Jornal dos Desportos

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Apito encravado

13 de Fevereiro, 2016

Juízes favoreceram apostadores nos jogos de nível Future na Ucrânia e Turquia

Fotografia: AFP

A limpeza dos balneários do ténis mundial chegou aos responsáveis que se encarregam de dar cumprimento aos regulamentos de jogo. Os casos de corrupção ganharam novos capítulos, após a disputa do primeiro Grand Slam do ano. A Federação Internacional da modalidade (ITF) baniu dois árbitros da actividade relacionada com o ténis. A revelação é do jornal britânico The Gardian.

O periódico britânico acrescenta que outros quatros juízes foram suspensos e estão sob  investigação. A suspeição é de que os quatro árbitros tenham colaborado com outros casos de corrupção, como atrasar o placar em 60 segundos para que os apostadores tivessem tempo de fazer os lances, porém, já com o resultado conhecido. Além disso, há a investigação à respeito de árbitros que mandavam informações do placar através do celular, antes de divulgarem a pontuação oficial.

A ITF revelou que não tornou a investigação pública, porque as regras mudaram apenas em Dezembro. A publicação também revela que apenas uma pequena parcela das autoridades do desporto tomou conhecimento do assunto.

Os envolvidos são da Ucrânia, da Turquia e do Cazaquistão. As intervenções foram em campeonatos no Leste Europeu.

SUSPEITO NEGA
ENVOLVIMENTO

O espanhol David Marrero pronunciou-se sobre as acusações que pesam sobre si e sua compatriota Lara Arruabarrena por terem entregue um jogo na primeira ronda da série de duplas mistas do Open da Austrália.

O jornal norte-americano The New York Times publicou uma reportagem na qual revelava um grande número de apostas na derrota da dupla diante de Andrea Hlavackova e Lukasz Kubot. Na oportunidade, a dupla espanhola perdeu por 2 sets a 0, com parciais de 6/0 e 6/3, em favorecimento de quem apostou no revés.

“É uma situação desconfortável e tenho muita vontade que tudo isso acabe logo. Ninguém gosta. Isso nunca aconteceu comigo. É preciso que se faça algo para resolver o problema, já que não desejo o que está a acontecer-me nem ao meu pior inimigo”, declarou Marrero.

O espanhol comentou que após perder a partida, dirigiu-se ao hotel onde estava hospedado para tomar banho, fazer as malas e ir ao aeroporto. O jornal The New York Times procurou o tenista para uma entrevista depois da derrota, mas Marrero ainda não estava informado sobre todo o escândalo à sua volta.

“Depois do jogo, o The New York Times procurou-me para uma entrevista e perguntaram-nos se sabíamos de um movimento algures. Não sabíamos de nada, porque acabávamos de sair da quadra de jogo. Fui ao hotel, tomei banho, vesti-me para ir ao aeroporto e só aí é que me dei conta de tudo pelas redes sociais”, explicou.

David Marrero já entrou em contacto com a ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) e com a Unidade de Integridade do Ténis para colaborar com as investigações. Também a alta cúpula do desporto anunciou em conferência de imprensa a criação de um painel revisor para fiscalizar a corrupção e recuperar a boa imagem do ténis.


FAVORECIMENTO
Lara Arruabarena nega envolvimento


A espanhola Lara Arruabarrena garantiu na quinta-feira que não tem nada a esconder e que nunca combinou qualquer resultado. A tenista defende-se das acusações de ter perdido propositadamente a partida da primeira ronda do torneio de duplas mistas do Open da Austrália.

"Antes de fazer qualquer armação, quebraria a raquete em mil pedaços com as minhas próprias mãos. Não sou uma vigarista. Nunca combinei resultado na minha vida. Estou aqui preparada para que me investiguem de cima abaixo, se for necessário. Não tenho nada a esconder", escreveu a atleta, em depoimento publicado pelo site "Tennistopic".  De acordo com o jornal americano "The New York Times", Arruabarrena e o compatriota David Marrero estão sob suspeita de terem perdido de propósito o jogo contra a tcheca Andrea Hlavackova e o polaco Lukasz Kubot, que terminou com placar de 2 sets a 0, com parciais de 6-0 e 6-3, em 49 minutos.

A publicação norte-americana publicou o vídeo com três pontos considerados suspeitos durante a partida. Além disso, o jornal afirma que as casas de apostas Pinnacle Sports e Betfair mostraram-se "surpresas" pelo montante de dinheiro apostado na derrota dos espanhóis.

"Perdemos porque foram melhores, muito melhores. Kubot e Hlavackova são campeões de Grand Slam e não precisam de apresentação maior do que essa", disse a tenista.

Arruabarrena contestou as acusações feitas pela publicação e garantiu que não aconteceu nada que pudesse ser considerado anormal durante a partida.

"É incomum que nos ganhem por um placar folgado em pouco tempo? É incomum que o meu parceiro tenha cometido duplas faltas? Quantos jogos terminam sem que ninguém cometa dupla falta? É estranho que se erre um golpe simples? Quantos erros impossíveis são vistos diariamente em qualquer torneio?", questionou.

A espanhola garantiu que "jamais" alguém se aproximou para propor a combinação de um resultado.

"Nunca vi isso, nunca ouvi nada disso. Certamente nunca fiz nada disso", garantiu.

Arruabarrena afirmou que vai trabalhar duro para evoluir na carreira. Por isso, sente tanto estar envolvida no escândalo de fraude no ténis mundial.

