Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Modalidades

2018 com altos e baixos

Matias Adriano - 31 de Dezembro, 2018

Fotografia: Edies Novembro

A - ARTUR - Artur de Almeida e Silva é o nome do presidente da Federação Angolana Futebol, apontado pelos homens da crítica barata como responsável pelo mau momento da modalidade, quando até já deu mostras de ser um homem de boas iniciativas. O que é certo, e que custa às pessoas perceber e dizer, é que ele assume a federação num contexto crítico, diferente ao dos seus antecessores. Porque se também lhe colocassem em mão os montantes que os outros tiveram era capaz de realizar boas obras. Lembrem-se que para a fase final do CAN\'2013 Angola levou nove milhões de dólares. Se calhar, ele nem metade deste valor viu desde que chegou à presidência da FAF. Mas para a felicidade do homem o ano que termina foi positivo para os Palancas, que voltaram a dar alegria ao povo.
B- BENGO - Pode custar admiti-lo. Mas no nosso mosaico desportivo o Bengo, aqui bem perto de Luanda, é seguramente a província com menor vitalidade desportiva. Durante anos foi um mero espectador do Girabola, até que um empresário local, Domingos António de sua graça, surgiu, por sua conta e risco, a salvar a honra de casa. Sem qualquer apoio extra, o Domant FC de Bula Atumba não resistiu à pressão da prova. Desceu de divisão de tal sorte que na edição em curso o Bengo já não faz morada. Onde andará a força e a magia do jacaré bangão?
C - CRISE - Grassa pelo país inteiro, e dos seus efeitos nocivos poucos conseguem escapar. O desporto pior ainda, sendo que no nosso caso particular este dá mais despesas que lucros. No ano que hoje termina gestores da \"coisa desportiva\" submeteram-se a enorme ginástica para minorar as dificuldades. Equipas e selecções viram-se forçadas a demarcar estágios e em casos mais críticos a renunciar competições. Temos quase certeza que 2018 não foi um ano bom para o dirigismo desportivo.
D - DESPORTO ESCOLAR - Não vai para muito tempo foi criada uma comissão para a revitalização do desporto escolar dado a sua utilidade. A mesma integrava elementos afectos ao Ministério da Juventude e Desportos e outros ao da Educação. O certo é que mais um ano termina hoje sem que se nos tenha sido apresentado algum resultado do trabalho desta comissão. Alguém por ai nos pode dizer como vai o desporto escolar?   
E - ESTÁDIOS - A música que já vimos a ouvir nos anos anteriores, sobre o abandono a que foram votados alguns estádios construídos aquando do CAN\'2010, nomeadamente o da Tundavala e do Chiazi, voltamos a ouvir em 2018. As imagens postas a circular nas redes sociais eram mais reveladoras de reservas de caça que propriamente de recintos de jogo. Mais um ano se vai sem que se tenha feito algo que visasse reabilitar infra-estruturas que afinal não custaram pouco aos cofres do Estado.
F  - FUTEBOL - As equipas militantes do Girabola acabaram em 2018 submetidas a uma estafante  maratona de jogos. O ano ficou marcado pela disputa de duas edições sucessivas. Ante a necessidade de Angola ajustar o seu calendário competitivo ao dos outros países africanos, disputou-se uma edição à velocidade de cruzeiro, de Fevereiro a Agosto e outra, em curso,  que teve início em Setembro último. Realmente, não é obra para todos, não só do ponto de vista competitivo como também de logística. Muitos soltaram o grito de Ipiranga, e os que ainda não o fizeram estão em vias de fazê-lo. Os próximos dias prometem.
G - GOLO DO ANO  - O futebol nacional foi marcado por um golo mágico. Há quem preferiu chamá-lo o golo do ano, cuja validade foi discutida à exaustão. Realmente, o golo do ano, verificado no Sporting de Cabinda-Petro de Luanda para a 22ª jornada do Girabola 2018, afinal não foi golo.  O tal golo, escreve Ismael Mateus na sua página no Facebook, foi tao bem marcado que o Petro levou horas a perceber que afinal não tinha sido. \"Dito de outro modo, foi tão bem batotado que apesar de não ter sido, acabou sendo. As televisões, os analistas dividiam-se na discussão sobre o tal golo. Até hoje foi, mas não foi golo ou melhor não foi, mas foi.\"
H - HOMENAGEM - À margem das comemorações dos 43 anos de independência nacional várias figuras da sociedade civil foram homenageadas pelo Presidente da República. O desporto, que sempre soube jogar o seu papel não ficou à parte. Figuras como Demósthenes de Almeida, Akwá e os integrantes da selecção de futebol para amputados  estiveram entre os condecorados. Excelente iniciativa senhor presidente...
