Jornal dos Desportos

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Modalidades

Corrupção e doping agitam o atletismo mundial

16 de Janeiro, 2016

Quem é quem no escândalo, que sacode o atletismo desde Novembro e que colocou a modalidade em profunda crise

Fotografia: AFP

Desde o ex-presidente da IAAF, Lamine Diack, até aos atletas que ligaram o sinal de alerta: quem é quem no escândalo, que sacode o atletismo desde Novembro e que colocou a modalidade em profunda crise, à meses do início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

O canadiano Dick Pound, presidente da Comissão de investigação independente da Agência Mundial de Antidoping (Wada), apresentou na quinta-feira em Munique, a segunda parte do relatório da entidade e deu mais dados sobre a situação dos distintos agentes do caso.

Lamine Diack

Figura chave: Foi presidente da Federação Internacional de Atletismo de 1999 a 2015. Reeleito quatro vezes, todas as irregularidades não eram possíveis de serem realizadas, sem o conhecimento da cúpula de dirigentes da IAAF, com Diack no comando,conforme a Wada. O senegalês, é um autêntico camaleão e dedicou a vida a diversas funções diferentes (atleta, técnico, prefeito de Dacar, deputado, dirigente desportivo), transitou sem problemas do desporto à política e vice-versa. Conforme declarações de Diack à justiça francesa, o dirigente pode ter financiado parte da campanha do actual presidente de Senegal, Macky Sall, com dinheiro procedente da Rússia. Diack foi acusado por "corrupção e lavagem de dinheiro".

Papa Massata Diack
e seu irmão Khalil

Papa Massata Diack, ou “PMD”, foi encarregado do marketing na IAAF e de acordo com  os investigadores franceses foi o responsável pelas principais manobras para esconder casos de doping, algo que rendeu mais de um milhão de euros. Afastado da vida desportiva pela Comissão de Ética da IAAF, PMD, conhecido pelo amor ao luxo, refugiou-se no Senegal para escapar à justiça. O seu irmão Khalil também está envolvido na chantagem da atleta turca Asli Alptekin.

Sebastian Coe

É o novo presidente da IAAF, desde que sucedeu Lamine Diack, em Agosto. Dick Pound estimou que o ex -bicampeão olímpico dos 1500 metros (1980 e 1984) é a pessoa mais indicada para liderar as reformas na Federação Internacional. "A IAAF dispõe de uma oportunidade formidável", afirmou Pound, que considerou que Coe não sabia de nada da corrupção nos anos Diack. Em 8 de janeiro, Pound foi menos clemente com Coe, lembrou que o britânico foi vice-presidente da IAAF entre 2007 e 2015.

Valentin Balakhnichev

Foi presidente da Federação Russa de Atletismo (Araf) e também tesoureiro da IAAF. Balakhnichev, era o responsável russo, pelo esquema de corrupção. Como PMD foi suspenso do desporto. Na sua defesa, Balakhnichev afirmou que existe um complot contra a  Rússia.

Lilya Shobukhova
e Asli Alptekin

A revelação do escândalo deve-se, em parte, à maratonista Lilya Shobukhova e à meio-fundista turca Asli Alptekin. Acusadas de doping - Alptekin, foi-lhe retirada a medalha de ouro olímpica dos 1500 metros em Londres-2002-, as duas atletas acabaram por colaborar com as investigações e ligaram o sinal de alerta.

Gabriel Dollé
Responsável pela luta antidoping da IAAF, de 1994 até sua aposentação em 2014, Gabriel Dollé de 74 anos, sempre teve entre os seus colegas franceses a imagem de um médico rigoroso e incorruptível. Os investigadores da receita francesa que o indiciaram, suspeitam que recebeu 200.000 euros para encobrir casos de doping. Em sua posse, foram encontrados 87.000 euros na residência de Dollé, em Novembro, conforme a revista francesa L'Express. Paralelamente, o primeiro relatório da Comissão comandada por Dick Pound, sublinha a estranha lentidão de Dollé em divulgar os resultados de exames em alguns casos de doping de atletas russos, entre eles da maratonista Shobukhova. Dollé, informado em finais de 2011 do carácter mais que suspeito do passaporte biológico da atleta, atrasou o procedimento de testes até Dezembro de 2012, para permitir que Shobukhova participasse nos Jogos Olímpicos de Londres. Algo similar pode ter acontecido com o atleta de marcha Vladimir Kanaykin, que também apresentava passaporte biológico anormal.

