Jornal dos Desportos

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Modalidades

A superação de um arqueiro

18 de Setembro, 2016

Matt Stutzman é patrocinado hoje por empresas multinacionais

Fotografia: AFP

Matt Stutzman está no Livro dos Recordes desde 2011. É o primeiro arqueiro do planeta a acertar o alvo a 283,47 metros de distância. O arqueiro não tem braços. O recorde anterior era de um atleta com todos os membros.

“Quando pensei em começar a praticar o tiro com arco, fui até o Google e procurei ‘como atira uma flecha sem os braços’. O resultado da busca foi zero”, conta Matt.

“Fui até uma loja de materiais desportivos e pedi um arco. O vendedor olhou e perguntou: ‘Como você vai fazer isso?’ Eu só pedi que entregasse o arco e iria virar-me”, disse. A saída foi inventar uma técnica. O norte-americano usa os pés, o ombro e a boca para fazer arremessar. Primeiro, segura o arco com o pé direito. Com o esquerdo, posiciona a flecha e leva a corda até ombro, prendendo em um gatilho que ele mesmo desenvolveu. Após fazer a mira, usa a boca para o disparo.

Em Londres'2012, conquistou a medalha de prata. No Rio de Janeiro, terminou em nono lugar, derrotado pelo brasileiro Andrey Castro nos quartos de final. A sua única dificuldade é com o tempo: como precisa fazer todas as acções com os pés, o limite de 20 segundos é, algumas vezes, muito pouco para preparar o tiro com calma.

“Sempre digo à minha mulher: se tivesse mais tempo, não perderia diante de ninguém”, frisou.

Foi justamente a família, que o levou ao desporto. Matt nasceu sem os braços e, desde criança, vira-se como pode. O maior exemplo é como escreve: enquanto você usa apenas uma das mãos para assinar um documento, por exemplo, ele consegue escrever com os dois pés, com os dois cotos e com a boca.

O problema é encontrar um emprego. Não era fácil. Há sete anos, pensou então em como colocar a comida na mesa. Morador de uma pequena cidade do interior do Iowa, a caça era uma alternativa. A escolha do arco e flecha foi pela época de caça maior.
“Na verdade, esperava apenas colocar carne no congelador”, disse.

Naquela época, Matt estava desempregado e cuidava da casa. Hoje, a tarefa de cuidar dos três filhos é da mulher, Amber. O arqueiro sem braços virou um sucesso nos EUA e é patrocinado por três multinacionais.

“Passo a maior parte do tempo a viajar e contar a minha história. Se consigo praticar um desporto, baseado nos membros superior, sem ter braços, qualquer coisa é possível. Para todo o mundo”, disse.


POTÊNCIA
A ascensão da China


A China lidera o quadro de medalhas dos Jogos Paralímpicos e caminha com facilidade para se tornar pela quarta vez a campeã da competição. Até ontem às 12h00, o país asiático tinha 217 medalhas, 91 a mais do que o segundo país mais vitorioso, o Reino Unido (126). As conquistas chinesas somam mais do que o dobro das dos EUA, conhecida superpotência desportiva (103 medalhas no total).

A rápida ascensão da China nos últimos 15 anos coincide com a escolha de Beijing em 2001 para sediar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2008, explicou à BBC Brasil Guan Zhixun, professor da Faculdade de Desportos e Saúde da Zhejiang Normal University.

A partir de então, disse, o governo chinês ampliou os investimentos nos desportos paralímpicos e também em propaganda para promover a valorização da competição na sociedade chinesa. O objectivo era recrutar atletas e garantir o sucesso dos Jogos no país, com um maior envolvimento do público.

Além disso, o governo da China viu a oportunidade de usar os Jogos Paralímpicos como uma "ferramenta educacional" para mudar a forma como as pessoas com deficiência eram vistas pela população, acrescenta o especialista.

"Isso foi uma novidade. O país não experimentou esse movimento antes, como países do Ocidente. A cultura tradicional da China via os deficientes como pessoas inúteis. Agora, os chineses começam a vê-los como pessoas que enfrentam desafios", assinala Guan.

O professor já foi treinador de duas modalidades paralímpicas: natação e bocha. Depois, fez um doutorado sobre Paralimpíada na China numa universidade australiana (University of Western Australia). Na sua avaliação, é difícil medir qual o impacto do sucesso da China na competição sobre o dia a dia dos deficientes no país, mas diz que houve avanços.

"Acredito que a atitude dos cidadãos em relação a pessoas com deficiência melhorou rapidamente nos últimos anos, depois da China ganhr três vezes os Jogos Paralímpicos", observou, em referência às vitórias em Atenas'2004), Beijing'2008 e Londres'2012.