I - INCIDENTES - Há muito que vimos a dizer que a Confederação Africana de Futebol prima, em muitos casos, por uma política de proteccionismo a alguns dos seus filiados e de penalização a outros. Foi de tamanha gravidade ter feito vista grossa e ouvidos de mercador aos incidentes de Tunis, no jogo da segunda-mão das meias-finais da Liga dos Campeões entre Esperance de Tunis e 1º de Agosto, em que os angolanos quase saíram linchados. A posição assumida pela CAF colocou em causa a sua idoneidade. Terá sido para a turma militar e sua massa de adeptos o episódio mais triste do ano.
J  - JUVENTUDE - Aprendemos do tempo do comunismo que a juventude é a força motriz. Quem faz desporto não se deve dar à veleidade de virar costas aos escalões de formação. Aliás, existe uma orientação da Federação Angolana de Futebol segundo a qual equipas militantes no campeonato nacional da primeira divisão devem dispor de escalões inferiores. Espanta, pois, que o Progresso do Sambizanga, em face de  dificuldades de tesouraria tenha se decidido por extinguir a equipa jovem. Esta foi, realmente, a pior medida do ano nas hóstes sambilas. 
L - LIGA - A nível de futebol faz tempo que se fala na criação de uma Liga. A conversa vem de há muito, tendo inclusive se constituído uma comissão que pudesse trabalhar nos seus estatutos. E em 2018, e fórum  apropriado, voltou a falar-se do assunto. A pergunta se põe é se será viável no nosso caso, sobretudo neste período de recessão económica. Pois, para se dar corpo a uma Liga é necessário que cada equipa participante se disponha de um certo capital financeiro. A avançar para uma Liga nesta altura do campeonato seria limitar a mesma a meia dúzia de equipas.
M - MÉXICO - A bandeira angolana desfraldou, em 2018, ao sabor do vento mexicano. Foi signatária ou protagonista do mérito a selecção de futebol para amputados que se sagrou campeã mundial. Na verdade, Angola foi determinante no campeonato. Interiorizou o conceito de que \"a terceira é de vez\". E depois do vice-campeonato em 2016, na África do Sul, logrou chegar ao estrelato na terra de históricos revolucionários como Pancho Villa e Emiliano Zapata. Os seus integrantes, até então ilustres anónimos, mercê da sua arte e engenho romperam as fronteiras da fama, e hoje passeiam-se ufanos e garbosos, com insígnias de campeões do mundo. Bravô campeões bravô!..
N- NEGÓCIO - Há duas épocas que o 1º de Agosto tem procurado colocar activos seus em outros campeonatos. Ou, se preferirem, em outros clubes fora do país. Depois de Gelson Dala e Ary Papel desta foi a vez de Geraldo, que vai representar nas próximas quatro épocas o Al Ahly do Egipto, clube onde se notabilizaram outros angolanos como Avelino Lopes, Flávio Amado e Gilberto. O avançado, formado na Escola Norberto de Castro, diz sentir-se honrado, já que do acordo ganha o próprio, ganha o 1º de Agosto e ganha a Selecção Nacional. A ele boa sorte em terras faraónicas...
O - OMATAPALO - É uma empresa sedeada na província da Huila com créditos firmados na Engenharia & Construção Civil no país, que acaba de assumir a responsabilidade de recuperação da relva dos Estádios do ferroviário e da Nossa Senhora do Monte, no Lubango. Um levantamento do material necessário para esta intervenção já foi feito. Nada melhor, que este patrocínio, podia acontecer ao futebol huilano nesta ponta final do ano. Bem haja...
P - PÚBLICO - Bem entendido, houve uma reaproximação entre o público e a  selecção nacional de futebol. Viu-se nos jogos, disputados em casa, do torneio qualificativo ao CAN\'2019, empatia entre as partes. Houve uma assistência que, não estando ao nível do se que via nos 80 e 90, porém já melhorzinho que nos últimos anos. A explicação para tal reaproximação radica no surgimento de uma geração que se têm constituído em injecção de sangue novo à equipa, apresentando esta já um fio de jogo padronizado, um futebol alegre e vistoso. Oxalá não seja sol de pouca dura.
Q - QUALIFICAÇÃO - É indubitavelmente um dos momentos mais altos e festivos da actividade desportiva. Aliás, antes dos títulos, mundiais ou continentais, são as qualificações de fase para fase, que, em bom rigor, emprestam vigor a competições. Neste quesito podemos aferir que o andebol sénior feminino e o basquetebol sénior masculino saem de 2018 vitoriosos. Entram para o novo ano qualificados para os campeonatos do mundo. Os Palancas, ao seu estilo, deixaram escapar esta oportunidade, e aguardam agora a decisão de Março próximo em Gaberone, a ver se se apuram ou não à maior cimeira do futebol africano.
