Jornal dos Desportos

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Corrida ao ridículo

13 de Novembro, 2015

A campeã olímpica Mariya Savinova é uma das atletas que a Comissão independente quer ver radicada das pistas

Fotografia: AFP

O escândalo de doping no atletismo russo está a tirar o sono ao Presidente da República Federativa da Rússia. Vladimir Putin quer tomar medidas que visem limpar a imagem de um país que enfrenta problemas com a comunidade internacional.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, defende uma investigação interna e a aplicação de sanções individuais no âmbito das acusações de doping organizado que abalam o atletismo russo.

O presidente russo afirmou, numa reunião com as autoridades desportivas em Sochi, cidade que recebeu os Jogos Olímpicos de inverno de 2014, que o país “tem de fazer tudo” para se “livrar do problema” denunciado pela Agência Mundial Antidopagem. A instituição recomendou à Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) a exclusão da Rússia de todas as competições internacionais, nomeadamente, os Jogos Olímpicos do Rio'2016.

“Devemos conduzir a nossa própria investigação interna”, disse Putin.

O Presidente russo apelou ainda aos responsáveis desportivos para que demonstrem “a maior cooperação aberta e profissional com as autoridades anti-doping internacionais”.

Putin defendeu que as sanções devem ser aplicadas individualmente, tendo em conta que “os atletas que nunca recorrerem ao doping não devem sofrer por aqueles que quebraram as regras”. O Chefe de Estado russo sublinhou ainda que “o problema não existe apenas na Rússia”.

Um relatório da Comissão Independente (CI) da Agência Mundial Antidopagem (AMA), tornado público na última segunda-feira, recomenda a suspensão da Federação Russa de Atletismo, por práticas de doping, assim como a retirada da acreditação ao laboratório de Moscovo, cujo director foi responsável pela destruição de 1.417 amostras consideradas suspeitas de práticas dopantes.

O documento elaborado pela comissão acusa também, entre outras coisas, os serviços secretos russos de intimidação dos responsáveis pela análise de amostras recolhidas nos Jogos Olímpicos de Sochi e recomenda, igualmente, a erradicação de cinco atletas e cinco treinadores. Entre os atletas que a comissão quer ver afastados do atletismo está Mariya Savinova, campeã olímpica dos 800 metros nos Jogos de Londres'2012, e Ekaterina Poistogova, bronze na mesma categoria. A agência mundial criou uma comissão de três elementos, chefiada por Dick Pound, justamente com o objectivo de investigar os casos de doping, trazidos a público por uma estação televisiva alemã em Dezembro de 2014.

De acordo com os responsáveis da Comissão, é muito claro que os casos de doping no atletismo russo “não poderiam ter acontecido” sem o conhecimento e consentimento do governo russo.

A AMA quer agora que a Rússia seja impedida de estar nas provas de atletismo dos Jogos do Rio'2016, considerando que os resultados de Londres'2012 foram “sabotados” pela presença de atletas dopados.

O presidente da IAAF, o britânico Sebastian Coe, vai propor ao conselho directivo que considere a recomendação da AMA para sancionar a federação russa, numa penalização que pode levar à suspensão total e retirada dos atletas russos de futuras competições da IAAF.

Este caso já levou à demissão do chefe do laboratório anti-doping da Rússia, Grigory Rodchenkov.



AOS ATLETAS DOPADOS
Rússia pede penalização dura


O Comité Olímpico da Rússia (COR) apelou à autorização dos atletas daquele país, que não estejam implicados em casos de doping, a poderem competir sem quaisquer condicionalismos e exige "sanções duras" aos prevaricadores.

“O COR pede à Agência Mundial Antidopagem (AMA) e à Federação Internacional de Atletismo (IAAF) que tenham em consideração o direito dos atletas em participar nas competições internacionais”, informou o organismo russo, em comunicado.

Na mesma nota, a autoridade desportiva russa mostrou-se disposta a cooperar com todas as organizações internacionais na luta contra o doping já que “essa é a única forma de defender a verdade desportiva”.

Por outro lado, o COR sustenta que devem ser castigados “com a máxima dureza” os desportistas que tenham usado substâncias proibidas.

O COR “apoia em pleno os esforços do Comité Olímpico Internacional, da AMA, da comunidade desportiva em geral e os órgãos de Estado russos na sua luta contra o doping”.

O ministro dos desportos daquele país, Vitali Mutkó, propôs que a AMA apresente um roteiro para combater o doping entre os atletas russos, ameaçados de impedimento de participação nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

AMOSTRAS
NA ESPANHA

A Federação Internacional de Natação (FINA) garantiu que mandou analisar em laboratórios espanhóis e alemães 80 por cento das amostras recolhidas na Rússia, depois de saber que a Agência Mundial Antidopagem (AMA) estava a investigar o país.

Em comunicado, a FINA indica que as 457 amostras de urina e as 188 de sangue recolhidas durante os Mundiais disputados em Agosto, em Kazan, foram analisadas na Rússia, “sob supervisão de observadores independentes de laboratórios de Barcelona e Londres”.

