Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Modalidades

Bienos em dia de Victória

José Chaves no Cuito - 16 de Agosto, 2015

A sede social do Vitória Atlético Clube do Bié comporta espaços que servem de fontes de receitas para financiar o futebol e andebol

Fotografia: José Chaves

Em dia de celebração da elevação do distrito de Silva Porto a cidade, os bienos recordaram ontem o momento de constituição de um novo clube: Victória Atlético Clube do Bié. No longínquo ano de 1932, no dia 15 de Agosto, as emoções de um pequeno grupo de bienos atingiram o pico. Entre as ovações, um nome soou alto: Victória Atlético Clube do Bié. Com nostalgia, as conversas giraram à volta daquele que foi um rival do Sporting do Bié.

Passados oitenta anos, a história do clube está intrinsecamente ligado à cidade de Silva Porto, actual Cuito. A agremiação desportiva viveu as mesmas intempéries e as mesmas alegrias. Crescem juntos, de braços dados e estão condenados a nunca se desligar.

Hoje, é um dos clubes mais populares da província do Bié, com muitos adeptos e simpatizantes. Os “encarnados” carregam uma tradição desportiva rica de história. Com a idade avançada, o Victória do Bié procura resgatar a mística perdida. O “jogo” não está fácil, apesar de possuir uma sede social localizada na zona nobre da cidade de Cuito.

Com uma extensão de 4500 metros quadrados, na Avenida principal, a infra-estrutura pintada com as cores tradicionais do clube, vermelho e branco, é pomposa e atrai quem visita pela primeira vez a localidade.

Reabilitado pelo governo provincial do Bié, a infra-estrutura possui escritórios, salão para actividades culturais e outros espaços verdejantes, que servem para acolher diferentes actos. O património do clube estende-se a um estádio de futebol com capacidade de 10 mil pessoas, um campo polivalente para os desportos de sala como andebol, basquetebol, voleibol, futebol de salão, hóquei em patins, entre outras modalidades, e acolhe 500 pessoas sentadas. O património do clube é de fazer inveja a muitos clubes angolanos.

A boa acomodação dos atletas, treinadores e dirigentes permitiu ao Victória Atlético Clube do Bié coleccionar dezenas de troféus e medalhas conquistados nas provas locais e nacionais, com destaque nas disciplinas de atletismo, andebol, basquetebol e futebol.

PATROCINADOR
A falta de um patrocinador oficial dificulta o funcionamento do Victória Atlético Clube do Bié. No encalço de uma entidade, a direcção não cruza braços. Diálogo e comunicação fazem o dia-a-dia dessa equipa. A esperança mantém-se de pé até que algum dia, um ou mais patrocinadores assumem os custos de diferentes modalidades.

Entre o sonho e o desejo, a curta distância é preenchida por outras fontes. Para sustentar o clube, o arrendamento de salão para eventos culturais constitui a principal fonte de receitas que, às vezes, ajudam para participar de uma prova nacional ou provincial.

Na história do clube há registos que dão conta da presença da direcção provincial do Comércio como um dos primeiros patrocinadores, após a independência nacional, a 11 de Novembro de 1975.

O Girabola é uma marca angolana que carrega o nome do Victória Atlético Clube. Em 1979, na sua primeira edição, a equipa biena participou com brio e humildade na competição disputada por séries. O primeiro golo da história do Girabola foi apontado por Minguito, o malogrado atleta do Victória. A passagem efémera na prova fica marcada pela descida de divisão no ano seguinte para não mais voltar à fina flor do futebol nacional.

Outros craques pintaram de ouro o nome do Victória Atlético Clube do Bié. Laurindo envergou a camisola vermelha e branca durante muitos anos e mais tarde transferiu-se para o Futebol Clube do Porto. Foi o único atleta do clube que soube honrar a imagem dos “vitorianos” além fronteiras.

Durante as décadas de 80/90 do século XX, o Victória Atlético Clube participou diversas vezes no Torneio de Apuramento ao Girabola e na fase nacional da Taça de Angola. No seu palmarés, conta com vários títulos de campeão provincial de juvenis, de juniores e de seniores.

Em 1992 a Direcção do Comércio deixou de ser o patrocinador oficial. Desde então, constatou-se a fuga de atletas, treinadores e dirigentes. As dificuldades aumentaram a cada dia.

