Jornal dos Desportos

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Em busca do tempo

Gaud?ncio Hamelay - Lubango - 28 de Julho, 2017

Zulmira Chempele já exercita o pé direito para a Taça de Elite

Fotografia: Edições Novembro

De calções preto, blusa branca e tranças afro, Zulmira Chempele exibe-se nos tapetes deteriorados no ginásio do Sporting de Lubango, três meses depois de contrair a lesão no tendão de aquilles do pé direito. Alongamentos e exercícios de braços dominam a sessão de treinamento, sob o olhar atento do treinador Silva Chiluama. A campeã nacional de tumbling está em recuperação para os grandes desafios.

Descontraída, Zulmira Chempele entrega-se de corpo e alma. A ginasta corre contra o tempo parado. Foram longos três meses com o pé engessado. Agora, a cada exercício, a ansiedade de atingir os níveis altos é grande. A cada orientação do técnico, a menina procura exercitá-la com esmero.

Zulmira Chempele quer materializar os propósitos definidos para 2017. O esforço e a abnegação constituem as virtudes para a concretização das promessas feitas ao clube: voltar a dar a alegria ao povo angolano.

\"Estou a treinar muito para alcançar os meus intentos. Esperem de mim bons resultados nesta época. Vou às competições para dar o meu melhor e vencê-las\", disse.

A convicção é uma certeza. A ginasta do Clube Desportivo da Huíla assegura que \"a recuperação é satisfatória\" e a perna direita deixou de ser \"grande preocupação\".

\"Graças a Deus, estou a recuperar bem da lesão. Já faço os exercícios, estou a tentar saltar e verei como está o pé. Ainda sinto uma dor ligeira, mas não me complica\", disse.

Zulmira contraiu a lesão durante uma sessão de treino na especialidade de tumbling. Após a pirueta, o pé direito sofreu entorse no contacto com o solo. O tapete deteriorado não suportou a força de poiso. As dores tomaram-lhe conta e teve de ser socorrida ao Hospital. Os médicos assistentes decidiram engessar a perna. Passados três meses, as sessões de fisioterapia decorrem bem.

A medalha de bronze nos campeonatos africanos almeja repetir a proeza noutros eventos internacionais. Todavia, aguarda pela oportunidade de voltar a integrar a selecção nacional. Agora, as forças de reconquistar a medalha de bronze são maiores e servem também para alcançar o ouro. Zulmira Chempele tem como a maior ambição participar dos Jogos Olímpicos de Tóquio\'2020. Para o efeito, está ávida em aprender cada vez mais.

\"Tenho forças para voltar a atingir os níveis de alta competição. Faltam-me tapetes, bem como de outros materiais artísticos de apoio, pois não os temos na Huíla. Garanto-vos que se tivermos as boas condições de trabalho, vamos alcançar bons resultados nas competições internacionais. A Huila possui potencial na ginástica, tem recursos humanos com progressão elevada\", salientou.

A campeão assegura que a ginástica é um desporto colectivo e individual e o investimento não é tão oneroso quanto a outros desportos colectivos. Os empresários são chamados a financiar através de patrocínio à luz da Lei.

\"Necessitamos de patrocínios com urgência. Não temos aparelhos para elevar as nossas performances. Sentimo-nos limitados, quando há vontade de se fazer mais em prol de Angola\", disse a especialista em tumbling.

Zulmira Chempele pratica ginástica há oito anos e conquistou medalhas em diferentes competições internacionais. A experiência acumulada permite-lhe afirmar-se a cada ano. Consta do seu palmarés desportivo as conquistas de medalhas de ouro e quatro de prata na prova da zona austral realizada na Namíbia em 2014 e 2016. Representou Angola no campeonato do mundo decorrido nos Estados Unidos da América, onde se classificou em oito lugar.

À semelhança de sua conterrânea, Ebo Monteiro queixa-se da falta de condições materiais para desenvolver as competências desportivas. O ginasta do Clube Desportivo da Huíla pretende melhorar o nível competitivo, mas sente-se impedido pelas circunstâncias. Entre as condições de apoio, solicita transporte, viagens, tapetes para tumbling, ginástica rítmica, esquema, acrobacia, entre outras disciplinas.

“Pretendo competir fora do país com as cores do nosso país. A ginástica é tudo para mim. Amor e alegria. Por isso, quero ver melhorias em todos os aspectos”, salientou o desejo.

Com sorriso nos lábios, Ebo Monteiro disse que se prepara para participar da Taça Elite a decorrer em Agosto na província de Benguela. A seguir, o semblante transfigura-se: a alegria alterna com a tristeza. A melancolia da alma pinta o rosto. Em voz trémula, desabafa: \"não temos transporte para ir aos campeonatos nacionais\".

O silêncio apodera-se do seu corpo. Boca fechada. Olhos prendidos ao chão. Uma voz solta à distância acorda-o da nostalgia. Lembra-se de outros tempos em que num estalar de dedos tinham os bilhetes de passagens e desafiavam os ginastas de Luanda e de Benguela, as \"potências da ginástica rítmica\", a sua especialidade. A alma ganha vivacidade e justifica que as duas províncias dominam a especialidade \"por disporem de ginásios bem apetrechados com materiais\".