"Só eu sei o que me custa conseguir um lugar entre as 100 melhores do mundo. Só eu sei o caminho que percorri. Tenho valores e os meus pais ocuparam-se disso. Nunca trairia a mim mesmo dessa forma", garantiu a espanhol.


ARNAUD CLÉMENT
"Recebi oferta para favorecer o jogo"


O ex-tenista Arnaud Clément, que foi capitão da equipa de França na Taça Davis, afirmou que recebeu uma proposta para favorecer uma partida, no que ia ser mais um caso do escândalo de corrupção de manipulação do ténis denunciado pela emissora britânica "BBC" e pelo "BuzzFeed".

Em entrevista à rádio "France Info", Arnaud Clément destacou que o caso ocorreu na Rússia, quando jogava uma partida nocturna. Um "desconhecido" aproximou-se para fazer a proposta.

"Foi embora antes de concluir a oferta. Sempre se suspeitou disso. Quando vê algumas partidas, é certo que surgem dúvidas", acrescentou o ex-tenista que afirmou não estar surpreso pelas revelações de combinação de resultados.

"Se houver provas, espero que os jogadores sejam duramente punidos. O mundo do ténis ficava encantado de poder punir esses indivíduos", afirmou o ex-capitão da equipa francesa na Taça Davis.

MÁFIA E COMPANHIA

É impossível obter números oficiais sobre as actividades ocultas, por natureza, mas a maioria dos especialistas avalia em um trilião de euros a facturação global das apostas, sendo que 85 por cento são ilegais. É mais do que o dobro do tráfico de drogas (400 mil milhões de dólares, de acordo com a ONU). O mercado de apostas online surgiu na década de 90 com a expansão da internet, e a manipulação de partidas foi rapidamente vista como um meio de lucrar por organizações criminosas já activas no ramo das drogas ou da prostituição.

No início da cadeia, há sempre uma máfia com fundos para "investir" na corrupção de atletas pagos para perder de propósito. Baseada em Singapura, considerada a Meca das apostas online, a gangue de Dan Tan Seet Eng já foi acusada de envolvimento em casos emblemáticos no futebol, como o 'Calcioscommesse', na Itália, ou o escândalo de Bochum, na Alemanha (com manipulação de jogos da Liga dos Campeões).

Singapura é um lugar estratégico para onde as máfias chinesas migraram, "porque fala-se bem inglês, o idioma do futebol, e os Singapurianos sofrem menos controlos nas fronteiras", explica à AFP Chris Eaton, ex-chefe de segurança da Fifa, e director de integridade no International Center for Sport Security (ICSS), uma ONG baseada no Qatar.

Para corromper jogadores, as máfias precisam de parceiros nos locais onde ocorram os campeonatos mais lucrativos.


ELITE
O percurso das suspeitas
de manipulação de jogos


Os documentos obtidos com exclusividade pela BBC e pelo site BuzzFeed News revelam suspeitas de um amplo esquema de manipulação de resultados na elite do ténis mundial, incluindo em Wimbledon, um dos mais importantes torneios do desporto.

Na última década, 16 tenistas que já fizeram parte do selecto grupo dos 50 melhores do mundo foram por várias vezes mencionados pela Unidade de Integridade do Ténis (TIU, na sigla em inglês) sobre suspeitas de que tinham combinado os resultados das partidas.

Todos os tenistas incluindo vencedores de Grand Slam foram autorizados a continuar a competir. Desse total, oito participaram do Open da Austrália.
A BBC e o Buzzfeed decidiram não identificar os atletas porque sem acesso a seus registos telefónicos, bancários e de computador, não é possível determinar se participaram pessoalmente no esquema de corrupção.

A Unidade de Integridade do Ténis criada para fiscalizar o desporto afirmou ter tolerância zero à corrupção.

O conjunto de documentos encaminhado à BBC e ao Buzzfeed News inclui revelações de uma investigação iniciada em 2007 pela Associação de Profissionais do Ténis (ATP, na sigla em inglês).

O objectivo era investigar as actividades suspeitas no desporto, depois de um jogo entre o russo Nikolay Davydenko (ex-número 3 do mundo) e o argentino Martín Vassallo Arguello (ex-número 47).

Os dois tenistas foram inocentados das acusações, mas a investigação descobriu uma rede de apostadores associada a tenistas da elite do ténis.

O presidente da ATP, Chris Kermode, disse à BBC estar ciente de que há manipulação de resultados no ténis, mas alega que o esquema acontece "a nível extremamente baixo".

CENTENAS
DE MILHARES
DE DÓLARES

Os documentos obtidos pela BBC mostram que a investigação descobriu as casas de aposta na Rússia, no norte da Itália e na Sicília, que movimentavam centenas de milhares de dólares em partidas que os investigadores dizem ter sido combinadas. Três delas ocorreram em Wimbledon.

Num relatório confidencial à ATP, em 2008, a equipa responsável pelo inquérito informou que 28 tenistas envolvidos nessas partidas deviam ser investigados. No entanto, não houve prosseguimento da investigação.

A ATP introduziu um novo código anti-corrupção em 2009, mas depois de ser aconselhada por advogados foi informada de que eventuais casos antigos de corrupção não podiam ser julgados.

"Como resultado, nenhuma investigação sobre tenistas mencionados no relatório de 2008 foi aberta", afirmou um porta-voz da TIU.