APOSTA NA FORMAÇÃO
Para dar azo à renovação de um dos clubes mais tradicionais de Angola, a direcção liderada por Joaquim Alfredo contratou um treinador de nacionalidade sérvia para dirigir a escola de formação de futebolistas. O projecto visa a criação de uma equipa sénior com talentos internos. A apresentação do treinador aos sócios e adeptos  ocorre nos próximos dias.


FINANÇAS
Autonomia
está na forja


Para autonomia financeira do clube “encarnado” do Bié, o presidente do Vitória Atlético Clube, Joaquim Alfredo, também conhecido por Novato, assegura que a sua direcção identificou diferentes áreas com intervenção urgente.

“Vamos dar um novo aspecto ao campo de futebol, numa primeira fase, depois vamos construir uma piscina e um escritório para albergar a sede social do clube”, disse.

Joaquim Alfredo esclarece que o estádio de futebol  merece vedação em todo o perímetro e, em especial, o rectângulo de jogo.

Joaquim Alfredo promete aos sócios, adeptos e simpatizantes modernizar as infra-estruturas tão logo consiga assinar contrato com algum patrocinador. A estratégia cinge-se na criação de condições para a captação de receitas.

“Defendemos que o clube tenha fontes de rendimentos e precisamos apostar em infra-estruturas hoteleiras e outras”, disse o dirigente.

O projecto visa dotar o clube de diversos serviços para a sua sustentação e permitir o relançamento de diversas modalidades desportivas com realce para o futebol, andebol e voleibol.

Por força da guerra civil, a agremiação desportiva já não é a mesma. Entre 1993 e 2006, as infra-estruturas encontravam-se abandonadas. A guerra destruiu todo o parque imobiliário e algumas pessoas mostraram-se cépticas sobre a "reencarnação" do clube.

Houve mesmo quem apontou a extinção.

O esforço abnegado de alguns dirigentes e o apoio do governo provincial do Bié, que reabilitou o salão de eventos culturais e parcialmente o estádio de futebol, bem como a construção de um campo polivalente, deram ao Victória Atlético Clube a esperança de dias melhores.

A utilização permanente dos mesmos levou as infra-estruturas à primeira forma: degradação total.


INFRA-ESTRUTURAS
Sede social do clube cai aos pedaços


O velho estádio do Victória Clube do Bié clama pela reabilitação. As feridas profundas ainda fazem escorrer lágrimas a quem o viu no passado. Entre o aparente “rosto bonito”, o complexo desportivo está degradado. A reabilitação deve ser profunda e passa pela vedação com arame ou construção de muro, protecção de rectângulo de jogo, arrelvamento, colocação de torres de iluminação e construção de bancadas laterais.

O campo era o orgulho dos futebolistas bienos e dos citadinos. Hoje, é motivo de conversas de bares e de quintais. Com lamentações, os rostos enchem-se de desesperança. O piso está irregular e sem relva.  O estádio do Victória Atlético Clube tem a capacidade de cinco mil espectadores e acolheu nas décadas 70 e 80 do século XX jogos dos campeonatos provinciais de juvenis, juniores e seniores, torneios inter-provinciais, de velhas guardas, bem como partidas da fase nacional da Taça de Angola e zonal de apuramento ao Girabola. Reza a história que a 29 de Agosto de 1949, o Sport Lisboa e Benfica desfilou o seu perfume numa partida realizada no estádio do Victória do Bié.

Para não “morrer” e desaparecer dos anais do futebol nacional, em particular da cidade de Cuito, o estádio recebe actualmente jogos do campeonato provincial de iniciados e juvenis do Girabairro e de torneios inter-provinciais.

A sede social é outro empreendimento que a qualquer momento pode desaparecer. Está em estado avançado de degradação. A recuperação é “inviável”, segundo Joaquim Alfredo. Para inverter o quadro, o dirigente aponta a construção de uma nova sede social.

“As infra-estruturas estão totalmente degradadas e requerem intervenção urgente. Infelizmente, o clube não tem dinheiro para responder a necessidade. Esperamos a ajuda de todos e do Governo. Pela avaliação feita, temos de erguer uma nova sede do clube”, disse.

Novato, como também é conhecido o presidente do clube, descreve que algumas partes da estrutura que suporta a sede social pode desabar tão logo “São Pedro” abra as portas do céu para chuvas. A situação obriga parcerias urgentes para “recuperar” o imóvel ou a demolição total e construção de uma nova. “A nossa sede está muito mal”, disse o presidente do Victória Clube do Bié.