado como alvo de repudio.

V - VAR - O instrumento auxiliar dos árbitros entrou apenas em actividade nos oitavos-de-final, mas também poucas foram os recursos a ele. Ao menos, fique isto escrito, com todas as letras, não causou os dissabores que causou no Campeonato do Mundo da Rússia, onde foi utilizado pela primeira vez. Digamos que o CAN teve um VAR pacifico e imparcial.

X -XAXA - Em todos campeonatos há sempre jogos da xaxa. Regra comum ocorrem na última jornada da fase de grupos, em que uns, mesmo em troca de nada, tentam ajudar outros por qualquer influência que possam partilhar. Mas ainda assim, há quem que, por incapacidade demasiada se revela incapaz de tirar proveito disto. O Angola-Mali, com este último, já apurado, a preterir de sete titulares indiscutíveis, foi, realmente, um jogo da xaxa.

Z- ZONAS DE INFLUÊNCIA - Comparada a prestação das seleções dos países da África Austral, cujo último título remonta de 2012 na Guiné Equatorial, com o selo da Zâmbia, não há como não considerar à África do Oeste e a do Magreb como as verdadeiras “zonas de influência” do futebol africano. Nas últimas duas décadas para a zona em que, geograficamente, nos situamos vieram apenas dois títulos, sendo o outro o da África do Sul, em 1996. Algo não vai bem, convenhámos reconhecer...