A FINA assegura que “cada uma dessas amostras vai ser armazenada em Barcelona”.

O uruguaio Julio Cesar Maglione, presidente da FINA, mostrou-se “triste” com as conclusões da Comissão Independente da AMA que trouxe a público um escândalo de doping no atletismo russo e colocou em causa o laboratório de Moscovo, que perdeu a acreditação.


MINISTRO RUSSO
Acusações mancham o país


O ministro do Desporto da Rússia, Vitaly Mutko, afirmou que as acusações de doping sistemático no atletismo russo e o pedido de afastamento dos Jogos Olímpicos Rio2016 são uma forma de manchar o nome do país.

“Essa possibilidade existe, porque alguns beneficiam por retirar um adversário directo e outros por manchar a imagem do país”, disse Mutko, à agência RIA Novosti. Mutko acrescentou que os atletas honestos não deviam pagar por aqueles que “quebraram algumas regras”.

Vitaly Mutko reúniu-se ontem com o presidente russo, Vladimir Putin, na sequência de um relatório da Comissão Independente da Agência Mundial Antidopagem (AMA), que fala de uso sistemático de doping no atletismo russo, prática que tinha o apoio estatal.

Na terça-feira, o governo russo tinha exigido provas concretas que suportem as alegações de existência de doping generalizado no atletismo russo.
“Se existirem acusações, elas têm de ser sustentadas com prova. Até que apresentem alguma prova é difícil aceitar quaisquer acusações, na medida em que carecem de fundamento”, disse à imprensa Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin.


Cronologia dos factos

O escândalo estatal de doping na Rússia abalou o desporto mundial e promete repercutir nas próximas semanas. O caso pode tornar-se no maior alvoroço desde a criação da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês), em 1999.

As primeiras consequências foram sentidas. O laboratório de Moscovo, acusado de ter acobertado testes positivos, perdeu a licença e não pode, até reaver a certificação, conduzir testes antidoping.

O COI (Comité Olímpico Internacional) afirmou que vai pedir à IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo) a fim de abrir processo disciplinar para punir, até mesmo com cassação da medalha olímpica, atletas russas implicadas no caso.

INICIO DA
INVESTIGAÇÃO

A Wada (Agência Mundial Antidoping) decidiu criar uma Comissão Independente para investigar as irregularidades denunciadas no documentário "Documento Secreto: Como a Rússia faz os seus vencedores", levado ao ar pelo canal alemão ARD em Dezembro de 2014. Richard Pound, ex-presidente da WADA e ex-vice-presidente do COI, foi escolhido para chefiá-la. Outros componentes da Comissão são Gunter Younger e Richard McLaren. Os três coordenaram um grupo de investigação, cujos trabalhos tiveram início no final do último ano.

A produção baseou-se em depoimentos de um ex-funcionário da Agência Antidoping da Rússia e da sua mulher Yulia Stepanova, uma atleta internacional de 800 metros. Ambos contaram que o sucesso do seu país no atletismo só era possível a uma rede que incentivava a dopagem em larga escala.

Yulia gravou diversas conversas e vídeos com outras atletas que confessaram ou indicaram terem-se valido de substâncias ilícitas para obter resultados. Tudo serviu como evidências para a investigação, que posteriormente, também entrevistou alguns dos acusados.

O grupo, que reportava a WADA, entrevistou as autoridades, técnicos e atletas russas, visitou laboratórios dos países e obteve dados de exames antidoping. Por fim, concebeu o relatório de 323 páginas que foi apresentado em Genebra, na Suíça, na última segunda-feira. A investigação durou cerca de 12 meses.

O documento recomenda a expulsão do atletismo russo de todos os eventos internacionais, inclusive, dos Jogos Olímpicos do Rio'2016, até que se regularize o controlo anti-doping. Também afirmou que 1.417 amostras foram destruídas pelo laboratório de Moscovo com a anuência do director do local, Grigory Rodchenko. O laboratório de Sochi, palco dos Jogos Olímpicos de Inverno'2014, teve presença constante de agentes de serviços secretos FSB que teriam intimidado o grupo de investigação. Além disso, a agência antidoping russa (RUSSADA) foi conivente com ilicitudes. Pound indicou que "seria inconcebível" o ministro do Desporto da Rússia, Vitaly Mutko, não ter conhecimento dos acontecimentos.

Até agora cinco nomes de atletas femininas foram divulgadas: Mariya Savinova, medalha de ouro nos 800 metros em Londres'2012; Ekaterina Poistogova, bronze na mesma prova; Anastasiya Bazdyruva, Kristina Ugarova e Tatyana Myazina. Além delas, cinco técnicos estão implicados. A comissão independente alerta que mais competidores estão envolvidos.

Na terça-feira, o laboratório de Moscovo teve a licença cancelada pela WADA por inaptidão de proceder análises de acordo com o padrão internacional. A Interpol disse que vai coordenar uma acção global contra a corrupção e doping.

O presidente da IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo) deu até este final de semana para a Federação Russa responder às acusações. A IAAF vai ter uma reunião de Conselho no final do mês em Monte Carlo, onde deve deliberar sobre uma sanção aos russos.