R - RAÇA - É o que evidenciou a Selecção sénior feminina de andebol no Campeonato Africano em Brazaville . Ao seu estilo, destemidas e ousadas como sempre, as Pérolas, designação oficial da selecção sénior feminina, passearam classe e talento no torneio e garantiram o passe para o próximo Campeonato do Mundo. Foi o 13º título africano, o que personifica um recorde sem igual a nível de outras modalidades, deixando inclusive o basquetebol, que se quedou no 11º título,  para trás. É gratificante saber que a nível desta selecção tem havido uma perfeita sucessão geracional. Elas podem estar alheias a isso, mas a sua conquista foi uma verdadeira prenda de Natal para o país inteiro.
S - SILÊNCIO - Em Setembro último o Unitel-basket viu-se privado de uma das equipas de topo, o Sport Libolo e Benfica, que tinha surgido do desmembramento do Clube Recreativo do Libolo. As razões por que foi extinta são até hoje desconhecidas, porque a direcção fechou-se pura e simplesmente em copas. O silêncio não concorre à compreensão de nada. A família da bola ao cesto merece uma explicação do sucedido. Certamente que a medida não foi tomada sem mais nem quê. Terá havido motivos para tanto. Doutor Rui Campos quebra o silêncio, que até nunca foi a sua bandeira.
T - TWAPANDULA - Em língua nacional umbundu twapandula significa agradecimento colectivo \"obrigado\". Assim, como quem está a desenrascar, colocamos o português à parte, quanto mais não seja uma forma de valorizar as nossas línguas, para agradecer a todos quantos tornaram 2018 num ano desportivamente proveitoso. Pois, para além dos actores directos, aqueles que dão o rosto, o desporto se faz também com motoristas, trabalhadores administrativos, massagistas, roupeiros e outros, normalmente por trás das câmaras. É a estes que vai especialmente o nosso obrigado. Aliás, o nosso Twapandula.
U - UFANO - De acordo com o dicionário da Porto Editora é aquele que se orgulha de si mesmo ou do triunfo do filho. Pelas vitórias conseguidas em 2018, Leonel da Rocha Pinto, Hélder Cruz \"Maneda\" e Pedro Godinho têm motivos de sobra para se sentirem ufanos neste último dia do ano. Estão no direito de exibir sorrisos de banda larga no pedestal. Grandes vencedores, seja dito e escrito com todas as letras...
V - VULNERABILIDADE- Se no tempo das vacas gordas todos queriam estar no desporto, bastando lembrar a apetência das equipas de futebol pelo Girabola, o momento de recessão económica parece ter invertido o quadro. O ano deixou isto \"preto no branco\". Fazer desporto nos dias presentes já não está para todos. O terreno tornou-se vulnerável. Os próximos dias, registe-se,  podem ser de gritos...
X - XADREZ - Dizer que o desporto ciência vai de tanga seria algum exagero, se não um desatino. Mas é verdade que anda à baixa velocidade. Já não se fazem mestres internacionais à escala dos 80 e 90. Manuel Mateus, Alexandre Nascimento, Francisco Brinffel, Aristóteles Ramos, Abilio Ribeiro são nomes que marcaram positivamente o nosso xadrez. A estes seguiu-se aquela que se pode considerar a última geração de ouro, personificada por Adérito Pedro, Eugênio Campos, Amorin Âgnelo e Veldemiro Pina. Luciano Oliveira, há coisa de três ou dois anos, foi o último mestre internacional. No Africano de escolas por idades, disputado recentemente em Lipopo (África do Sul) o máximo que Angola obteve foi uma marca de Mestre Fide, por intermédio de José Borges. Resumindo, mais um ano termina sem consagração de um mestre internacional para o nosso xadrez.  Saudade dos tempos do \"Grande Prémio Cidade de Luanda\" do \"Grande Prémio Nocal\", do \"Grande Prémio os Persistentes\"
Z - ZONA DE INFLUÊNCIA - Dissipem-se as dúvidas, se é que alguma vez existiram. Luanda é, realmente, a zona de influência desportiva. Tem maior representatividade no Girabola, domina as selecções de futebol, basquetebol, andebol e hóquei em patins em termos de unidades. Como se não bastasse tem maiores e melhores infra-estruturas. Por ai fica difícil que se exija equilíbrio em termos de evolução com outras províncias. Em 2018 o quadro não sofreu qualquer inversão. A ver vamos o que nos reserva 2019...