Jornal dos Desportos

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Discrepância da Wada

Francisco Carvalho - 28 de Julho, 2016

A Rússia não participa.

Fotografia: AFP

Os Jogos Olímpicos do Rio'2016 ficam marcados na história. Para além das sabotagens nas obras de acomodação de atletas, os conflitos entre as diferentes instituições que regulam o evento, vão ter páginas inacabadas. As perguntas crescem e sem respostas lógicas. A verdade é que os jogos decorrem sempre em cada ciclo.

No Rio de Janeiro, o atletismo ganhou destaque. A Rússia não participa. Está penalizada "por envolvimento do Estado" na cobertura de testes anti-doping. Uma justificação sem coerência. Os atletas fazem o desporto e nem todos o fazem com batota. Há pessoas honestas. Com sacrifício e abnegação, elevam as cores da bandeira russa ao pódio. Nunca foram apanhadas nos testes anti-doping. É o caso da saltadora Yelena Isinbayeva. Uma estrela mundial que ofusca interesses de muitas nações. Por realizar os treinos em território russo, está penalizada, à semelhança de atletas apanhados nos testes anti-doping. Uma decisão que não se afigura no espírito olímpico.

A campanha liderada por Sir Craig Reedie, presidente da Agência Mundial Antidopagem (Wada) contra a Rússia, falha na transparência. A entidade  utiliza duas medidas para o mesmo caso. Uma, a favor das pessoas de conveniência e outra para "persona non grata". O ódio exacerbado contra aqueles que nunca os apanhou na sua Wada, como Yelena Isinbayeva, coloca em dúvida a fidelidade dos resultados de atletas da conveniência.

O caso mais prático é a presença do norte-americano, Justin Gatlin, no Rio'2016. O favorito à medalha de ouro nos 100 metros rasos foi suspenso por cinco anos, por doping, no passado. O campeão dos Jogos Olímpicos de Atenas'2004, Gatlin, teve teste positivo e foi suspenso duas vezes na carreira. A primeira, ocorreu em 2001, por uso de anfetaminas. Sancionado por dois anos, o atleta recorreu e a punição foi reduzida a metade.

Em 2006, Gatlin voltou a cair nas malhas de doping, foi suspenso por oito anos. O atleta escapou ao banimento por ter colaborado com a Agência Norte-americana Antidopagem (Usada), a suspensão foi reduzida a metade.

Hoje, aos 34 anos de idade, o norte-americano está a correr mais rápido do que há 12 anos, quando estava no auge da carreira.  Sir Craig Reedie não está a atento a essas mudanças. Para si, é resultado do processo evolutivo de treino. Apenas isso. Haja coerência!

A brasileira Ana Cláudia Lemos cumpriu a suspensão até Julho do ano passado. A carioca está autorizada para correr na prova de estafeta dos Jogos Olímpicos do Rio'2016.
A lenda viva do salto à vara, Yelena Isinbayeva, bicampeã olímpica em Atenas'2004 e Beijing'2008, recordista mundial com 5,06 metros, nunca esteve envolvida em escândalo de doping, foi penalizada pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF) por treinar na Rússia. Caso treinasse no exterior, podia ter oportunidade como a saltadora em distância Darya Klishina, autorizada a disputar nos Jogos Olímpicos do Rio'2016, por viver na Flórida, Estados Unidos da América, onde é submetida a exames, em teoria mais rigorosas do que no seu país.

A pressão da Wada sobre o COI para afastar os atletas russos de todas as competições, peca no tratamento que dá aos atletas. Envolver Yelena Isinbayeva numa punição colectiva, é uma injustiça. Assim, também pensa Paula Redecliffe. A recordista mundial de maratona criticou a Wada e outras instituições desportivas, por tomar medidas que afectam a credibilidade dos Jogos.

"Aplaudo a decisão de impedir pessoas que já se doparam, de participar dos Jogos, mas a medida não é aplicada só aos russos. Uma mensagem forte a favor de um desporto limpo, bania todos aqueles que já foram punidos", criticou.

Infelizmente, Sir Craig Reedie e companhia estão interessados em impedir a força do atletismo russo, para facilitar a maior colecção de medalhas do país de Justin Gatlin. Fechou os olhos à presença de veterano Alejandro Valverde, protagonista do maior escândalo de doping do desporto espanhol. Os astros nadadores, os chineses Ning Zetao e Sun Yang, e o tenista croata Marin Cilic, foram punidos por doping, mas vão desfilar no Rio.