EQUIPAMENTOS
Treinador clama
apoios aos atletas


Perante o olhar gritante de ginastas, treinadores e de dirigentes da Associação de Desportos Individuais da Huíla, os directores dos Institutos Médios Politécnicos na província fecham os ouvidos. São detentores de materiais de ginástica de alta qualidade comprados pelo Executivo angolano, mas recusam-se em colocá-los ao serviço dos atletas da selecção nacional.

A posição dos directores dos Institutos Médios Politécnicos da Huíla deixa frustrado os actores directos da ginástica, que vêem a deterioração dos equipamentos sem ninguém as utilizar. A dor no peito cresce todos os dias, quando se aproxima um evento nacional importante como a Taça de Elite. O potencial huilano não se vai fazer presente em Benguela por caprichos de um grupo de homens que desconhece a importância da prática desportiva na sociedade.

Cansado e muito triste, Silva Chiluama assevera que \"infelizmente, a província da Huíla está num nível muito baixo por falta de condições de trabalho\". O treinador de ginástica do Clube Desportivo da Huila considera \"triste\" ver a situação da Huila, \"rica em recursos humanos e muito mal\" na disciplina de tumbling.

\"Os nossos tapetes estão degradados e trazem lesões aos atletas. Para evitar as lesões, levamos os atletas a treinar na relva\", revelou.
O inconformismo de Silva Chiluama é tão grande que questiona a atitude das direcções dos Institutos Médios Politécnicos.

\"A província tem material que necessitamos, mas estão nos ginásios dos Institutos Médios Politécnicos. Não estão a ser usados. Os directores alegam que só com a autorização do Governo Provincial da Huila podem dispensá-los aos ginastas huilanos. Porque essa atitude, quando podem ceder os meios?\", questiona.

Silva Chiluama assegura que contactou pessoalmente todas as direcções das instituições escolares para cederem aos ginásios e receberam a mesma resposta: \"só com a autorização da direcção provincial da Educação\". Desde que deu a entrada de solicitação de autorização do uso dos ginásios à Direcção Provincial da Educação são passados muitos meses. O silêncio impera como nas profundezas dos oceanos.

\"Infelizmente, não temos respostas até agora\", lamenta o treinador.

A Taça de Elite aproxima-se e \"os atletas não estão bem preparados por falta de equipamentos condignos\". Para Silva Chiluama, a direcção dos Institutos deviam ponderar na sua posição e a direcção da Educação devia assumir uma postura de coerência.

\"A ginástica da Huíla é um desporto de todos os angolanos. Temos atletas que integram as selecções nacionais e os feitos obtidos engrandecem todos aqueles que se identificam com Angola. Infelizmente, não temos a ajuda das autoridades de direito no Lubango\", disse.

A maior parte dos melhores ginastas huilanos foram seleccionados a partir da rua. São crianças e adolescentes de famílias humildes e vulneráveis. Felizmente, já começam a assumir o espírito de partilha da bandeira nacional; são embaixadores nas competições internacionais e merecem o apoio de todos, segundo Silva Chiluama.

“Tenho a certeza de que a Huila pode resgatar o seu lugar no ranking nacional em todas as especialidades da ginástica. Perdemos o primeiro lugar para Luanda e Benguela. A falta de materiais condiciona a nossa evolução\", disse.

Silva Chiluama pede ao governo Provincial da Huíla, à Direcção da Juventude e Desportos da Huíla e à Direcção da Educação a disponibilização de materiais de ginástica colocados nos ginásios dos Institutos Médios Politécnicos para o bem da província.


TAÇA ELITE
Huíla confirma presença


A província da Huíla vai competir na terceira edição da Taça Elite a decorrer de 13 a 18 de Agosto, em Benguela, com 15 atletas em ambos os sexos, com objectivo de arrebatar o título por equipa. O Desportivo da Huíla faz-se representar com 10 atletas e o Sporting Clube do Lubango, com cinco. As duas agremiações têm ginastas bem dotados tecnicamente para conquistar as medalhas.

Destacou que, como o próprio nome diz, Elite é uma competição na qual entra apenas os melhores atletas do país. No entanto, a Huíla está a fazer tudo para classificar os melhores. O técnico indicou Zulmira Chempele, Betinho Katissapa (ambos no salto de tambling), Ebo Monteiro (na disciplina rítmica) e Diperi Segundo na disciplina aérobica.

Silva Chiluama informou que os atletas eleitos trabalham a força e a resistência neste momento.

“Temos vários atletas em preparação para a competição com objectivo de arrebatar o título”, augurou.

Recorda-se que o presidente da Associação de Desportos Individuais da Huíla, Juka Fernandes,  contestou recentemente de eleição de representantes das províncias à Taça Elite. O dirigente defendeu que as regras da Federação devem ser alteradas para equilibrar a presença das diferentes associações.

\"Não entendemos os critérios de selecção de atletas. Contudo, tivemos de aceitar as desculpas da Federação, segundo as quais o evento é destinado às atletas que obtiveram medalhas nas competições africanas\", esclareceu na altura.

Na terceira etapa da Taça Elite, a realizar-se em Agosto, a Huíla vai fazer-se representar com atletas seleccionados do Campeonato provincial realizado no ginásio do Sporting do Clube de Lubango. A presença dos atletas está tremida. Os clubes não dispõe de dinheiro, nem a Associação. Os encarregados de educação são chamados para anuir a presença dos educandos nos campeonatos nacionais.

Juka Fernandes volta a criticar as direcções de clubes, que insistem no financiamento de desportos colectivos em detrimento dos individuais.
GAUDÊNCIO HAMELAY | NO LUBANGO