Jornal dos Desportos

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Campeo paracuca

Francisco Cavalho - 24 de Agosto, 2019

Campeo africano enriqueceu a galeria de trofus da Eddiebauer Gym

Fotografia: Jornal dos Desportos

Com o troféu na mão no pódio do Hotel CCTA, o choro de felicidade de Danilo de Carvalho não foi compensado com lágrimas. O campeão africano da categoria Classic Fisic 1,71m revela uma lembrança: "Foi a melhor sensação do mundo pisar aquele palco continental. Bastava-me estar nele. Não me faltava mais nada".
Uma razão está por detrás da humildade do jovem. Chegar ao pódio representava o mérito. Era uma conquista. Mas Deus tinha outros propósitos. As preces dos progenitores Hélder de Carvalho e Eufrasina de Carvalho foram ouvidas do alto. O céu caiu após o anúncio do júri. Era a confirmação da festa no seio da equipa. O treinador e demais colegas acreditaram na vitória de Danilo e festejavam em surdina.
"Todo o sofrimento estava compensado. A aposta do meu pai, amigo, mestre e treinador Eddiebauer estava ganha. Uma vitória merecida por tudo que faz para mim", dedicou-lhe.
Danilo de Carvalho empenhou-se para a conquista do título. A vitória custou-lhe alto preço. Um preço assustador. A dieta era de sacrifício. Na véspera do evento, o treinador levou-o ao ginásio do mestre Pedro Pereira para sessões de treino. Estava acima do peso ideal e criou-se a descrença no grupo.
"Fui chorar ao colo da minha noiva Paulina Lourenço Domingos à ilha de Cabo. Corri debaixo de sol abrasador como maluco e, num só dia, perdi cinco quilogramas", revelou.
A desfiguração do corpo \"obrigou\" os mais próximos chamarem-no paracuca, em referência a um doce (ginguba e açúcar) vendido em papel de forma de cone nas zonas suburbanas de cidades de Angola. A parte torácica era maior que as pernas. A zombaria toma proporções alarmantes, desde a escolha do atleta (ver peça à parte).
Num determinado momento, a baixa estima toma conta do atleta. A estratégia definida por Edir Eugénio Guimarães Fernandes, \"mestre e treinador Eddiebauer", não tinha merecido apoio de outros agentes. As pernas finas e o peito magro de Danilo de Carvalho eram indicadores de derrota.
Determinado a vencer, Danilo contraria os adversários. O segredo para chegar ao pódio era o trabalho. Todos os dias, às 04h00 estava de pé. Os treinos eram bi -diários: às 05h00 e às 15h30.
"As minhas sessões incidiam sobre os músculos mais deficientes, mormente, os da perna e peitoral por serem os mais cruciais no fisiculturismo. Tudo dependia de mim. Obedeci aos conselhos do treinador. Em um mês, já havia simetria. O peito e a coxa aumentaram de tamanho\", disse.
A três dias da competição, retirou até a água da dieta. O suco de limão era a preferência no final de cada refeição. A penitência pelo sucesso assustou os progenitores que temiam pelo pior na saúde do filho (ver peça a parte).
Danilo estava com carências financeiras. A situação complicou-se quando os larápios o assaltaram à entrada do ginásio e surripiaram-no os parcos 50 mil kwanzas que se destinavam à inscrição no evento africano. Sem dinheiro e sem equipamento de apresentação na véspera do evento continental, o jovem temia a desistência.
Perante o facto, os colegas de treino e outras pessoas singulares juntaram uma "vaquinha". O dinheiro serviu para comprar a sunga (calções curtos) e tinta.
"No dia da competição, não tinha sunga para me vestir e comprei-o na zunga (rua) na ala das crianças. A vendedora e outras senhoras riram-se de mim, quando o escolhi", lembrou com sorriso.

HÉLDER CARVALHO
“A dieta deixou-me preocupado”


Em cada rua do bairro Valódia e do São Paulo, distrito de Sambizanga, Danilo de Carvalho recebe o carinho de pessoas. São felicitações que o deixam famoso. De anónimo, passou ao estrelato. A vida de um campeão africano.
De fato olímpico azul com letras brancas, Danilo de Carvalho respira alegria. A exibição do equipamento da equipa é motivo de júbilo.
"Comprei-o (fato olímpico) com dinheiro da vaquinha feita pelos colegas do clube", revelou.
A felicidade de Danilo é contagiante. No rosto do progenitor está espelhada a satisfação pela conquista. Hélder de Carvalho vê uma parte do sonho realizado: ter um filho campeão africano. A parte que falta é exibir a medalha ao peito.
Na qualidade de progenitor, Hélder de Carvalho sempre se opôs à prática de fisiculturismo.
"Nunca concordei, porque sempre foi um filho violento e enveredar por esse desporto, seria torná-lo mais agressivo", justificou.
A pouco dias do evento, Hélder de Carvalho e esposa sofreram.
"A dieta de Danilo foi rigorosa, violenta e deixou-nos preocupado. Dormia pouco. Acordava às 04h00 para correr e ficou transfigurado. Tive medo", revelou.
Sem meios para o convencer a desistir, Hélder de Carvalho e esposa recorreram ao soberano.
"Dobrámos os joelhos (eu e a minha esposa) e orámos a Deus para que o nosso filho ganhasse o troféu. Felizmente, fomos ouvidos e ganhou o título de campeão africano", asseverou.