Essar Gabriel
Secretário -geral da IAAF de 2011 a 2015, foi citado na segunda parte do “relatório Pound” como um dos participantes da famosa reunião de 2012, que resultou num aumento dos valores dos direitos de televisão do Mundial de Moscovo-2013, que passou  de 6 a 25 milhões de dólares. Gabriel, ex-director-geral do Comité de Organização do Mundial de Pais-2003 e director dos Jogos Olímpicos Juvenis no Comité Olímpico Internacional (COI), estava oficialmente encarregado do marketing da IAAF, mas o relatório da Comissão enfatiza que foi PMD que conseguiu o acordo "milagroso" com o banco russo VTB, para poder multiplicar em quatro vezes os direitos televisivos.


CORRUPÇÃO E DOPING
Coe lamenta situação actual


A corrupção é parte integrante" da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), cujos dirigentes "não podem ignorar a amplitude do doping", estima a comissão de investigação da Agência Mundial Antidoping (Wada),  num relatório consultado na quinta-feira pela AFP.

Na segunda parte do presente relatório, divulgado em conferência de imprensa em Munique,  contou com a participação de Sebastian Coe, presidente da IAAF, a comissão de investigação considera que a corrupção "não pode ser atribuída somente a algumas maçãs podres que actuam de forma isolada" e estima que a IAAF não "foi firme com uma série de países, incluindo a Rússia".

A IAAF foi presidida até Agosto, pelo senegalês Lamine Diack, que foi sucedido pelo britânico Sebastian Coe, anteriormente vice-presidente.

Em conferência de imprensa, Coe lamentou a situação do atletismo, que de acordo com o britânico, precisa de recuperar a confiança do mundo. "Isso vai levar muito tempo e será um processo doloroso", afirmou.

"Sou grato à Comissão pela investigação e recomendações. A corrupção desvendada é absolutamente repugnante. Não podemos mudar o passado, mas estou determinado a tirarmos lições para não cometer os mesmos erros", continuou Coe.

"Muitas das recomendações da Comissão já fazem parte das medidas que anunciei em 5 de Janeiro, mas precisamos urgentementede  incorporar essas últimas no programa de reforma", concluiu o ex-bicampeão olímpico nos 1500 m (1989 e 1984).

O relatório, aponta também o papel desempenhado por Lamine Diack e seus filhos, Papa Massata e Khalil: "O Conselho da IAAF não podia estar ciente do nível de nepotismo dentro da IAAF", criticou.

DOPING
Agência dos Estados Unidos reclama a exclusão de russos

O presidente da Agência Antidopagem dos Estados Unidos (USADA), Travis Tygart, defendeu na quinta-feira a exclusão da Rússia nas provas de atletismo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, após as revelações feitas pela Agência Mundial Antidopagem. “Estamos à poucos meses dos Jogos e é muito tarde, mesmo se eles (autoridades russas) afastarem todos os que são responsáveis. É muito tarde, para garantir que aqueles que participaram no programa de “doping” apoiado pelo Estado, estejam limpos”, afirmou Travis Tygart ao jornal New York Times.

Em Novembro, uma comissão de inquérito independente mandatada pela Agência Mundial Antidopagem (AMA), publicou um primeiro relatório em que dava conta de um processo de “doping” organizado no atletismo russo, com a Agência Russa Antidopagem (RUSADA) a esconder casos positivos de atletas daquele país. Em sequência disso, a RUSADA e o laboratório de análises de Moscovo foram declarados não conformes ao Código Mundial Antidopagem, e a IAAF suspendeu a Rússia de todas as competições de atletismo, abra a porta a uma eventual ausência dos atletas russos nos próximos Jogos Olímpicos do Rio, em Agosto.

As declarações de Travis Tygart chegam poucas horas depois da publicação da segunda parte desse relatório sobre dopagem no atletismo, com a AMA a revelar a amplitude da corrupção no seio da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), que permitiu dissimular os testes positivos dos atletas russos.

A AMA constatou o “fracasso total” da Associação das Federações Internacionais de Atletismo (IAAF), na luta contra o “doping” e a corrupção na segunda parte das conclusões, apresentadas na quinta-feira em Munique que considera Lamine Diack, antigo presidente da IAAF,  o principal responsável por actos de corrupção e encobrimento de casos.

O primeiro relatório da comissão, presidida pelo canadiano Dick Pound, levou à suspensão da Rússia de todas as competições de atletismo.

O relatório indica, que “existiu um colapso total das estruturas directivas e uma absoluta falta de responsabilidade,” denuncia a falta de vontade política para confrontar a Rússia com a verdadeira dimensão do problema.

O documento refere, que era impossível que os órgãos de cúpula da IAAF, “não percebessem a dimensão do problema de doping e da violação de regras”.

O escândalo foi desencadeado por um documentário da cadeia de televisão ARD, transmitido em Dezembro de 2014, com o título “O 'doping': estritamente confidencial. Como a Rússia cria os seus campeões”.

A reportagem apresentava diversos documentos e gravações feitas, sem conhecimento dos protagonistas, denunciou indícios de uso sistemático de “doping” com a conivência da Federação Russa de Atletismo e do Governo do país. Perante as suspeitas, a AMA criou a comissão independente para as investigar, que confirmou as suspeitas e as considerou "apenas a ‘ponta do icebergue’”. A ARD apresentou depois uma nova reportagem, que voltou a abalar o atletismo mundial, com o título “O 'doping': estritamente confidencial. As sombras do atletismo”.

Neste caso, denunciou alegados actos de corrupção, praticados por vários países, entre os quais o Quénia.



ATLETISMO
Federação britânica pretende apagar registos

A Federação Britânica de Atletismo (UKA), propõe que os records mundiais que segundo ela já não são credíveis, sejam apagados dos registos naquilo que pretende que seja “Um Manifesto para um Desporto Limpo”.

“A integridade do atletismo, foi desafiada como nunca antes, em 2015. Os atletas limpos e os adeptos do desporto foram deixados mal. Acreditar no desporto, atingiu o ponto mais baixo em décadas”, disse o presidente da UKA, Ed Warner.

Para o responsável, é preciso estar preparado para fazer tudo o que é necessário, para devolver a credibilidade à modalidade: “maior transparência, sanções mais duras, suspensões mais longas, e até pôr a zero o contador dos records mundiais, para iniciar uma nova”.

Em 2015, a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF), esteve envolvida em vários escândalos de doping e a Rússia foi suspensa devido ao envolvimento de altos responsáveis em encobrirem casos de dopagem.

O Quénia também esteve no centro de polémica, na quinta-feira é esperado um novo relatório da Agência Mundial Antidopagem (AMA), que pode trazer novas situações a público.

No seu manifesto, a Federação Inglesa sugere também à AMA, regras mais apertadas nas substâncias e um registo público de todos os testes e um passaporte biológico válido para todos os atletas nos Mundiais”.

“A UKA acredita, que chegou a altura de reformas radicais, isto se quisermos devolver a confiança no desporto”, adiantou o presidente da Federação britânica.

Interpol emite
mandado de captura


A Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol), emitiu ontem um mandado de captura para Papa Massata Diack, filho de Lamine Diack, ex -presidente da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF).

No seu alerta, feito na rede social Twitter, a Interpol diz que Papa Massata Diack é procurado em França “por suborno, lavagem de dinheiro e acusações de corrupção”.

A fotografia de Papa Diack surge numa lista de 332 pessoas procuradas pela organização.

Em Agosto, Lamine Diack saiu da presidência da IAAF, antes de ser acusado de corrupção pela justiça francesa. O ex-dirigente e o seu filho, antigo consultor de marketing no organismo, são acusados de corrupção e suborno na ordem dos milhões de euros.

Na última semana, Papa Diack foi irradiado juntamente com mais duas pessoas pela comissão de Ética da IAAF  por implicação em actos de corrupção. A irradiação aplicava-se também aos russos Valentin Balakhnichev, tesoureiro do organismo máximo do atletismo até Dezembro de 2014 e antigo presidente da federação do seu país, e Alexei Melnikov, antigo treinador da selecção de marcha.

A IAAF foi abalada por suspeitas de corrupção e irregularidades relacionadas com doping, na sequência de um relatório divulgado em Novembro pela Agência Mundial Antidopagem (AMA), que já levou à suspensão da Federação Russa de Atletismo, por uso sistemático de doping.